Soul Surf

A cura umbilical

O surf é algo que une os dois mundos e não tem contorno. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

O surf é água. O surf é carne. Nossa carne flutuando salgada mais uma onda. O surf é algo que une os dois mundos e não tem contorno.

O surf é a ligação direta, o cordão umbilical com Deus. Um Deus da água, da carne, e de algo mais. Se a minha atual desconexão com a felicidade vem do distanciamento com essa entidade, seria no mínimo inteligente incrementar o tempo dentro da água, da carne.

Meu amigo Teixeira me disse isso, eu pensei, e ressoou uma concordância interna imediata. Entrei na água depois de meses. Estou curado. Ou quase.

Quarenta e cinco anos de surf. Será que eu não aprendi nada com esse tempo? Assumir que estou encarnado alivia. Assumir que estou surfado reconecta. Todas as ondas que surfei nessas décadas são parte de mim. Cada uma delas mora ali dentro, numa célula azul e brilhante que sorri, feita de alma e carne.

E em cada uma delas eu ainda estou surfando aquela onda específica, seja no remoto povoado de Ulé, no Sri Lanka, em 1981, contemplando a vida passar pelo céu e pelas patas dos elefantes selvagens, seja em Pipeline crowd, em 1975, lutando pela vida. Dentro de cada uma delas dá-se o milagre da diluição do tempo. Todas elas formam algo que sou eu.

Desconectar-se de si tem a função de provocar uma ruptura e – na melhor das hipóteses -, um renascimento. Pode também ser o caldo definitivo, o mergulho sem volta na sombra. A vida é um risco constante, sem o qual não há vida. O risco desenhado pela prancha na onda, no seu subconsciente. Um mapa do absurdo cercado de improváveis por todos os lados. E eu continuo remando.

Eu estava pleno em Uluwatu, Bali, em 1981, sozinho no pico logo ao nascer do sol. Nada mais existia, além da brisa suave e da água quente, das séries como mãos que acariciavam e levavam para passear, e do preenchimento de uma energia completa e abrangente dentro do peito. Esse momento quase fugiu e se transformou na favela que escorre pelo cliff 30 anos depois. Mas eu parei, respirei, olhei para dentro, e lá estava ele, o momento, ainda intacto.

Eu estava triste em Mongaguá competindo num campeonato tão chinfrim quanto autêntico, em 1974? Não. Estava preocupado na Praia da Pipa quando a surfamos, com Bruzzi e Marquinhos Sedlaceck, pela primeira vez em 1978? Não. Eu estava encafifado com o verdadeiro significado da vida surfando Casablanca, Marrocos, em 1989, depois de ter sido resgatado, alimentado e fumado na estrada por quatro marroquinos malucos surfistas pilhados que eu nunca tinha visto? Acredito que não.

Consegui deixar na areia aquele eu construído e conhecido no momento em que surfava a bancada de coral no meio da baía de Bocas Del Toro, Panamá, em 2012? Sim. E o que importa o meu estado de espírito se é sempre lavado pelo tempo e pelas ondas e vive sendo transformado em espuma? O meu estado é a manifestação de um tempo congelado, ou seja, algo que não existe.

A alegria que abriu o peito (e nunca mais fechou) quando um bando de amigos vislumbrou, através do matagal, uma série de 2 metros perfeita quebrando para os dois lados no fundo de coral da Playa Negra, Costa Rica, em 1990, é a verdade.

Tudo o mais é espera.

Sidão Tenucci é escritor e diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou o livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e o livro de aventuras zen “O Surfista Peregrino” (Livraria Cultura). Acabou de lançar o seu terceiro trabalho, “Poentes de Amor”, ilustrado por 55 artistas plásticos (Livraria da Vila e Cultura). Viajou por 52 países.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)