América do surf

A história do surfe no Uruguai

Ao final dos anos 50, na praia de Pocitos, Montevidéu, havia um guarda-vidas chamado Omar “Vispo” Rossi quem, sem ter a menor idéia de que existia um esporte chamado surfing, fabricava uma espécie de prancha oca de madeira forrada com lona, de 2,5 metros e meio de comprimento e a usava, auxiliado por um remo, com seus filhos nas pequenas ondas de Montevidéu. Em dias de forte vento sul, com ondas um pouco mais fortes, “Vispo” ficava em pé nas ondas.
 
Em 1960, a indústria açucareira do departamento de Artigas – ao norte do Uruguai – estava em crise. Uma empresa estrangeira latifundiária explorava um grupo de trabalhadores dessa indústria, aos quais dava péssimas condições de moradia e higiene. 
 
Esta situação fez com que ocorresse um pequeno levante por parte dos empregados, que causaram a saída deste explorador país. Para substituí-lo chegou do Hawaii, acompanhado de uma prancha de surf, um engenheiro agrônomo chamado Morton Rothberg.  
 

Em pouco tempo ele conheceu uma professora do pequeno povoado de Bela União – irmã de Abner “Chiquito” Prada, jovem amante do mar, mergulhador, praticante de esqui-aquático e proprietário de uma casa no balneário La Paloma, epicentro do surf no Uruguai. 
 
A professora apresentou o americano a uma amiga, pela qual ele se apaixonou e casou. Depois, mudou-se para Paysandú, mesma cidade onde morava Chiquito. Um dia, Morton e Chiquito foram apresentados na casa do havaiano.
 
O uruguaio, curioso ao ver a prancha, perguntou o que era aquele raro instrumento. Ele explicou que era uma prancha e que servia para desempenhar um antigo esporte havaiano e que ele não tinha deixado de trazer, pois, antes de viajar, tinha visto que em nosso país tinha uma bela costa atlântica.  
 

Chiquito, que passava todos os verões vendo quebrar solitárias as ondas de La Paloma, confirmou a existência de boas ondas. Uns dias depois, uma família de Artigas convidou Morton a passar um fim de semana em nosso principal balneário: Punta del Este. Rodberg levou sua Downing 10 pés e, em um dia perdido em fins de 1961, ele deslizou com sua prancha nas pequenas ondas da praia de Portezuelo. Foi a primeira vez na história que alguém surfou o litoral uruguaio usando uma verdadeira prancha de surf.
 
No verão de 1963, Chiquito Prada convidou Morton para ir a La Paloma, onde foi o primeiro a surfar algumas das melhores ondas do Uruguai: Zanja Honda, Corumbá, Los Botes etc. Quando Morton saía da água, Chiquito pegava a prancha e surfava tudo o que podia.  Ao finalizar o verão, Morton voltou às suas plantações e, antes de subir no trem, telefonou para Chiquito e disse que tinha um presente para ele: a prancha ficou em La Paloma.
 

##

Uns meses depois, o ambiente na indústria açucareira estava muito politizado e violento. O gringo, considerado “controlador”, não era benvindo. Portanto, voltou às ilhas, onde lhe foi designado outro destino para trabalhar: Salvador, Bahia, onde morou por aproximadamente 20 anos. Hoje, ele mora na Califórnia.
 
Por outro lado, em Punta del Este – balneário internacional que durante o verão é habitado pelas pessoas mais ricas do Cone Sul – os visitantes argentinos Adolfo Cambiasso e Tano Pugliese começaram a surfar, ao redor de 1963, com umas Hobies – as melhores e mais conhecidas pranchas daquele momento, trazidas da Califórnia.
 
A fonte mais importante da cultura do surfe no Uruguai foi criada pelo hoje professor Ariel González, Vispo Rossi, Jaime Mier e sua banda de amigos de Pocitos. Ariel era um jovem esportista que morava em Pocitos, bairro residencial da classe média, que está circundado por uma extensa praia, e, desde pequeno, sempre amou o mar e seu entorno. Seus familiares eram mórmons (ramo da religião protestante) e permanentemente recebiam missionários de todas as partes do mundo.  
 

Segundo ele, “em um certo dia de 1963 chegou um americano chamado Elder Christiensen, com sua Bíblia, uma flauta doce e umas revistas. Eu vi o colorido das revistas e perguntei de que se tratavam. O americano disse que morava em Palos Verdes, Califórnia, e os pais lhe mandavam de lá revistas sobre surfing.  Surfing? – eu perguntei.  O que é isso?  Peguei a revista e fiquei deslumbrado.  Você as quer emprestadas?, ele perguntou.  Sim!, respondi-lhe”.
 
