Surf seco

A lenda dos Brazilian nuts

Há mais de vinte anos rolou um duelo histórico entre um time australiano e um brasileiro. Naquela época, final dos anos 70, mais precisamente em 78, o time australiano, chamado de ‘bronzed aussies’, era formado por feras como Ian Cairns, Peter Townend, Jimmy Bank’s e Cheyne Horan.

 

Já o time apelidado de “Brazilian nuts” era formado pelo lendário Daniel Friedmann, Cauli, Paulo Tendas e outro que não lembro o nome. O confronto rolou na Prainha, Rio de Janeiro – palco do circuito mundial desde seu início, em 76, com o Waimea 5000 no Arpoador, vencido pelo saudoso Pepê Lopes…

 

Nesse mesmo ano do antigo circuito IPS (International Professional Surfers), um esboço do primeiro circuito mundial, que durou até 82 e tornou-se ASP (Association of Surfing Professionals) em 83, Pepê Lopes, no auge de sua carreira, chegou na final do Pipe Masters e ficou em sexto no circuito daquele mesmo ano.

 

Naquela época, o Pipe Masters, dominado por Gerry Lopez, Rory Russel, Jackie Dunn e Jeff Crawford, tinha apenas 24 convidados. Pepê fez seu nome nesse evento histórico e terminou o ano como top do ranking, depois de fazer a final e conquistar a vitória no Waimea 5000 no Brasil.

 

Nos anos 70 já existiam os brasileiros dropadores de Pipe, como Ratão, Otávio Pacheco, Ianzinho, Paulo Tendas, Fabrício, Paulo Uchôa, Natividade e outros – eu era bem garoto para lembrar e só via as fotos nas revistas.

 

Daniel Friedmann venceu o Waimea 5000 em 77, num dia épico no Quebra-Mar. O outro finalista era o tuberider Pepê Lopes. Foi um show de tubos e os brasileiros derrotaram Dane Kealoha e Michael Ho nas semi-finais para fazer uma histórica dobradinha brasileira.

 

Não é de hoje que os “Brazilian nuts” representam o país mundo afora…

 

Quando cheguei pela primeira vez no North Shore de Oahu, no Hawaii, em janeiro de 81, foi impressionante e marcante (na primeira vez tudo é sensacional) ver Renan ‘the crab’ Pitangui dropar lá de fora no Banzai Pipeline, Roberto Valério roubar a cena no inside de Sunset com 10 pés passando por dentro, Valdir Vargas pegando tubo em Pipeline relaxado como um sábio local… Eles eram nomes de peso naqueles dias de Pipeline 15 pés.

 

Os “Brazilians” sempre nos representaram… Sem falar nas loucuras que escutávamos dos cascas-grossas das antigas que dropavam até a mulheres dos caras… Mas isso é melhor deixar quieto.

 

Eu passei a triagem do Pro CLass Trials em Sunset, em 83, e fui convidado para competir no Pipe Mastrs e na World Cup. Só eu e o Valério naquele ano. Foi um pagamento divino, pois ralei muito para estar ali. Passei o ano todo trabalhando ilegalmente no sistema americano, pedalando os extintos pedcabs… Éramos odiados pelos locais…

 

Tive que sobreviver a ataques de samoas, filipinos, negões, bandidos polinésios, bêbados à noite e donos do pedaço, te chamando de haole e te cuspindo dos carros… Tudo pelo surf… Se fosse hoje e eu estivesse habilitado (e se…), minha vontade seria dar porrada ou meter bala.
 
Valério arrepiou em 85 no Triple Crown com um nono e um quinto nos campeonatos Billabong e World Cup. Em 88 foi a vez do jovem Carlos Burle mostrar seu talento logo cedo,em Sunset. Naquele ano, ainda garoto, o Burle arrepiou.

 

Meu último ato foi no Billabong 90 em Sunset. Daí em diante Fábio Gouveia venceu em 91 em Sunset, Peterson apavorou Sunset e deixou um tímpano num floater, Burle foi campeão mundial de ondas grandes em 98, em Todos Santos 40 pés, Rodrigo Resende roubou a cena nos Big Trips, Renan Rocha arrebentou no Pipe Masters em 2000 e Resende venceu o primeiro mundial de tow-in, junto com Garrett McNamara, em 2002.       

 

É… Os “Brazilian nuts” estão aí, com Burle e Resende na lista de alternates do Eddie Aikau, o que mostra o reconhecimento e o respeito conquistados nos dias de hoje.

Parabéns à geração Gouveia/Padaratz, que mudou o rumo da história do surf brasileiro no cenário mundial.

Aloha!

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