A história do bodyboard feminino – Parte II

Estabelecer um link com o futuro é uma das minhas principais tarefas nesse esporte, pois sendo pioneiro e envolvido até hoje sob diversos aspectos com o bodyboard, tornou-se quase uma obsessão relatar às mais novas gerações o legado que elas tem na mão.

 

Ao iniciar o relato sobre o bodyboard feminino no Brasil, há três meses, me surpreendi com a receptividade e retorno da coluna. A participação de várias bodyboarders foi emocionante e positiva.

 

Algumas correções e acertos se fizeram necessários. Um exemplo foi a colocação do nome de Márcia Carvalho como atleta pertencente a primeira geração de bodyboarders. E também a de Márcia Marinho na segunda geração, juntamente com Débora Sarmento, Roberta Milazzo, entre outras.

 

Na coluna, o relato finalizava a década de 80 e deixava a próxima para a seqüência, ou seja, o período entre a década de 90 até os dias de hoje.

 

Vimos que a maior conquista nos anos 80 foi a criação da categoria profissional feminina, em 89, com Isabela Nogueira sagrando-se a primeira campeã brasileira profissional. Naquele mesmo ano, Stephanie Pettersen seria capa da revista Fluir Bodyboard.

 

A década de 90 inicia com chave de ouro, rolando o primeiro Pipe Master da história. Stephanie, com seu estilo agressivo e radical, comprova a excelente fase e leva o título, com a paulista Cláudia Ferrari fica segundo.

 

Naquele mesmo evento, talentos da novíssima geração começavam a despontar. Daniela Freitas participa da final e chega em quarto lugar, além das fotos, em todas as publicações especializadas da época, de um belíssimo el rollo em seqüência.

 

O evento rende os frutos e a paulista Sandra Ferraz faz história com uma capa na revista Fluir Bodyboard, em um drop animal para Backdoor. Enquanto isso, Leila Alli é capa da revista Flipper, publicação japonesa, colocando o bodyboard brasileiro em evidência do outro lado do mundo.

 

Por aqui, apesar das dificuldades político-financeiras que o país vivia, o circuito brasileiro, através da ABRASB, continuava o seu papel, revelando talentos em todos os pontos do país. Principalmente na região nordeste, começam a aparecer os primeiros nomes.

Clarice Leão (RN) e Bianca Andrade (AL) são exemplos.

 

Bianca tornou-se campeã brasileira amadora no final de 91. Stephanie Pettersen confirma seu talento e garra e sagra-se campeã brasileira profissional naquele mesmo ano.

 

O ano de 91 também se mostrou promissor nos circuitos estaduais, como o do ES, que apresentou sua representante, Raquel Brandão. No Rio, em uma final inesquecível do circuito Carioca ABBERJ – Associação de Bodyboard do Estado do Rio de Janeiro, em Saquarema, Cláudia Castello rouba a cena e derrota Mariana Nogueira em um mar casca-grossa.

 

Glenda Koslowisck, com apenas 16 anos, sagra-se campeã do Pipe Master, em sua primeira participação como profissional. Morando em SP desde 90, pude acompanhar de perto as expoentes da época, principalmente os talentos locais que passariam a ganhar

reconhecimento e experiência, a ponto de figurarem na mídia e serem a primeira geração de talentos desse esporte a reconhecer o exterior como uma opção de vida e de carreira profissional.

 

O primeiro nome, sem dúvida, é o de France Hazar, que rumou para o Hawaii e depois fixou residência na Austrália, onde casou-se com o campeão mundial de surf, Barton Lynch. Bodyboarder sedenta por ondas grandes, ganhou respeito e admiração, não por títulos, mas sim por atitude e personalidade em mares como Pipe e Sunset. Essa trilha foi seguida de perto por outras paulistas: Alessandra Bove e Cris Munhoz simplesmente moravam no North Shore e ao longo do ano surfavam Austrália, Indonésia, etc.

 

Essa geração de talentos ?made export? iniciou-se por volta de 1992 e se estende até os dias de hoje. Nessa lista temos nomes como a atual ?australiana? Stephanie Pettersen e a carioquíssima do Leme, Leila Alli. Além de Flávia Lobo, que mora na Costa Rica há dez anos.

 

Na safra das bodyboarders paulistas que ganhariam destaque na mídia nacional, estão nomes como Bianca Brostowickz, que recentemente arrebatou um título de uma etapa do paulista 2004, Milena Amaral, Carina Miyakawa e Lissandra Tutty.

Com a clara decadência na organização política esportiva do bodyboard brasileiro, que acompanhou as dificuldades econômicas do nosso país, a opção de se tornar uma atleta residente no exterior tornou-se, senão a única, a mais viável profissionalmente,

principalmente para as mulheres.

