
Tarefa ingrata, escolher 15 filmes de surf fundamentais. Fundamentais por quê? A idéia não foi minha, fui induzido pelo editor da revista Surf Portugal a fazer uma pequena lista para a edição de 15 anos. Odeio listas. Para começar, são sempre tão pretensiosas, tão cheias de injustiças… Contra a minha vontade, escolho e comento cada um dos filmes com detalhes que podem, ou não, justificar a inclusão deles em alguma lista séria. Não há ordem, nem hierarquia, o primeiro pode ser o sétimo e o último poderia muito bem estar em quinto. Mas, não se enganem, com todas as imperfeições, aí vai a minha listinha. E se alguém quiser usá-la como guia de constituição de uma videoteca básica de surf, garanto que não se irá decepcionar com nenhum dos títulos que a seguir recomendo:
“FREE RIDE” ? BILL DELANEY (1977) Pedra fundamental do surf performance. MR (Mark Richards), Rabbit (Wayne Barholomew) e Shaun Tomson deitando abaixo todas as portas ao som de Pablo Cruise. Uma das melhores bandas sonoras da história dos filmes de surf. Um tubo dividido entre MR e Shaun em OTW é um dos momentos definitivos do surf em película. A onda do dia surfada por MR num Honolua Bay de sonho, perde por pouco. Difícil de achar em vídeo.
“THE INNERMOST LIMITS OF PURE FUN” ? GEORGE GREENOUGH (1970) Primeiras imagens captadas de dentro do tubo. O segmento “The Coming of the Dawn” é simplesmente de derreter os miolos. Points australianos revelados com beleza comovente. Jazz da melhor qualidade. Dez passos adiante dos outros em imagens feitas de dentro (e debaixo!) de água. Disponível em sites decentes.
“STORM RIDERS” ? HOOLE/MC COY (1982) Bem vindos ao futuro! A abertura ao som de ?Riders on the Storm?, dos Doors, define o conceito de épico. Men at Work tocando “Down Under” e Rabbit surfando Burleigh perfeito. Wayne Lynch solitário no oeste australiano. New Wave. Stubbies. Thorton Fallander e Joe Engel em Nias. Que banda sonora!!! Bells gigante, Simon Anderson e Australian Crawl. McCoy filma dentro de água. Pode ser encontrado em algumas lojas na Califórnia. Tentem a Internet.
“LITMUS” ? KIDMAN/FRANK/SUTHERLAND (1996) Depois da tempestade, a bonança. Na era do vídeo, Litmus é o que melhor traduz o surf depois da maturidade. Occy usando sua britadeira nas direitas de Winkipop. Banda sonora original, criada pelos alucinados The Val Dusty Experiment. Uma animação que deixaria o Rick Griffin orgulhoso. Entrevistas contundentes e imagens espectaculares da Irlanda, Hawaii e Jeffrey’s. Jon Frank faz as imagens mais lindas já feitas com uma câmera digital. Curren improvisa na guitarra e na prancha. “Surf is not young anymore”, atesta Wayne Lynch do alto da sua sabedoria e debaixo do seu tipi. Derek Hynd desfila seu quiver nas ondas de J-Bay. Dora. Disponível no site do Wayne Lynch.
“THE ENDLESS SUMMER” ? BRUCE BROWN (1964) Didático. Romântico. O tal que nos tirou da praia e deixou nossa vida “interessante”. Descobertas(?) como Cape St. Francis e Raglan jamais serão igualadas. Banda sonora intemporal, suave e vigorosa. Califórnia, Hawaii, Austrália, está lá tudo explicadinho. Phil Edwards, Dora, Noll, a lista toda de lendas. É o primeiro filme de todo mundo. Fácil de encontrar em VHS ou DVD.

“SEPTEMBER SESSIONS” ? JACK JOHNSON (2001) Uma simples viagem às ilhas Mentawai com meia dúzia dos melhores surfistas do mundo. Slater, Dorian, Egan, Gerlach, Machado… Finalmente um cineasta de verdade no meio dessa parvalhada toda que surgia feito erva daninha, fazendo vídeo atrás de vídeo. Todo mundo já fez isso, mas Jack (deve ser mal do nome…) faz com estilo. www.poorspecimen.com. VHS ou DVD.
“MORNING OF THE EARTH” ? ALBY FALZON (1972) MP (Michael Peterson) com 19 anos em Kirra. Vida “hippie” no campo em Byron Bay, Nat Young no auge, subcultura. Terry Fitz debutando no North Shore. Uluwatu descoberta e surfada pela primeira vez. Simple Ben. O filme que mais influenciou MR e PT (Peter Townend), dois campeões mundiais, cinco títulos. Querem mais? Aquele cutback. www.morningoftheearth.net .
