
Todo mundo deveria poder viajar. A vida fica mais alegre quando a gente tem oportunidade de conhecer outras culturas, se educar, arranhar outras línguas, se divertir, fazer amigos e se conhecer melhor.
Nós, surfistas brasileiros, precisamos muito viajar, por todos os motivos acima mais um: as ondas daqui são boas, fazem nossas cabeças e, às vezes, ficam bastante perfeitas. Mas o surfista que só conhece as ondas do Brasil não tem idéia da grandiosidade do surf.
Conhecer a verdadeira capacidade que a natureza tem de criar formas líquidas que chegam alucinar de tão lindas e simétricas. Entender que os oceanos são sutilmente diferentes. Essas e muitas outras coisas a gente só aprende ganhando o mundo com a prancha debaixo do braço.
Lembro do susto que levei ao mergulhar pela primeira vez no oceano Pacífico, no Peru. Afundei a cabeça e ouvi um barulho, um chacoalhar. Eram as pedras do fundo batendo umas contras as outras ao movimento do mar.
Aquilo era diferente do silêncio dos nossos fundos de areia e me deu a sensação, que eu teria muitas outras vezes na vida, de estar em território estranho, às portas de novas experiências.

Lá se vão 16 anos. Depois dessa viagem, não parei mais. Fosse trabalhando ou nas minhas férias, tive a sorte de conhecer grande parte das ondas mais famosas do mundo. Algumas me divertiram, outras me hipnotizaram.
Houve as que me dominaram, as que eu não consegui surfar. A maioria permanece um mistério. Posso entrar no mar e surfá-las, mas não posso dizer que as conheço completamente. Mas todas me ensinaram alguma coisa.
Jeffrey’s Bay, por exemplo. Estive lá duas vezes. A onda é um sonho. Gelada e interminável. São várias seções, umas dez. Diz o grande Picuruta (Salazar) que certa vez emendou todas. Mas Picuruta, que estava comigo na segunda vez em que fui a J-Bay, não é um surfista normal como eu.
Para mim, o auge da diversão era dropar a da série em Tubes, atravessar Supertubes e encarar o que viesse em Impossibles. Três seções. Duas e meia, para ser mais exato, porque nunca passei de Impossibles.
Não pense que sou um prego total. No crowd maciço de Jeffrey’s, 98% dos surfistas faziam como eu. O detalhe é que essas seções juntas, num dia bom, são melhores do que qualquer onda brasileira.

Calculo que seriam necessárias umas dez viagens para a África do Sul até que eu, talvez, pudesse dizer que realmente tenho intimidade com toda a exuberância de Jeffrey’s Bay. Infelizmente, só na próxima encarnação.
Porém, nem todas as ondas mais famosas do mundo são tão complexas quanto J-Bay, G-Land ou Sunset. Pipeline, por exempo, é uma onda simples.
Terrivelmente simples. Num dia bom, as muralhas da série vêm sempre da mesma direção, quebram sempre no mesmo lugar e exibem a mesma boca escancarada sobre os corais. Chega a parecer fácil. Engano seu. A simplicidade de Pipeline é um dos maiores desafios do surf.
O surfista precisa viajar para conhecer outros mares e outras ondas. Aprender com elas o quanto devemos ser humildes e tolerantes na nossa relação com a natureza e com a vida. Entender a força do mar.
Viajar faz com que nos tornemos surfistas melhores. Também faz de nós pessoas melhores, mais sábias. Basta manter a cabeça e o espírito abertos para tudo que o surf pode nos ensinar. Essa é a grande viagem.