A partir daquele momento, Ariel e seu cunhado Jaime Mier começaram a experimentar com dezenas de instrumentos para poderem deslizar pelas ondas da mesma forma que Farrelly, Nuuhiwa e Carroll faziam. Não conseguiram. 
 
Logo, Ariel estabeleceu contato por carta com um peruano chamado Luis Caballero Vegas, representante das Hobie no Peru. A resposta do peruano não demorou, com péssimas noticias: as pranchas eram muito caras. De todas formas, o laço com o Peru ficou estabelecido e deu frutos alguns anos depois.
 

Em um dia de forte vento sul no verão de 63-64, Ariel e Jaime caminhavam pela praia de Pocitos quando, impressionados, vêem um cara correndo uma onda parado, usando remos nas mãos.  Paralisados por presenciar à “surfing” à sua frente, ou algo bastante parecido ao que estavam tentando fazer já havia alguns meses, esperaram até que o misterioso sujeito saísse da água. 
 
Ajudaram “Vispo” Rossi a carregar sua invenção e se apresentaram, dizendo-lhe que estavam muito interessados em correr ondas.  Vispo, uma pessoa amigável, emprestou a “prancha” pelo resto do dia. “Levamos tremendos tombos, parecia mais uma canoa, não tinha quilha, virava a troco de nada, mas a gente se divertiu horrores …”, conta Ariel.
 
No dia seguinte, Ariel levou para mostrar ao Vispo as revistas que tinha recebido alguns anos antes. Ele ficou assombrado, pois aquilo que ele imaginava ter inventado já existia e evoluía em algumas partes do mundo.  
 
Essa união entre Vispo, Ariel e Jaime fez com que se formasse na praia de Pocitos um núcleo de jovens, então considerados esquisitos para a sociedade da época. Amantes das ondas, mas de certa forma, ao menos nesse verão, ficaram frustrados por não poder conseguir o instrumento adequado para surfar.

##

No inverno seguinte, 1964, chega a noticia de que no centro de Montevidéu estavam fazendo pranchas numa fábrica de barcos e canoas especialistas em fibra de vidro. O dono da fábrica, Dasur, tinha visto os argentinos com as Hobies em Punta del Este um ano ante, e tinha pedido uma emprestada para copiá-la. 
 
Acompanhe o relato de Ariel González: “Nós fomos correndo até a fábrica. Chegamos e vimos umas 20 pranchas de todas as cores, uma ao lado da outra. Quanto custa? Muita grana… Mas fizemos uma sociedade com Jaime e outro amigo Yuri Povoski, juntamos o dinheiro e a compramos. Depois de uns dias fomos para Piriápolis – praia a uns 90 km de Montevidéu – e assim começamos”.
 
Depois,mostraram a prancha ao Vispo e, no verão, foi armado o templo do surfing numa das barracas dos guarda-vidas da praia de Pocitos, na descida da rua Pereira. De posse de uma prancha, cada vez mais pessoas iam se somando, mais jovens sentiam curiosidade, amor pelo oceano e vontade de correr ondas. Naquele mesmo verão, Ariel comprou outra prancha. Esse grupo de jovens de Pocitos deu início ao surfing no Uruguai.  
 

Evolução – As fontes se entrelaçam


 
Cada vez foram adquiridas mais e mais pranchas Dasur e começaram a programar “surfaris”. Sabiam que no Atlântico as ondas eram bem melhores. Ariel e outros amigos foram um dia para Punta del Este e, ao surfar na praia La Olla, ficam de boca aberta ao ver que outras pessoas estavam surfando. 
 
Eram os argentinos Cambiasso e Pugliese. Poucas ondas depois, tornaram-se grandes amigos, o que mostra como eram diferentes as coisas antigamente. Em outra ocasião, também de “surfari”, foram até o Chuí e começaram a percorrer, de leste a oeste, praia por praia, toda a costa Atlântica uruguaia. 
 
Surfaram pela primeira vez as ondas alucinantes de Santa Teresa. Quando chegaram a La Paloma, alguém disse que havia uma pessoa surfando no El Faro. Sem poder acreditar, foram imediatamente até lá. Chiquito Prada estava surfando com a Downing presenteada por Rodberg. Acabaram surfando juntos e ficando amigos.
 

Uma vez iniciado no surfing, Ariel escreveu novamente para seu amigo peruano para contar que o esporte tinha nascido no Uruguai. Este respondeu com um convite para participar do famoso Campeonato de Tabla Havaiana que acontecia no mês de fevereiro.  
 
