A globalização do surfe

Roberto Montilho Rodrigues, ou simplesmente ‘Mé’, 33 anos, é presidente do Favela Surfe Clube (FSC), localizado na Favela do Cantagalo, divisa entre as praias de Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro, e possui uma experiência singular no meio do surfe.

 

Nascido e criado na favela do Cantagalo, desde 99 ele preside o Favela Surfe Clube e coordena, com muito idealismo e luta, uma escolinha gratuita de surfe no Arpoador para jovens carentes da favela e uma oficina de pranchas que tem dado a muitos jovens uma opção de vida ligada ao esporte.

 

Junto com o vice-presidente da entidade, Jean Carlos Rodrigues Filho, ou simplesmente Jean Carlos, o FSC oferece três vezes por semana aulas pagas a alunos “do asfalto” e dois dias por semana  dedica suas aulas exclusivamente para as crianças carentes do morro.

É com a verba paga pelos alunos do asfalto que a FSC viabiliza as aulas das crianças carentes do Cantagalo.

 

“O jovem que cresce no Cantagalo é familiarizado com a praia, pois normalmente freqüenta o Arpoador desde pequeno, pela proximidade com a favela”, explica Mé.

 

“Quando recebemos um aluno carente”, continua ele, “começamos dando pranchas usadas e ensinando as noções fundamentais sobre o mar e o surfe. Na medida em que percebemos uma evolução, passamos a disponibilizar pranchas melhores e a estimulá-los a competir. A partir desse momento, viabilizamos inscrições nos campeonatos e obtemos apoio logístico e financeiro para correr etapas em outros lugares”.

 

Já na oficina de pranchas, os alunos aprendem o ofício de consertar e fazer pranchas. É lá também que as pranchas doadas são consertadas e preparadas para voltar para a água. Nessa oficina também são consertadas pranchas e a verba decorrente dos consertos é utilizada para manter as atividades do Favela Surfe Clube.

 

Porém, as atividades dessa organização vão além da escolinha e da oficina. Hoje, o Favela Surfe Clube possui um papel de representante dos interesses do Arpoador nos mais diversos assuntos.

 

 “Nosso objetivo é o de valorizar o máximo o Arpoador, pois sabemos que o futuro de nosso projeto depende do futuro daquele lugar. Se, por exemplo, deixarmos a praia se degradar, estaremos comprometendo nosso futuro”, afirma.

 

Se um campeonato rola no Arpoador, o Favela recebe uma taxa que é convertida em investimentos na entidade. Além disso, tem direito a algumas vagas que são disponibilizadas para atletas da entidade e que normalmente não teriam condições de pagar as inscrições.

 

Segundo Roberto Mé, um dos pontos fortes do seu trabalho é a transparência. “A única maneira de conseguirmos credibilidade é demonstrando seriedade em nosso trabalho. Para isso fazemos questão de demonstrar que as verbas que recebemos desses campeonatos são utilizadas de forma séria”.

 

Aliás, quando se fala em verbas, Mé demonstra certa amargura com o meio do surfe e, em particular, com a indústria do surfwear. “Estou cansado de buscar apoio nessa área, a maioria dos empresários só quer ganhar dinheiro. Na hora de apoiar o esporte, ninguém comparece”, desabafa.

 

Suas críticas se estendem às organizações responsáveis pela representação do surfe na sociedade. Mé exemplifica: “Veja essas empresas de telefonia gastando verbas enormes com marketing… Porque uma parte desse investimento não é canalizada para o surfe? Será que estamos bem representados diante da sociedade para obtermos a credibilidade necessária?”.

 

É claro que Mé também cita nomes que apóiam seu projeto social, como os shapers  Marcelo Peninha e André Bueno, a surfwear Surfight e a loja Hot Coast, além de diversas contribuições anônimas.

 

Aliás, Mé tem uma opinião bastante ácida sobre a maioria dos projetos sociais e sua opinião não poupa inclusive um projeto dirigido por uma importante emissora de televisão: “A maioria só quer se beneficiar da nossa dificuldade, ganhar dinheiro às custas do projeto e posar de benfeitora da população, mas na prática não é bem assim que acontece”, conta.

 

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Para 2003, Mé tem como objetivo maximizar o número de eventos no Arpoador, continuar a escolinha, a oficina de pranchas e manter o circuito de surfe do Favela Surfe Clube, que já revelou diversos talentos. Para isso, já conta também com os apoios da Jamf e das lojas Mormaii, além da Lanchonete Big Nectar.

