
Durante o swell do último dia 15 de dezembro de 2004, em que a temida e cobiçada onda de Jaws, na ilha de Maui, quebrou com condições épicas, dois big riders brasileiros conseguiram o feito de entubar nas pesadas direitas do local, coisa que poucos surfistas fizeram desde que a onda foi descoberta, há alguns anos.
O pernambucano Eraldo Gueiros e o baiano Danilo Couto já vinham apresentando performances elogiadas pela comunidade internacional do surf em ondas grandes.
Agora provavelmente entram também na disputa pelo prêmio de melhor tubo na quinta edição do Billabong XXL Global Big Wave

Awards, concurso em que já concorriam com ondas surfadas em Jaws.
Em entrevista concedida a Bruno Lemos, correspondente Waves no North Shore, eles falam da emoção e das dificuldades em entubar de tow-in nas morras de Jaws.
Esses foram os primeiros tubos de vocês em Jaws? Como foram os episódios?
Eraldo – Foi. Na verdade eu já vinha cercando um tubo ali há muito tempo, mas como o caldo ou uma lipada em Jaws não é nada agradável, esperei o momento certo, em que me senti confortável. Quando percebi que a onda iria rodar de verdade, coloquei para dentro num tubo que sem dúvidas foi o maior da minha vida, era muito largo e eu tinha boas chances de sair. Fiquei muito amarradão e com certeza vou tentar explorar outros tubos ali.
Danilo – Sim, foi o primeiro. Era final do dia e eu estava bastante à vontade no mar e com a prancha. Estava procurando fazer uma linha de surf manobrando no crítico e o tubo já estava na minha mente. Até que numa dessas de ficar no crítico vi que naquela onda não tinha outra saída senão passar por dentro. Fiz o que a onda pediu.
Quais as principais dificuldades e o que deve ser feito para entubar com sucesso em Jaws?
Eraldo – Acho que primeiro você tem que dominar a onda, saber lidar com os bumps, os fortes ventos e aos poucos ir procurando o tubo, mas não pense que vai ser fácil.
Danilo – A principal dificuldade para mim foi o fato de surfar de backside. Tomar uma lipada de uma onda daquelas não é nada prazeroso, não dá pra forçar e tentar em qualquer onda, pois a força de Jaws pode te machucar muito fácil. Portanto, tem que ser uma manobra pensada e sem erros. Assim que me vi dentro do tubo, foi tudo muito intenso. Primeiro a placa caiu, foi o momento do visual, do oco, dei uma passada, depois ficou tudo branco e não vi nada, até que fui cuspido para fora. Depois vi na filmagem que fiquei lá dentro da espuma branca do tubo, foi o momento que não vi nada. Foi animal o feeling!
Quais as diferenças entre entubar com uma prancha de tow-in e uma convencional?
Eraldo – Com certeza é mais difícil de tow-in. Primeiro porque com a prancha de tow-in você não consegue mover a base e também é muito difícil de acelerar a prancha dentro do tubo para ganhar velocidade. Com a prancha convencional é muito mais fácil. Sem contar que no tow-in os tubos são bem maiores.
Danilo – Sem dúvida tem suas diferenças. No tow-in se tem a vantagem do pé estar preso pela alça na prancha. De backside, por exemplo, até dá para segurar na borda, mas não é necessário, pois o tubo é largo e tem espaço para projetar a passada lá dentro sem ter que abaixar muito. A prancha de tow-in é também muito estreita e tem muita velocidade e sensibilidade ao toque, ajudando também na trajetória dentro do tubo. Mas, por outro lado seu pé pode ficar preso e te machucar, além do fato de a prancha pesar em torno de 10 quilos, uma pancada dela dói legal!
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Quais são as chances de vocês quem sabe vencerem a categoria de melhor tubo no concurso Billabong XXL?
Eraldo – Acho que tenho boas chances se ninguém conseguir um maior, pois pelo que vi até agora o Archie Kalepa ficou meio na boca, apesar da onda dele ser maior. A onda do Danilo, apesar de ter sido boa, não é tão grande quanto a minha. Como o inverno ainda não acabou, vamos esperar pra ver o que ainda pode acontecer e torcer para que role um julgamento justo.
Danilo – É aquela história do critério de julgamento. A minha onda não foi das maiores do dia, mas o fato de ter sido um tubo de backside, sem as mãos e bem fundo contaria no quesito dificuldade.
Na opinião de vocês que critérios são levados em conta na hora de determinar o melhor tubo?
Eraldo – Acho que os juizes consideram o tamanho da onda, profundidade do tubo e domínio da situação.
Danilo – Tamanho e dificuldade da onda, tempo lá dentro, profundidade e qualidade da foto também.
Como vocês descreveriam as condições do mar no dia 15 de dezembro de 2004 em Jaws e as performances de cada um (com os respectivos parceiros no tow-in)?
Eraldo – Estava bem grande, mas não foi o mais difícil que já vi, pois o vento estava calmo, diminuindo os bumps. Mas com certeza tinham umas ondas gigantes. Nossa performance foi muito boa, coloquei o (Carlos) Burle em algumas bombas, não perdemos o jet-ski, recuperamos a prancha duas vezes nas pedras e consegui pegar o melhor tubo da minha vida.
Danilo – As condições estavam clássicas, sem vento, rodando, baforando, perfeito, com direitas e esquerdas abrindo. Naquele dia comecei puxando o Monster (Rodrigo Resende) em umas bombas de manhã cedo e mais tarde também, tive que retribuir a bomba que ele me colocou no inverno passado (rs). Em seguida ele me puxou em umas esquerdas animais também. Optei pela esquerda não só pelo fato de surfar de frente e a disputa pela direita estar grande, mas também por sobrar várias, pois a grande maioria dos surfistas em Jaws é regular e opta pela direita, que também possui um canal mais seguro que o final da esquerda, que é cabuloso, às vezes fecha e acaba nas pedras. Nossa prancha 6’1 está muito boa e estou conseguindo fazer uma linha de surf normal, base lip. O nível que o tow-in está alcançando é impressionante. Em dias como 15 de dezembro, em que estão reunidos na água os melhores do mundo, o show de cavadas e rasgadas no buraco, tubos e cutbacks é um marco na história do surf e é muito gratificante fazer parte deste momento.
Vocês acham que Jaws é realmente a onda mais “casca-grossa” do mundo ou será que pode existir alguma outra onda desse calibre escondida por aí?
Eraldo – Se você souber de alguma outra me avisa (rs). Mas por enquanto ela é sem dúvidas a rainha de todas as ondas.
Danilo – A busca por novos picos, sem crowd, com os amigos, sempre será a essência do surf. Mas enquanto não acharmos outra, Jaws continua sendo a mais casca-grossa.
Confira galeria de fotos da session de 15 de dezembro em Jaws.