
Seguindo a lógica, eu deveria começar esse texto falando sobre o campeonato interno da Escola Gênesis em Itacaré. Afinal, foi isso que divulgamos aqui no Waves Bodyboard.
Um evento no qual a procura por condições propícias para a prática do bodyboard foi a força motriz para uma viagem composta por 21 pessoas, atletas, familiares e comissão técnica.
Mas, antes disso, vou relatar uma aventura que se iniciou há sete anos, quando decidi criar uma escola de bodyboard na Bahia.
Nesses anos, muitos acontecimentos foram marcantes, demos início a uma jornada de fatos, que se não determinaram o rumo da minha vida e de tantas outras, no mínimo, serviram como uma bússola. Definindo boa parte do que somos e a direção que cada um vai seguir nessa odisséia que podemos chamar de vida. Trocando em miúdos, foram muitas situações vivenciadas, um grande conjunto de momentos inesquecíveis que dão sentido à história.

Foram tantos os nomes, todo um universo representativo de uma sociedade criada em função de um esporte. Ou de uma filosofia de vida? Nomes da minha história, de pequenos a grandes homens e mulheres, sete anos e muita coisa vivida.
Uma inundação de sentimentos, regados pela convivência, amor, fraternidade, amizade, tolerância, rancor, mágoa, tristeza. Um emaranhado que, no fim, só nos trouxe um lindo aprendizado que me deixa saudades. Sendo este último sentimento, para mim, o mais nostálgico e importante. As recordações ficarão sem dúvida alguma, em nossas memórias para sempre.

Não poderia falar do campeonato sem comentar a verdadeira força motriz da nossa viagem, aquela que nos mantém vivos no esporte, independente de competições. O que nos mantém unidos na busca de um ideal. Não o de sermos campeões de algum circuito, nem de ficarmos famosos através do esporte. Muito menos por dinheiro, mas sim pela vontade de estar juntos, de viver juntos, de dedicar parte de nossas vidas a quem amamos e ser felizes.
Essa é a real força motriz, que contagiou a todos, a ponto de muitos desmarcarem compromissos importantes com a família, compromissos profissionais, convites e competições marcadas na mesma data, e por aí vai.
Cito tudo isso para ilustrar melhor nosso evento, para mostrar nossa linha de atuação, nossos valores, o que pensamos e como pensamos. O que verdadeiramente importa para nós, que compomos a Escola Gênesis? Não somos uma sociedade fechada, e sim uma sociedade que sabe o que sente, que sabe como agir frente às adversidades da vida e do mundo e que sabe com quem contar nos momentos difíceis!

Sendo assim, entre os dias 30 de junho e 5 de julho, aconteceu no município de Itacaré, a janela de espera para a realização da segunda etapa do Circuito Interno Escola Gênesis de Bodyboard.
Todos estavam de férias, era uma época propícia para uma viagem diferente, uma viagem que ainda não tínhamos feito juntos. Pensei, então, vamos para Itacaré e viajaremos pelo percurso mais romântico e também o mais barato. O mesmo que todos os surfistas e bodyboarders faziam antes da construção da estrada nova entre Ilhéus e Itacaré.
Todos concordaram e fomos por Bom Despacho (Rodoviária que fica na ilha de Itaparica). Domingo, 29 de junho, iniciamos a trip. Para chegar em Bom Despacho, foi preciso pegar o ferry boat, fazer a travessia da Baía de Todos os Santos (entre Salvador e a Ilha de Itaparica). Estavam presentes eu, Thaty (minha esposa), Jade (minha filha), Miguel e Tomaz Loyola, Paulinho, Aílton, Uri, Enio, Vinícius, Guguinha, Juliana Dourado, Gabi, Serginho e Anderson, isso sem contar Gidean e Rafael, que foram de carro com a família e Fátimo, nosso head judge, que nos encontraria no dia primeiro de julho.
Antes de aportarmos na Ilha de Itaparica, fomos agraciados com o pôr do sol da travessia, e alguns gritavam: Irado!!! Olha lá, olha lá!!!

