América do surf

A irmã latina de Sunset

Há quase 40 anos, mais precisamente no dia 29 de junho de 1965, três jovens amigos peruanos, Miguel Plaza, Joaquín Miro Quezada e Francisco Aramburu, dirigiam-se mais uma vez à famosa onda de Punta Rocas quando, da estrada, viram novamente quebrar uma monstruosa onda no meio do oceano.  

 

Fazia muito tempo que eles viam essas morras quebrarem solitárias no meio do mar, sem nunca antes terem sido surfadas. Os mais experientes “tablistas” do “Clube Waikiki de Tabla Havaiana” recomendavam aos adolescentes que não entrassem lá sem antes mergulhar e inspecionar o fundo, para saber se a onda poderia ser surfada sem maiores problemas.

 

Por um longo tempo esses comentários desanimaram os jovens e aventureiros surfistas a encarar a missão. Mas, naquele 29 de junho, dominados por uma descarga de adrenalina, os membros do CCC – Clube de Corredores Capos, como eram chamados, estacionaram o carro e remaram os mil e quinhentos metros para chegar até as massas de água.

 

De acordo com Miguel Plaza, não era um dos maiores dias, mas as ondas estavam enormes. “Estacionamos o carro, pegamos as pranchas e descemos todo o morro até chegar na areia, para entrar na água. Decidimos entrar pelo lado esquerdo da arrebentação, para evitar que não fôssemos surpreendidos por alguma série. Naquela época ainda não existiam pontos de referência, como as casas de hoje, para nos posicionarmos bem no line-up”.

 

“Mas nossa vontade de pegar a primeira onda no lugar era tão forte que apenas vimos algo que se levantava em nossa direção, remamos com todas nossas forças e assim aconteceu de os três correrem a primeira onda da história do lugar”, conta Plaza. “Ao voltarmos a Lima, já tínhamos definido um nome: Pico Alto, devido ao formato da onda”.

 

Assim foi inaugurado oficialmente o surf em Pico Alto e, a partir daquele momento, alguns dos melhores surfistas peruanos e do mundo, como o campeão mundial de 1965, Felipe Pomar, os irmãos Hanza, os irmãos Barreda, e outros, começaram a se destacar na onda. Além do talento para o surf em ondas grandes, eles também treinavam para a Meca do surfe mundial, o Hawaii, onde eram figuras respeitadas.

 

“As sessões de surfe em Pico Alto eram bem longas, pois ninguém usava cordinha e se perdesse a prancha podia demorar entre meia hora ou quarenta e cinco minutos para sair e entrar de novo, sem falar nas vezes em que a espuma arrancava a prancha e era necessário nadar tudo de novo. Lembro um dia em que entrei quatro vezes e tive inclusive que pegar outra prancha, porque a correnteza tinha levado a primeira para Caballeros ou Señoritas, ou jogado nas pedras”, conta o pioneiro Miguel Plaza.

 

Dois anos depois de inaugurar uma das maiores ondas do mundo, Joaquín Miro Quezada morreu surfando em Pipeline em um dia com ondas entre 2 e 3,5 metros, ao bater com a cabeça nos corais do fundo.

 

Em 1966, Felipe Pomar escreveu na revista Surfer um pequeno artigo dizendo que “Pico Alto is better than Sunset” (Pico Alto é melhor que Sunset), e apresentou a onda para o mundo. Durante os anos seguintes, o pico foi bastante frequentado, mas de 79 a 86 as ondas do local saíram do roteiro dos surfistas e ficaram novamente solitárias.

 

Em 1987, os surfistas de Lima Magoo e Max de la Rosa, Titi de Cole, Tony Maldi e o veterano Felipe Pomar “redescobriram” Pico Alto em um dia de ondas de 5 metros durante a Semana Santa. Alguns dias depois, quando as ondas chegaram quase aos 7 metros, os surfistas locais foram acompanhados pelos gringos Mark Foo, Richard Schmidt e James Jones, além do fotógrafo Robert Beck, o primeiro a tirar fotos de Pico Alto de dentro da água.

 

O primeiro campeonato em Pico Alto, chamado “José Rizo Patrón Invitational”, foi realizado em 1993 e vencido pelo local Fernando Parraud. Desde então vários campeonatos foram realizados no lugar.

 

Pico Alto localiza-se no quilometro 44 da estrada Pan-Americana Sul. Segundo os locais, a melhor época do ano ocorre durante o mês de maio. Para chegar até lá é necessário remar durante 20 minutos e atravessar cerca de 150 metros de zona turbulenta. O maior diferencial de Pico Alto é o fato de a onda ser bastante longa em seus bons dias, com paredes de mais de 200 metros registradas.

 

Apesar de rochoso, o fundo não representa perigo, devido ao grande volume de água. O problema é o tempo em que o surfista fica preso embaixo da água durante um caldo. Já o tamanho das ondas pode variar bastante, e já foram vistas ondas de até 12 metros com boa formação.

 

 

Agradecimentos especiais a Miguel Plaza e J. C. Schiaffino.

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