Darkside California

A história da subcultura

Capa do filme Darkside, produção da marca Weird. Foto: Reprodução.

Durante os meses de setembro e outubro de 2008, peguei minhas malas, consegui uma passagem para os Estados Unidos e desembarquei no aeroporto de Los Angeles, Califórnia (EUA).

 

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E, nessa simplicidade, começou o processo de colher depoimentos para o projeto da marca Weird, chamado Darkside ? a surfing evolution documentary -, buscando capturar a visão de alguns dos aerialistas californianos que tanto influenciaram não apenas eu, mas muitos adeptos do surf progressivo ao redor do mundo.

 

Nomes como Ratboy, Aaron Cormican, Ryan Carlson, Fletcher, entre outros, eram alguns que precisavam estar em um documentário que contasse a história da subcultura, que por algum tempo foi incompreendida e criticada.

 

Chegando ao aeroporto, tive que descobrir um jeito de pegar o trem para San Diego. O problema era que o trem não saía diretamente do aeroporto, portanto tinha que descobrir uma maneira de encontrar o maldito transporte e como chegar até essa estação.

 

Depois de meia hora dentro de um ônibus que me levaria até a uma estação central de metrô e ônibus, consegui pegar meu trem até San Diego, onde ficaria hospedado na casa de uma amiga brasileira que mora na cidade.

 

Equipado com apenas uma câmera, tripé, pranchas e roupas, tinha apenas como referência alguns contatos como Ryan Carlson, o produtor de filmes Jeff Simonson e alguns outros. Mas não tinha muita idéia de onde ficavam.

 

Depois de algumas ligações, consegui entrar em contato e vi que as distâncias não eram tão próximas e que precisaria de um carro. Além deles não serem tão organizados com compromissos e agenda como estamos habituados, ao menos alguns de nós.

 

Contudo, aluguei um carro e parti rumo ao Norte, primeiramente para Huntington Beach, local de Ryan Carlson, que havia se mostrado bem simpático nos contatos feitos desde o Brasil. Ao chegar, liguei e marcamos de nos encontrar na casa onde ele estava hospedado.

 

Por lá, todos moram de favor, jogados, nômades. E no caso de Ryan, ele havia passado por um divórcio e estava reconstruindo sua vida, batalhando pela guarda da filha e morando na casa de um amigo.

 

Obviamente me perdi e tinha apenas duas moedas, o que dava apenas para uma ligação. Então ele atendeu e marcamos de nos encontrar em frente à loja Jack?s, que fica em frente ao famoso píer de H.B. Como ele não me conhecia, e eu também não saberia diferenciá-lo facilmente (dono de uma aparência típica americana), combinei de estar com o tripé e câmera em mãos para reconhecimento.

 

Cerca de quinze minutos depois nos encontramos. Fomos até a casa de uns amigos, onde havia muita cerveja, mulheres e a bagunça toda. Afinal de contas, já eram duas da tarde, hora de festa!

 

Consegui armar o equipamento e fomos até o porão, onde ele me mostrou imagens de seu arquivo. Lá, fizemos o que veio a ser a mais longa e rica entrevista de toda minha viagem!

 

Acabamos em um bar com todo mundo, sinuca, karaokê, o pessoal começou a ir embora e não tinha onde dormir, fora o receio de aceitar o convite de ficar na casa, já que nem era dele. Foi a primeira noite no carro-casa, relembrando as boas viagens do filme anterior da Weird, ?Drive?n Throw Up?.

 

No dia seguinte, filmamos o surf, obviamente não tão cedo como costumamos filmar no Brasil. O mar estava pequeno, algumas marolas. Nada de mais. Fomos até próximo a Newport e também nada. Voltamos para casa e ele me cedeu inúmeras imagens de seu arquivo para o filme.

 

Agradeci por tudo e era hora de subir atrás de mais contatos. No dia da despedida com Ryan, conheci Mike, da Darkride Skateboards, que patrocina alguns dos Weirdos, como Etam Paese, Alan Fendrich e caras como Justin Matteson, entre outros.

 

Mike é o típico ídolo dos filmes americanos. Ele dirigia uma espécie de Dodge azul todo arregaçado, sem porta, espelhos, fedido, latas de cerveja por toda a parte, um crânio no porta-malas, etc. Ao chegar até a casa onde estávamos ele já foi batendo a frente do carro no muro para parar. Identifiquei-me na hora.

 

Entrei na espelunca que ele chamava de carro e fomos buscar um amigo seu que era profissional de skate. O skatista chamava-se Dave Reul, era da época de Dogtown e destruía os bowls californianos, invadia propriedades e a coisa toda.

A casa do sujeito era tão imunda que, ao chegar, já recusei o convite para dormir. Meu carro era mil vezes mais organizado do que qualquer cômodo.

 

O banheiro tinha três wetsuits cheios de areia no chão, latas de barbear jogadas na pia enferrujadas, assim como giletes jogadas por toda parte. Era como se uma favela tivesse sido invadida por ?neanderthals? vestidos por carcaças de ratos.

 

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The Hook é um dos cenários do vídeo. Foto: Arquivo pessoal André Gioranelli.

Dave parecia estar sob efeito de estimulantes a todo momento. Logo na chegada casa ele viu a câmera e incorporou um reality show me mostrando sua casa. Ele faz parte de uma banda bizarra de heavy-metal-country chamada Satanic Rednecks!