“Economizei o ano inteiro e em fevereiro me mandei pra lá”.  Ali, ele pôde ver o verdadeiro surfing. Surfou com monstros como George Downing, Butch Van Artsdalen, David Nuuhiwa, Felipe Pomar, Corky Carroll, Joey Cabell etc. 
 
Os peruanos emprestavam a prancha e ele experimentou o que era o surfing no mundo. Quando voltou para Montevidéu, começou a trabalhar duro novamente e remar com sua Dasur, para voltar ao Peru e manter seu estado físico. No ano seguinte, voltou e trouxe sua primeira prancha havaiana, com a qual podia deslizar da mesma maneira que seus ídolos. 
 
Naquele período, a quantidade de surfistas da praia de Pocitos era bastante grande e a experiência de Ariel foi uma importante influência. Com o passar do tempo, surgiram novas gerações e o surfing começou a separar-se de Montevidéu e a se radicar em outras partes do Uruguai. Formou-se um grupo em Las Toscas – uns 50 km ao leste de Montevidéu – que teve como menino prodígio Roberto Damiani, um excelente surfista e o primeiro shaper do Uruguai. 
 

##

Vispo Rossi comprou um terreno em La Paloma e construiu uma casa que foi centro de reunião do grupo de surfistas da época, da mesma forma que tinha sido sua barraca de guarda-vida. Ariel continuou indo aos Campeonatos de Prancha Havaiana e, em 1970, viajou ao Hawaii com Joey Cabell, onde trabalhou e surfou as melhores ondas de sua vida. 
 
Ao retornar, trouxe seu amigo havaiano para que conhecesse as ondas da costa uruguaia. Ele se encantou com uma onda buraco chamada Corumbá, em La Paloma. Além disso, mostrou para os irmãos uruguaios como deslizavam os melhores. Nos anos 70 e 71 foram realizados os primeiros Campeonatos Riopratenses de Surf, na praia de Manantiales (Maldonado).  Ariel González foi campeão em ambos.
 
Numa triste tarde de 1978, o surfe uruguaio perdeu seu grande incentivador. Ao tentar arrumar o teto da casa com alcatrão quente, Omar Vispo morreu, vítima de fortes queimaduras. Seus restos mortais foram atirados pelos queridos amigos em sua amada Praia dos Botes.  
 
Aí, a comunidade surfista sofreu uma racha, acentuado ainda mais no começo da ditadura.  O surfe, igual a qualquer outra atividade, entrou em recessão. Não importava onde você surfasse, tiravam para fora d’água, ficavam com tua prancha e te levavam preso por umas horas.  O sentimento era amargo.
 

Em 1979, um surfista chamado Pablo Etchegaray fez uma primeira tentativa de formar uma Associação de Surf e ralizou-se um Campeonato Internacional em Punta del Este, com brasileiros e argentinos. O brasileiro Daniel Friedman ganhou o evento e, em segundo lugar, ficou Roberto Damiani. Em 1982, uma equipe da revista Surfer, integrada por Martin Potter, Pat Mulhern, Paulo Tendas e o fotografo Erik Aeder, editou artigo com altas ondas sobre o Uruguai.
 
Com o fim da ditadura e o conseqüente crescimento econômico, além do famoso boom do surfing nos anos 80 – quando passa a ser profissional – a situação mudou de uma vez por todas. Cresceu a população surfista em todos os pontos da costa, foram abertas diversas lojas de surf, chegaram muitas pranchas, principalmente do Brasil, além das muitas outras que já eram feitas aqui.
 
Em 1985, Pablo Etchegaray criou a Associação Uruguaia de Surfe, modificada em 1993 para União de Surf do Uruguai e, com ela se fez, ano após ano, até o ano 2000, uma seleção para competir nos Campeonatos organizados pela ISA e a PASA – Pan American Surfing Association-.
 

Em 1997 nasce a revista de surfe Mareas e o programa de radio Adrenal X. Desde 1996 ate 1999 a marca Reef Brazil trouxe o Circuito Mundial WQS a Punta del Este com todas suas estrelas. Em 2001 foi realizado o último Campeonato Uruguaio de Surf. Brigas infantis regionais e institucionais e uma crise econômica cada vez maior deram adeus ao surfing competitivo uruguaio. Hoje não existe nenhuma associação para organizar campeonatos. 
 
De vez em quando, se faz algum evento meio “entre amigos”. No entanto, a cada dia cresce o número de surfistas, tanto crianças, como jovens e adultos. Alguns são muito bons, mas lamentavelmente não encontram campo para evoluir e acabam trabalhando em algum lugar durante o verão e viajando no inverno. Os outros têm uma vida tradicional, igual à maioria dos uruguaios

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)