 

Dentre os talentos do Cantagalo recentemente revelados pelo Favela Surfe Clube está Pablo Silva, de 16 anos, que em 2002 obteve a primeira colocação na categoria Mirim no campeonato St Comp Local. 

 

O apoio da FSC se estende a outras favelas do Rio. É o caso do atleta Marcelo Bispo, 20 anos, mais conhecido como Preto Louro. Ele pertence ao Morro do Falete, em Santa Teresa, e relativamente distante da praia. Graças ao apoio do FSC, Preto Louro é hoje presença certa nos dias bons no Arpex e já teve expressivos resultados em circuitos locais, além de disputar o circuito estadual.

 

O Favela Surfe Clube colabora também na organização de todos campeonatos que são realizados no Arpoador. Aliás, foi assim que Mé ganhou confiança para assumir as suas atuais responsabilidades.

 

“De tanto trabalhar nos campeonatos, percebi que poderia fazer até melhor do que os caras para quem eu trabalhava”, lembra Me, que conta com a ajuda de Alexandre Rascunho, Jean Carlos e Jairo Meirelles para levar adiante a entidade.

 

 Além de ensinar a surfar, Mé busca passar valores de vida aos alunos carentes. Ele sabe que pode evitar que jovens entrem para o tráfico, um dos maiores empregadores de mão de obra jovem no Rio de Janeiro, segundo recente pesquisa do IBGE. “Ensino os alunos a tomarem gosto pelo esporte, a respeitar o próximo, a estarem abertos ao mundo e a ter humildade e determinação para vencer, mesmo diante das dificuldades”, explica.

 

Esse é um ponto interessante no trabalho de Mé: apesar de seu projeto significar uma ferrenha defesa do Arpoador, ele não é dirigido para criar um pensamento de localismo, muito pelo contrário.

 

“Se criarmos uma cultura de localismo, estaremos destruindo o Arpoador, pois nossa maior riqueza é o intercâmbio, é fazer esse pico ser uma referência nacional do surfe”, diz o presidente do FSC.

 

Com isso, o Favela Surfe Clube acaba preparando seus alunos para a realidade de um mundo cada vez mais globalizado. Aliás, Mé está focando cada vez mais seus esforços em buscar apoio em entidades internacionais onde pretende encontrar as verbas que precisa para implementar seus projetos.

 

“Já cansei de ver matérias sobre o nosso projeto em emissoras de TV, revistas e jornais, mas que não se transformam em ajuda ao nosso trabalho. Hoje precisamos converter presença na mídia em retorno de investimentos para meus alunos. Aqui no Brasil não vejo apoio concreto de ninguém, minha esperança são as ONGS e instituições estrangeiras, pois elas se sensibilizam muito mais com as nossas causas”, argumenta.

 

É o caso de uma emissora alemã, que recentemente esteve no Cantagalo para fazer um documentário sobre o projeto Favela Surfe. Mé torce para que consiga obter apoio da Alemanha para seu trabalho, a exemplo de outras ONGs brasileiras, como o Viva Rio, que também obtêm ajuda exterior.

 

Quem vê hoje o surfe perfeitamente integrado à paisagem do Cantagalo não imagina que no começo era bem diferente. Os primeiros surfistas da favela foram Celso Saquarema e Faisão, há uns 20 anos atrás.

 

Naquela época, os poucos surfistas do morro eram vistos como meros “playboys”, porém, na medida que o número de surfistas passou a crescer, o esporte passou a ganhar respeito junto à comunidade e ao tráfico.

 

Quanto ao convívio com o tráfico, Mé reconhece que já recebeu ofertas de ajuda, mas recusou todas: “O preço que você tem que a pagar depois é muito alto, não vale a pena”. Cabe lembrar que na favela muitos amigos de infância seus podem acabar se tornando chefes do tráfico e desejando ajudá-lo até por amizade. “Já quiseram até me pagar viagem para o Hawaii”, lembra Mé.

 

Iniciativas como o Favela Surfe Clube mostram que ainda existem pessoas idealistas, que acreditam no surfe como ferramenta de educação  social e que persistem nos seus objetivos apesar das dificuldades. Que Netuno abençoe esses projetos. 

 

Para os interessados em doar equipamentos ou contribuir com o Favela Surfe Clube, o telefone de contato é (0xx21) 9131-2368.

 

As doações podem ser dirigidas também para a loja Hot Coast, localizada na Galeria River, loja 13, no Arpoador. O surfe agradece sua ajuda.

 

 

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