Foi um bom começo, me senti muito bem naquele momento, estava vivendo como sempre quis e buscando o que era realmente importante, tinha isso como convicção, realmente estava feliz. O próximo passo, seria pegar um ônibus em Bom Despacho rumo a Ubaitaba. Uma viagem para mim recheada de lembranças do meu passado, passaríamos por Nazaré das Farinhas e Valença, cidades onde morei na infância e adolescência, principalmente Valença, onde comecei a surfar e onde eu e Fátimo Cerqueira, ainda crianças, nos conhecemos.
Passaríamos pelo Ceneva, escola e quadra onde costumávamos jogar bola, pela Triana, pracinha de onde se podia ver a antiga casa de Fátimo, onde a molecada agitava as noites com brincadeiras como Picula, Polícia e ladrão, Pique esconde, entre outras.
Passaríamos pela minha rua, a Rua da Aguazinha, de onde se podia sentir o aroma dos cravos que ficavam a secar nas portas das casinhas de seus simples habitantes. Costumavam também a secar cacau ao sol, fruto muito comum nessa região do estado, o que gerou muita riqueza até o início do século XX, assim como o Dendê, tão famoso através do azeite muito utilizado na culinária baiana. Minha antiga rua era também saída da cidade sentido sul do estado e passaríamos por cidadezinhas como Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá, Camamu, até chegarmos na fria Ubaitaba.

Às 20 horas de domingo, saímos de Bom Despacho – liguei para a empresa de ônibus para saber que horas chegaríamos em Ubaitaba, para encaixar com o horário que pegaríamos o ônibus para Itacaré. A atendente me respondeu que a previsão era de chegarmos as 5 da manhã.
Pensei comigo mesmo: Tá legal, às seis e meia sai um ônibus para Itacaré. Tá massa!
E assim embarcamos para Ubaitaba. Conversando com o motorista, ele me disse que aquele ônibus iria para Porto Seguro e que Ubaitaba ficava no caminho. Mas isso eu já sabia, só não tinha certeza do tempo exato de viagem entre Bom Despacho e Ubaitaba. Afinal, da última vez que tinha feito essa viagem, haviam oito anos. Resolvi perguntar só para garantir: Que horas chegaremos em Ubaitaba? No máximo meia noite e meia estamos lá, ele me respondeu.
Como assim, meia noite e emia? A moça atendente da empresa me disse que chegaremos as 5 da manhã. Não meu filho, chegaremos ‘a meia noite e meia, no mais tardar.

Fiquei furioso. Primeiro com a atendente e depois comigo mesmo, como tinha sido estúpido. Em meio à motivação da viagem, esqueci de calcular o tempo e comparar com a informação que a atendente me deu. Se tivesse calculado, teria percebido que a previsão dela era para Porto Seguro, parada final do nosso ônibus.
Resultado: Chegaríamos cedo demais e teríamos que dormir na rodoviária de Ubaitaba.
Alguns me consolavam: Tudo bem Márcio, é só uma noite. Que nada, vai ser irado e você não tinha como adivinhar que a mulher ia entender mal sua pergunta.
Mas no fundo, sabia que o erro tinha sido meu. E dos grosseiros. Resolvi então entrar no clima novamente e tentar encarar o acontecido como uma coisa boa, não sabia o que estava por vir. Durante a viagem, deixei que todos dormissem, sabia que à noite em Ubaitaba, além de fria, seria longa. Como previsto, o frio em Ubaitaba era enorme, uns 12 graus, saía até fumacinha da boca quando assoprávamos. Para quem é baiano, isso representa muito frio. Nessa, ouvimos a frase da viagem. Uma voz grossa e carregada de um sotaque baiano muito forte ecoou pela rodoviária: Meu irmão, tá parecendo Nova York, ou será Londres?

