Esta aconteceu no interior. Fora da jurisdição desta coluna eminentemente litorânea. Mas, na minha opinião, não dá para circunscrever a emoção ou o relevante que me toca o coração errante à uma faixa de areia, por mais impertinente que o causo pareça junto ao título “Waves”.
Tomo a liberdade concedida pelo meu editor para utilizar o espaço da maneira que eu entenda como satisfatória. De qualquer maneira, advogo em defesa própria, e afirmo que, embora não tenha oceano, tem água na narrativa, e que ela fez ondas, tão doces quanto trágicas.
Pois é, longe do mar mas ainda dentro da humanidade. Entendo esses fatos como de interesse do ser humano que habita dentro de cada surfista. Escrevi no réveillon de 2011 / 2012 sobre o ocorrido em São Luiz do Paraitinga, interior do Estado de São Paulo, em 2 de janeiro de 2010, como me foi relatado pelo povo de lá e com algumas distorções que a minha imaginação entendeu como reais.
Apresso-me em escrever antes que o momento me roube a memória e esconda o poema, ou o tom poético com que a desgraça mais a mágica se apresentam em prosa, como tantos momentos com cílios e batom o fizeram antes, com suas pernas efêmeras e seus quadris ondulantes. Quando a água vem bater na porta a vida nos chama. Todos os momentos são dançantes.
Antes que eu esqueça do caldo – muito útil, pego e como um doce, para tirar o sal e o amargo, e antes que a dor de não entender o que sei somatize algo em mim, no meu corpo, eu escrevo. Fiquei impressionado com o relato, então preciso me livrar do dito-cujo para cima de você, leitor, do seu desejo. Nesse momento sou indivíduo ou fragmento? Sou homem e mulher. E o medo vem e vai com o vento, como quer.
Até as ondas tem sentimento. O calçado de pedras pretas das ruas de São Luiz são quase impermeáveis. Os rostos não, permeiam a alegria do antes e depois vem a dor. Pode estar tudo calmo, em perfeita sintonia e, de repente, com seu capuz negro e lilás, sem rosto, assoma o mal-estar, irmão siamês da alegria, comecinho do fio da meada do mistério. Todas as casas são pintadas de cor, como que homenageando a vida. Porque veem contar tudo isso logo para mim? É aí o começo da procura. Como reproduzir em palavras o que o coração alado e distraído captura?
A senhora de cabelos brancos enrolados num pano lilás, da cor do espírito, fala com tom de voz de ternura e tremor. E eu sou esse cara também, quem diria, senhor? Essa nuvem interna que está mais para uma fumaça negra que abraça o dia. A cultura musical em São Luiz é proverbial. Hoje não tem música. A nota distoa molhada. Quem somos nós brasileiros que só temos olhos para a Europa branca descampada lá em cima e para cima à esquerda os States Obama defianco e mais nada? Nós estamos de costas para o Brasil. A cura é ver o que está lá dentro, cá dentro. Dentro desse eu que não é santo. Não ter medo de fogueiras, subterfúgios ou sacramentos. Com a cruz ou com o nada.
Viajei na estrada, parei no pôr do sol do planalto central, perto de Abadiânia, Goiás. Sentei à beira da poeirada de terra vermelha sob o sol amarelo (como um grito), de candangos cabisbaixos e cavalos de cabeça erguida, com um tempo que não corre mas se esgueira. Um cavalo de paus, um ás. Ainda não consigo a tranquila preguiça que tive naquele tempo, um pouquinho antes de ferver novamente a ferida. Ah! Essa dor distraída! Tão longo o momento estica até mais não poder, tirando o poder de ser eu até mais não poder, mas isso só se eu quiser, se me acovardar e não querer ver.
São Luiz é diferente de Abadiânia, são misticismos de qualidade diversa. Que demônio é esse que se disfarça em sofrer? Ou será que é o sofrer que só parece um demônio mas no fundo é um anjo disfarçado de incômodo? Meus dedos estão roucos de tanto dizer. Espantam esse sofrer prurido, vermelho, dolorido e denso. Gritam sobre teclas, parafraseiam a vida. Esperneiam dentro do silêncio. Eu sou, já vi, dou tento. Quase deixo de ser, pelo menos é o que sinto, quando o demônio acocorado em volta da fogueira do meu peito parece dominar o céu, a abóbada celeste do céu da boca, a galáxia interior.
Eu sou. Eu sou. Eu sou. Ele mesmo, o demônio. Eu mesmo, a fumaça, eu mesmo, o anjo, eu mesmo, ninguém, eu mesmo, todos, o alarde, o alarme, o alaúde, meu violão empoeirado com cordas de tripas de gente no alagado de São Luiz do Paraitinga, no rio que subiu 12 metros e levou cuecas, calcinhas, chapéus, anáguas, pessoas, pratarias, calçadas, alegrias e maldades, e até a Igreja da Matriz derrubou, mas não antes da estátua do Jesus de madeira flutuar nas águas, sair carregada pela correnteza serpente pela porta da frente, que logo em seguida fechou, e dar uma volta inteira no perímetro da igreja até que – só pode ser Deus -, lhe mostrar a saída.
Só daí, por respeito e sina, a igreja caiu, implodiu, porque a terra de baixo transmutada em lama não aguentou as pedras de cima transmutadas em destino. E essa é a explicação do engenheiro, porque a do povo é outra: a Igreja respeitou a saída de Jesus e a sua bênção ao completar a volta ao seu templo, para só então desabar.
Então, quem sou eu para falar em demônios quando na mesma hora na igrejinha da rua de cima a Nossa Senhora grávida partiu-se em mil pedaços e nenhum deles, nenhunzinho mesmo, se perdeu? Todos os pedaços da Nossa Senhora grávida foram achados e reconstruídos depois que a chuva passou. Mas o meu coração continua flutuando em volta da igreja, e ele também fragmentou-se em mil pedaços, só que nenhum foi encontrado.
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP (Ocean Pacific) e escritor, com dois livros publicados: Almaquatica (Fnac) e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro, o Poentes de Amor – 70 poemas ilustrados por 55 artistas plásticos, será lançado no próximo mês.