Torcedor Fanático

A guerra ou uma batalha?

 

Adriano de Souza voa em Trestles, Califórnia (EUA). Foto: © ASP / Rowland.

Esse papo de que o surf competição brasileiro veio para ficar já está repetitivo. Viemos para ficar desde a década de 80.

 

 

Os gringos se incomodam com a gente desde então. Uma das diferenças é que hoje temos um time um pouco melhor estruturado, não são os mambembes que se jogaram no mundo sem estrutura alguma e sem tantas cobranças em cima deles.

É cansativo ler e ouvir, em meio à troca de guarda de geração no Tour, que temos o melhor time de todos os tempos, que agora os gringos realmente estão valorizando nossos atletas etc.

Sim, certo, essa molecada nova, chamada de “Brazilian Storm”, realmente tem um potencial imenso. Ano passado tivemos resultados bem expressivos e animadores, vitórias convincentes e avassaladoras. Medina e Mineiro mandaram muito bem.

Só que, infelizmente, temos mesmo memória curta, só pode ser isso. Nos tempos do estilão feio do Peterson Rosa, ele também era criticado praticamente pelos mesmos motivos de Jadson André.

 

Oscilava entre pódios e apresentações fracas. Peterson era um dos que mais reclamava dos julgamentos, pois espancava o lip como poucos, mas, em compensação, a famosa base aberta também o assombrava no estilo cobrado pelos que olham de cima do palanque.

Se pudéssemos analisar somente as manobras de Jadson, realmente ele é um cara muito fora de série, mas aquele vai-e-vem na base na preparação pra manobra estraga muito a plasticidade do que vem em seguida. É como se antes de comer um sashimi, você molhasse o peixe na graxa em vez do shoio. Estraga, entende?

Teco Padaratz era a máquina preparada e lapidada que chegou a ganhar alguns eventos importantes, derrotar Kelly Slater, mas, de significativo mesmo, nunca passou do título do WQS. Quase sempre chegava ao último dia do evento, mas parava nas semis ou nas quartas. Isso me faz lembrar o Mineiro, que é uma máquina de competir, altamente consistente e, de longe (dos brasileiros), o mais focado e o que vai mais longe no cenário brasileiro atual.

Mestre Fabinho foi o irreverente estiloso, o comunicativo, que aprendeu inglês na marra, tornou-se amigos de muitos gringos, levantou troféus, mas não fez cócegas no título do Tour. Sempre ouvíamos dizer que “no próximo ano ele tem tudo para ser campeão mundial”.

 

Teve resultados ultraexpressivos, tanto na época de amador, como agora, na master. Também era outro que costumava ganhava o trials e praticamente sempre chegava ao último dia no main event. Incomparável, foi único, talvez seu filho venha com tudo para superar o mestre.

Guerreiros do Nordeste nós tivemos vários. Nosso representante da vez é Heitor Alves, que surfa como poucos, mas parece que ainda reflete o estigma de “caminho sofrido”. Não que isso não seja relevante, não que isso não seja até louvável e compreensível, mas que o faz brilhar como o sol em um dia brilhante e, no dia seguinte, se apaga como se o dia anterior nem tivesse existido.

 

É o rodeo clown de um dia e a combination do outro. Armando Daltro, Paulo Moura e Marcelo Nunes, Fábio Silva, são só alguns exemplos de garra, ótimo surf e inconstância.

Alejo ainda está mais para um Rodrigo “Pedra” Dornelles, que sempre chega junto, mas junto do bloco intermediário. Na hora em que o funil aperta mesmo, ainda falta o “algo mais” dos mágicos ou dos melhores combatentes.

Miguel Pupo ainda é uma incógnita em minha análise. Seu gráfico de altos e baixos, seu foco total alternado com apresentações desconcentradas apenas razoáveis. Controle total da prancha ou quedas infantis. Isso me faz lembrar um pouco o estado de espírito de Raoni, Leo Neves e até mesmo de Neco, que ora são mágicos, ora trágicos. Eu disse estado de espírito, não surf.

Quando Victor Ribas surgiu para o mundo, as declarações que pipocaram foram “esse é o melhor surfista de ondas pequenas do mundo”. E isso foi na época em que o Tour era disputado cerca de 80% em beach breaks das praias mais populosas e badaladas do planeta.

 

Realmente só não foi mais longe por causa de um tal de Kelly Slater, mas esse é outro papo, pois poucos têm ido longe desde a era Slater.

 

Até a longevidade, Vitinho “copiou” de Slater, vide que ainda está disputando campeonatos de igual para igual com a molecada em terras brasilis.

A diferença agora é que temos Medina, que chegou como promessa em manobras e está se tornando uma realidade multifacetada. Seja entubando ou girando no ar, Medina vem se firmando como mais um que veio pra ficar. Mas a pergunta é: ficar no recheio do bolo ou ser a cereja?

O surf do garoto é um espetáculo. Fora suas viradas magistrais nos minutos finais e com manobras homéricas. No calor da torcida e na empolgação total, eu leria o texto acima e eu mesmo me mandaria catar coquinho.

 

Todo o time brasileiro atual empolga muito, mas qual então o motivo de ainda estarmos nesse embaço todo do quase? Por que ainda não temos ao menos um Mick Fanning, que pode não ser o melhor em tudo, exceto em competitividade?

A resposta é diretamente relacionada ao título do texto. Vencemos batalhas, mas não conseguimos vencer as guerras. Ou seja, vencer baterias homéricas, vencer os melhores do mundo esporadicamente, vencer alguns campeonatos por ano, sim, é ótimo, mas naquela tão importante soma dos pontinhos, ainda não deu.

A verdade é que na era Slater, poucos mesmo conseguiram furar esse bloqueio, pouquíssimos. Veja o exemplo de Taj Burrow: o cara é uma máquina, até hoje manda os aéreos e tem uma linha de surf animal. Mas, e aí? E o Parko, então? São os eternos vices que pouco serão lembrados daqui a uns 10 anos?

Mineiro é um dos que mais ratifica em suas entrevistas: “todo mundo está ali para ganhar (…)”. Ninguém entra na bateria para perder ou já se entregando, mas por que tenho sempre a impressão de que nós, brasileiros, ficamos mais nervosos nos momentos decisivos? Por que numa semi contra Joel Parkinson as ondas vêm, mas as notas não saem? Exemplos desse tipo têm aos montes.

É inegável, sim, que essa geração atual está se projetando para conquistas maiores, principalmente os que até agora se adequaram 100% ao “padrão”, que, a meu ver, são Medina, Mineiro e Miguel, só que os dois últimos ainda precisam de um pouco mais de regularidade, física e mental, principalmente Miguel, que ainda não mostrou serviço de ponta no WCT.

A perna europeia, que tanto nos consagra, está aí. Já que o caneco do Tour está cada vez mais longe, que tal ao menos consagrarmos o Brazilian Storm como algo que veio pra ficar e não é só uma “marolinha” de verão europeu?

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