Palavras suficientes para meia hora de gargalhadas. Aílton ficou envergonhado no início, mas depois foi se soltando e tivemos uma das mais engraçadas noites das nossas vidas. Ele soltava uma atrás da outra, e todos riam compulsivamente, e começaram as brincadeiras: pasta de dente e travesseiradas na cabeça de quem dormia, entre outras.
O tempo passou rapidamente, ninguém dormiu, só as meninas. Chegava a hora do trecho que eu tanto esperava, Ubaitaba e Itacaré são separadas por uma estrada de barro de 55km, aproximadamente. O ônibus leva até 3 horas para fazer este percurso, mas a paisagem compensa. Com o amanhecer, a neblina vai se dissolvendo aos recém chegados raios de sol, que vão aquecendo aos poucos o ambiente. Dá para sentir o cheiro do orvalho que a noite deixou. Além do perfume da Mata Atlântica que nos cerca durante a viagem.
Queria ver o momento que chegaríamos ao alto de um morro, e avistaríamos o Rio de Contas se encontrando com o mar. Talves desse para ver o Pontal, com suas direitas perfeitas ao fundo e a exuberante Mata Atlântica em volta, além de alguns telhados de casinhas estilo colonial.
Todos dormiram a viagem inteira, de vez em quando acordava Paulinho e mostrava um cenário bonito, mas bêbado de sono, voltava a dormir. Logo que chegamos no alto, procurei a paisagem que avistei pela primeira vez há exatamente 13 anos, mas tudo mudou com a chegada da estrada nova. Tinham asfaltado o trecho, muitas vilas novas, tudo muito mais urbanizado e aquele antigo clima de paraíso perdido, ao menos naquele momento, se foi completamente.

Enfim chegamos em Itacaré. Tratamos de armar nossas barracas e alguns foram para uma pousada. Ficamos na Tiririca no primeiro dia, cansados, combinamos ir para a Prainha na madrugada seguinte. Os dias que se seguiram, foram iguais, acordar às quatro horas e às cinco iniciar a trilha para a Prainha, que dura aproximadamente 30 minutos.
Assistimos a muitos espetáculos da natureza, sendo alguns especiais, como um pôr do sol lindo no Pontal, com direito a pescador e barquinho na foto, um amanhecer de tirar o fôlego na Tiririca, com o sol surgindo no mar como uma grande bola incandescente que ia subindo ao céu, deixando a paisagem com um colorido especial, um degradê entre rosa, cor-de-abóbora e amarelo, isso sem falar nas ondas, que se não estiveram 100% clássicas, em nenhum momento, também não decepcionaram, nos oferecendo tubos e manobras que ficarão na memória.
Não subiram como na previsão, mas permaneceram constantes entre um metro e um metro e meio. Sem contar que realizamos o desejo de fazer um campeonato em uma praia quase intocadal pelo homem, sem crowd, aliás, éramos 16 pessoas na água e em momento algum vi alguém reclamando de crowd. Ou mesmo chateado pela quantidade de pessoas que resolveram viajar, nos revesávamos nas ondas de maneira que todos saiam satisfeitos.

Bem no estilo freesurf, começamos a competição. Os primeiros a caírem no mar foram os amadores, que competiram uma seletiva que selecionou quatro atletas para engrossarem o caldo da Open. Miguel Loiola foi o campeão e Tomaz Loiola foi o vice, Em terceiro Rafael Loiola e o quarto Enio Barbosa.
Na quarta-feira, dia 02 de julho, o mar acordou com séries de um metrão, sem vento e boa formação. Excelentes esquerdas e direitas quebravam no canto direito da Prainha.
O evento principal começou com a categoria profissional. As baterias aconteceram no formato homem x homem, sem prioridade.
Na seqüência, foi a vez dos amadores, no fim das quartas de final, o vento já entrava forte, a maré havia secado bastante, mexendo com a formação das ondas, foi decidido entre atletas e comissão técnica, a realização das semifinais no dia seguinte bem cedinho na mesma Prainha.