 

Stephanie emplaca o tricampeonato no Pipe Master em 94. Com a criação do circuito mundial, iniciado pela GOB, a paulista Cláudia Ferrari confirma a ousadia das brasileiras que se aventuraram no exterior e arrebata o primeiro título mundial reconhecido através de uma entidade representativa, em 95. No mesmo ano, a catarinense Soraia Rocha mostra sua força e coloca o sul do Brasil na lista das campeãs brasileiras profissionais.

 

Em 96, último ano que morei em SP, vivi uma experiência fantástica. Durante uma visita de nossa patrocinada, a portuguesa Dora Gomes, em uma conversa sobre as brasileiras, disse que elas eram um talento extraordinário, quase impossível de se alcançar. Mas

também disse que elas tinham algo que ela não tinha tido até então, uma prancha shapeada especialmente para ela. Fiquei muito emocionado, principalmente por que naquele mesmo ano, Dora disputaria na praia de Huntington, Califórnia, o ISA Games.

 

Fiz sua primeira custom board e ela ficou em segundo, atrás da campeã Daniela Freitas. Aliás, a Campeã Mundial Daniela Freitas. É isso, valeu Dora!

 

No ano seguinte, 97, retornei à minha cidade natal, o Rio de Janeiro, lancei a marca Kung Bodyboard e fui ao Japão acompanhar a primeira etapa do circuito mundial. Fui também fazer a cobertura do evento para a revista Style. Lá, pude comprovar que a hegêmonia do bodyboard feminino brasileiro continuava inabalável. Dois eventos realizados e duas

brasileiras levaram os títulos. No primeiro Soraia Rocha e no segundo Karla Costa. Mas, o circuito estava apenas começando e Daniela Freitas repetiria o feito, tornando-se bicampeã mundial pela GOB. No Brasil, a paulista Lissandra Tutty foi a campeã brasileira profissional.

 

A conturbada década de 90 segue seu curso. Tutty mostra que está em ótima fase e arrebata um título no circuito mundial, ganhando a etapa de Ilhas Reunião, em 98. Mariana Nogueira ganha a etapa do circuito mundial no Rio e no final do ano, grávida de Mariah, é coroada campeã mundial de bodyboard.

 

O último ano da década de 90, 1999, foi o mais inusitado no Brasil. Pela primeira vez a falta de renovação do bodyboard feminino carioca se mostra evidente. Claramente

exposto a má administração estadual e sem revelar os novos talentos que acabariam sendo exportados, deixando espaço para outros Estados. Desta maneira, as primeiras posições da categoria profissional no brasileiro ficaram com Isaura Barros (RN), Neymara Carvalho (ES), Soraia Rocha (SC) e Lissandra Tutty (SP).

 

As cariocas viraram produto exportação, da mesma forma que as paulistas. Dani Freitas casada com o havaiano Lanson Ronquillo, dá espaço para a maternidade e se muda de vez para o Hawaii. O ano é de Karla Costa, que se tornaria campeã mundial. E não foi só isso, mostrou ao mundo sua categoria na capa da revista Bodyboarding, em uma esquerda perfeita em Padang Padang, na Indonésia.

 

O novo século se aproxima e as brasileiras continuam a arrebatar os títulos mundiais. Soraia Rocha se tornou bicampeã mundial em 2000 e 2001. Karlinha, agora senhora Taylor – pois casou com Alistar Taylor, bodyboarder sul-africano – leva mais uma para o Brasil, ganhando o ISA Games em Maracaípe, Pernambuco.

 

Novamente o sul do Brasil se mostra uma potência no bodyboard feminino. Joselaine Amorim (RS) e Gabriela Araújo (SC) figuram entre as tops do Brasil. E também o Espírito Santo, com Neymara Carvalho, atual campeã mundial, e Cristiane Kale na amador.

 

O novo século mostrou também que independente da iniciativa das entidades esportivas, o bodyboard feminino está promovendo sua renovação através de iniciativas

criativas, que, sem dúvida, tem na internet uma poderosa ferramenta de divulgação. É o caso do site Garotas Bodyboarders, que através da atleta Renata Cavalleiro está divulgando, arrebanhando, promovendo e principalmente valorizando o espaço que as mulheres da nova geração de bodyboarders brasileiras merecem.

 

Finalmente, e é sempre bom lembrar: o bodyboard feminino não se resume apenas aos títulos ou campeonatos conquistados. Tenho a certeza de que muito do conquistado é fruto também das anônimas que nos cercam e fazem do bodyboard brasileiro o melhor do mundo. E para todas as mães, esposas, namoradas e amigas, quero dizer o meu muito obrigado. Vocês são demais!

 

Vejo vocês na água…

 

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