 

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Foi uma das partes mais divertidas da viagem. Depois de entrevistá-lo, fomos até uma pista onde haveria um evento entre goofy e regulars. Ao filmar, pude presenciar o ícone do skate clássico Christian Hossoi. Foi uma session repleta de molecada desde 6 anos até 50 destruindo os bowls. Meninos e meninas, homens e mulheres, pais e filhos, e por aí vai.

 

No dia seguinte me despedi de Mike e Dave e fui rumo à sede da Azhiaziam, marca americana semelhante à Weird pela valorização de manobras progressivas no surf. Localizada em San Luiz Obispo, fui muito bem recebido por Mike Lopaka, que além de ficar bastante entusiasmado com o projeto, me apresentou outro maluco mental, Dustin Ray, estrela dos filmes da marca Lost.

 

Com esses contatos o filme estava ficando rico. Todos os dias procurava alguma lan house para contar ao pessoal da Weird no Brasil a quantidade de entrevistas que estávamos acumulando, embora na Califórnia fora quase impossível encontrar internet pública, pois todo ser humano tem algum notebook ou algo parecido.

 

Depois de passar pela Azhiaziam, dirigi por algumas horas na estrada que leva Los Angeles a San Francisco beirando a costa. A estrada é inacreditável, os penhascos e as encostas com ondas gigantes fizeram com que uma viagem individual valesse a pena. Apenas pela sensação de estar onde o surf basicamente surgiu.

 

Algumas horas se passaram e fui ao encontro de Ratboy. Figura carimbada nos filmes californianos, Ratboy marcou de me encontrar em seu pico local, chamado The Hook. Ele apareceu em seu carro, com um wetsuit azul celeste da O?Neill e uma prancha amarela com o nome da banda Slayer escrito na parte de baixo.

 

Não preciso dizer mais nada sobre o cara! Descemos o penhasco e ondas de até 1,5 metros quebravam infinitamente sobre uma bancada de pedras. Ratboy não estava muito inspirado nos aéreos, fazendo uma linha mais clássica. Mas alguns takes foram filmados dele e de seu amigo chamado Jesse Columbo. Esse, sim, mandando uns aéreos altos.

 

Durante as filmagens, escuto uma moça gritando por ajuda. Quando vi um corpo boiando, entrei na água gelada com outros dois rapazes e puxamos o corpo, que já estava branco e inchado, para a beira, não nos dando muitas esperanças. Era um senhor de idade, que estava surfando e se afogou. Ratboy saiu da água e comentou que conhecia o sujeito e que ele já havia tido um ataque cardíaco havia alguns meses.

 

Os para-médicos vieram e eu fui embora, sem saber ao certo o que aconteceu. Esse acidente deixou todos confusos e perdi o contato de Ratboy. Estava em Santa Cruz, em um frio desgraçado, sem o contato de Ratboy que não atendeu às seguintes ligações. Era hora de achar uma boa pizzaria, dormir no carro e voltar para as casas bagaceiras e muito barulho.

 

Dia seguinte, voltando, passei pela sala de shape de Jon Lalanee, em Oxnard, e entrevistei esse personagem que deu os depoimentos mais indignados possíveis para o filme. Terminei emendando a viagem até San Diego atrás da residência de minha amiga, com um lugar no sofá quente, comida e chuveiro. Obrigado, Camila!

Depois de cinco dias descansando e surfando em San Diego durante um ciclone que deixou a água sem crowd e ondas atravessando o píer em Ocean Beach, resolvi retomar as atividades e entrei em contato com Jeff Simonson, produtor de filmes de surf e ex-fotógrafo do WCT, que me acolheu em sua residência onde fica a produtora.

Sua casa ficava a uma hora de San Diego, na cidade de Ocean Side. A entrevista rendeu, além de bons argumentos, bons contatos para imagens, pois Jeff também é amigo de muitos dos caras que ainda queria entrevistar, como Zach Rhinnehart, Dereck Bockelman, Ben Wei (50-50 waveskates), Josh Sleigh e Mc Henry, os quais fui um por um ligando e marcando de encontrá-los, colocando tripé, ajustando foco, criando perguntas na hora e prestando atenção nas respostas.

A última entrevista da viagem foi com o legendário Justin Matteson. Louco de carteirinha, o encontrei em um pub no show do Satanic Rednecks e, meio sem graça, estava procurando algum momento para entrevistá-lo, sem parecer uma espécie de ?groupie do surf?.

Quando ele vem até mim e pergunta o que estava fazendo com uma câmera. Comentei sobre o projeto e consegui uma entrevista no canto de fora, quando ele saiu para fumar um cigarro. O áudio estava horrível, mas era mais uma presença de peso que selava o filme.

Sim, fazer o trabalho sozinho foi difícil e um desafio pessoal até então desconhecido, mas parte do produto final está no ar. É um preview da passagem do filme da Weird pela Califórnia. Em breve mais picos e surfistas serão registrados. Obrigado quem teve a paciência de ler até aqui e aguardem o filme que está em andamento.

 

Agradeço a todos os envolvidos no projeto como Pablo Aguiar pelas imagens, Alan Fendrich pela ajuda na finalização, Pablo da banda Questions, pela animação, Weird em geral, Camila pela hospedagem, Theo Sandoval, Mariano Kornitz, aos atletas que tiveram a paciência das entrevistas e às bandas que aparecem na edição.

 

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