Como de costume, todos acordaram cedo, e às seis da manhã chegamos a Prainha. O mar havia subido um pouco e tinha séries de um metro e meio e sem vento e ondas tubulares no canto direito.
Foi dada meia hora para o freesurf e então o evento começou com a semifinal da categoria Open. A primeira bateria do dia foi entre Uri Valadão e Eu. Até que surfei bem, mantive minha regularidade, só que o adversário era, nada mais nada menos, que Uri Valadão, o atleta com as melhores médias do campeonato. Ficou difícil minha classificação. O placar foi de 17,5 x 12,0 pontos e Valadão estava em mais uma final.
A outra semi, foi entre Gustavo Costa e Anderson Prates. Guga abriu forte com uma nota 9 e logo em seguida tirou um 8. Estava ficando difícil para Prates, que não achou ondas com o mesmo potencial. O resultado foi de 17,0 x 11,5 pontos. Guga estava na final com Uri e pelas médias que ambos fizeram na semi, a final prometia um show de Bodyboarding.

Então foi a vez dos amadores, na primeira semi, Tomaz Loiola pegou uma onda da série mal formada e espumada e atacou com um ARS quase perfeito, 8,5 e a garantia da vaga para final em primeiro. Vinícius Alvin fez boas ondas e garantiu também sua vaga para final.
A segunda semi foi entre Enio Barbosa, Miguel Loiola e o destaque do campeonato Juliana Dourado. Nesse momento, o mar estava ficando difícil, as ondas fechavam muito, dificultando o trabalho dos atletas. Miguel fez uma boa onda de Rollo e logo em seguida um ARS animal que lhe garantiu um 8,5 e a vaga para a grande final em primeiro lugar. Juliana trabalhava com regularidade suas ondas, fazendo duas notas 4,5 e se classificou em segundo lugar.

Para a realização das finais, ficou decidido a espera pela enchente da maré, que proporcionaria melhores condições. O evento então recomeçou e era a hora da grande final da categoria profissional. O mar tinha ondas grandes de até um metro e meio e a primeira onda da bateria foi de Uri Valadão. Um drop reto, uma cavada perfeita e um Back Flip muito alto caindo de frente. Perfeito, nota 10 unânime.
A bateria começou pegando fogo, Gustavo Costa respondeu com uma onda também muito forte, das maiores da série e um Rollo Aéreo gigante. Nota 9. Vieram muitas outras ondas, manobras aéreas, porém seguidas de erros na finalização.
A bateria seguia sem favorito até os últimos cinco minutos, quando Uri achou outra onda excelente e voou num Rollo Aéreo muito alto, tirou 9,5 e deixou uma tarefa quase impossível para Guga, teria que fazer duas notas dez em menos de três minutos para vencer a bateria. Uri foi o campeão e Gustavo Costa o Vice, 19,5 x 13,0 pontos.
Na final da categoria amador, uma surpresa, Juliana Dourado que competia entre os homens arrebentou, acertando um excelente rollo em uma onda de um metrão em um momento decisivo da bateria. Ela foi o grande destaque da competição, foi a vice campeã e superou atletas como Miguel e Tomaz Loiola na final e por muito pouco não venceu a competição. O grande campeão foi Vinícius Alvin, Miguel Loiola ficou com a terceira posição e Tomaz Loiola com a quarta.
Para finalizar, vale ressaltar que este foi muito mais que um campeonato, esta, foi muito mais que uma simples viagem. Somos uma família e esse sentimento cresce cada vez mais em mim. O saldo? Muita sensibilidade e amizade, a cada dia, fico mais fã de todos vocês, exemplos de conduta moral, técnica e disciplina para o bodyboard brasileiro. Vocês me orgulham e por essas razões, por vocês, sou professor.
As gerações passarão, mas esta, ficará marcada para sempre!