“COSMIC CHILDREN” ? HAL JEPSEN (1970) O incrível inverno havaiano de 69. Barry Kanaiapuni quebrando a barreira do som com uma prancha super estreita (17”) em Haleiwa. Jeff Hackman. Honolua. Jay Riddle e seus 360’s em Malibu. The Ranch! Som da colecção pessoal de Hal Jepsen: Cream, Hendrix, Rolling Stones, Dave Brubeck e BB King. Retrato fiel da geração “freakalhaça” do final dos 60. Raro, mas com uma pesquisa bem feita encontra-se na Internet. Talvez em Inglaterra ou França.
“BEYOND BLAZING BOARDS” ? CHRIS BRYSTRON (1984) O aéreo do Occy na abertura, sozinho, já justifica a presença do filme em qualquer lista. Ronnie Burns em Bali ao som dos Untouchables. Curren revolucionando e Hoodoo Gurus. Sequela de “Blazing Boards”, funciona melhor assistindo os dois, sem interrupções. Quem sabe em sites australianos? Ignorado na América. O melhor é procurar um amigo mais velho e copiar.
“THE PERFORMERS” ? HARRY HODGE/MC COY (1983) Rock’n roll. Pioneiro na série de vídeos feitos anualmente para grandes marcas de surfwear. Richard Cram rasga ondas como se fossem lençóis velhos. Rabbit. Gary Elkerton na flor da juventude passando o tractor em Sunset. Talking Heads. Raro. Internet é a solução. Quem sabe no site da Quiksilver? Diga que é caso de vida ou morte.
“SURFERS THE MOVIE” ? BILL DELANEY (1990) O último grande filme, os dois últimos rebeldes, Pottz e Dora no México. A Corona deveria ter pago milhões a Delaney por causa dessa cena que transformou a cerveja mexicana na preferida de dez entre dez surfistas. História. Neil Young e U2 ao fundo. Mas também PIL e (pasmem!) Frankie Goes to Hollywood numa das melhores utilizações musicais da história do cinema. Falar mais o quê? Nunca mais ouvi falar. Problemas de direitos de autor na genial banda sonora. Não custa tentar na França. Se virem na casa de alguém, não hesitem em roubar. Se Deus for surfista, perdoa.

“FIVE SUMMER STORIES” ? MC GILIVRAY/FREEMAN (1972) Os dois cineastas mais perfeccionistas da nossa curta história resolvem fazer um último esforço antes de irem trabalhar definitivamente em Hollywood. Chamam Bud Browne, Rick Griffin, George Greenough e os Beach Boys. O resultado foi tão bom que, de 72 até 79, lançaram todo ano cópias novas nos cinemas com sucesso. Disponível.
“EVOLUTION” ? PAUL WITZIG (1969) Wayne Lynch, 16 anos, e a primeira batida de backside. Marrocos, Roma, França e Portugal. Ericeira. Trompete, saxofone, bateria. Psicodelismo. Campeonato mundial de Porto Rico em 68. A falecida onda de La Barre, em Anglet, a ser domada por Lynch. As Mini models a enterrarem de vez as pranchas tradicionais. Dá um pouco de trabalho, mas pode ser encontrado em Inglaterra, Austrália ou França.
“SARGE’S SURFING SCRAPBOOK TAKE 1” ? PAUL SARGEANT (1990) “Punk’s not dead”. Uma visão de dentro para fora do circuito mundial. 90 foi um ano fenomenal (e determinante) para a Europa. Coxos, Hossegor, Curren, Carroll, Slater, Herring, Garcia… Todos têm lugar nos filmes de Sarge. Imagens trepidantes e cortadas em excesso criaram o estilo que Taylor Steele copiou e copia até hoje. Tentem contactar o próprio Sarge. É aquele maluco com uma bandeira australiana na lente da sua Cannon. Está todos os anos em Portugal, durante os eventos da ASP. Pagar uma cerveja ajuda.
“BEYOND THE BOUNDARIES” ? SONNY MILLER (1994) Curren de 5’7″ em Bawa 12 pés Curren de 7’2″ Curren de 6’3″ Curren de 6’7″ Curren de 6’0″ Curren tocando guitarra. Curren caminhando na água. Nas melhores lojas ou em www.ripcurl.com .