Made in China

A ameaça da prancha clonada

Al Merrick já está na bronca das pranchas made in China. Essa da foto não é pirata. Foi usada por Slater durante o WCT Brasil de 2005. Foto: Sergio Laus.

A invenção da máquina de shape pode ser considerada um marco na evolução do surfe. Os ganhos em termos de produção são inegáveis: a capacidade de produção de shapes  em grande escala com precisão milimétrica possibilitou o aumento da capacidade produtiva de cada shaper e, consequentemente, a capacidade de oferta do mercado.

 

Vista inicialmente com desconfiança, a invenção genuinamente brasileira rapidamente ganhou o mundo e hoje já convive com modelos concorrentes fabricados em paises como a França.

 

Como toda revolução tecnológica, ela traz novas oportunidades porém também traz ameaças. Basta considerar o exemplo dos bancos, onde a automação tecnológica levou a uma séria redução da oferta de empregos na área mas, em contrapartida, trouxe grande comforto para os correntistas. No caso do surfe não será diferente.

 

Ao mesmo tempo em que a máquina de shape permite que um surfista na Europa, por exemplo,  possa comprar uma prancha de um shaper que está no Hawaii simplesmente pela utilização dos arquivos inseridos numa máquina de shape. Esta mesma facilidade pode representar uma imensa ameaça ao mercado do surfe, ou melhor, aos shapers.

 

É fácil chegar à esta conclusão. Para um shaper utilizar uma máquina de shape, ele precisa colocar as medidas, ou parâmetros, num arquivo digital que será ?lido? pela máquina e transformado numa prancha quase pronta. Restando apenas alguns acabamentos, também chamados de ?finish?, que podem ser feitos sem maiores mistérios por um assessor de shape bem orientado.

 

Portanto, toda a ciência e técnica do shaper se transformou num arquivo digital. Ora, não é preciso ser um gênio para perceber que sendo um arquivo digital, este pode ser copiado e utilizado em outro local por alguém não autorizado. Em outras palavras, o shaper pode ser vitima de um roubo cibernético.

 

Essa ameaça é real e os fabricantes de máquina de shape têm buscado formas de proteger essa propriedade por meio de programas; porém, nada garante que sejam 100% seguros, uma vez que nem os bancos, com sua estrutura sofisticada e investimento milionário, conseguem se ver livres da pirataria cibernética.

 

Agora vem a pior parte da história. Imagine que alguém pirateie o banco de dados de um shaper. Com essas informações, ele monta uma fábrica na China e passa a fabricar em escala industrial pranchas ?pirata? cujos shapes nada devem ao original.

 

Se você acha que isso parece ficção cientifica, saiba que Al Merrick, o deus do shape, já sofreu um grave caso de pirataria chinesa, tendo sido obrigado a informar em seu site que não se responsabilizava por pranchas da sua marca Chanel Islands made in China.

 

Faça uma busca no Google com a expressão ?surfboards made in china? e descobrirá que surgem 85 ocorrências, desde blogs de discussão sobre o assunto até sites bastante suspeitos vendendo as pranchas ?made in china? via internet.

Podemos imaginar que em breve, assim como se compra um CD ou um DVD pirata que nos satisfaz perfeitamente, poderemos também comprar um top shape pirata pela metade do preço de uma original?  Será que nos próximos anos corremos o risco de ver uma inundação de pranchas ?made in china??  A resposta, feliz ou infelizmente, é sim.

 

Dizemos ?felizmente? porque a grande ironia é que os maiores beneficiados pela ?piratização?  das pranchas de surfe top de linha seriam exatamente os paises de terrceiro mundo.

 

Assim como os maiores consumidores de produtos pirata são as classes C, D e E, a oferta de pranchas ?pirata?  made in china a um valor bem menor do que o valor das marcas nacionais poderia representar a oportunidade de acesso ao surfe por integrantes de uma classe social que hoje não tem como adquirir uma prancha nova devido aos preços praticados.

 

Países como Índia, Indonésia, toda América Latina, Angola, e outros paises do continente africano e até a China poderiam se beneficiar enormemente dessas pranchas piratas. Imaginem os surfistas de Titãzinho ou da Rocinha podendo adquirir uma Al Merick…

 

Portanto a revolução tecnológica representada pela máquina de shape poderia desencadear também o crescimento descontrolado de oferta de pranchas no mercado e colocar os shapers no mundo todo numa situação de espectadores, vendo suas pranchas vendidas mundo afora sem ganhar um centavo por isso.

 

Ou seja, a situação desesperadora que a industria fonográfica vive hoje pode vir a se repetir na industria do surfe. Pode ser que um dia você nem se lembre mais que você comprava pranchas feitas por shapers, assim como você hoje em dia nem se lembra mais da ultima vez que entrou numa loja e comprou um CD.

 

Quem viver, verá.

 

 

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