O bichinho me mordeu aos 15 anos. Tudo se passou no século passado, 1982, ano que o Brasil perdeu uma Copa do mundo.

 

O Flamengo era o maior time do planeta e Zico, o Pelé da hora. Minha vida comia, bebia, respirava e, principalmente, torcia futebol.

 

Morando no Rio de janeiro, poucos metros do clube mais querido do Brasil, Mengão, com um pai vascaíno roxo, não podia ser outra coisa. Mas algo mudava.

 

Dois anos antes, meio que sem querer, depois de muita insistência do futuro cunhado, começava, assim devagarzinho, o interesse pelo surfe. Já sabia ficar de pé, ir no corte, tinha uma prancha em sociedade com um primo e já tinha comprado minha primeira Surfing.

 

O namorado da minha irmã, Ronald, fazia de tudo para que eu não atrapalhasse os amassos, então logo me ofereceu a coleção de revistas de surfe que ficavam no seu quarto e que me debruçava e só saía se fosse para andar de skate na ladeira em frente, Rua Cedro.

 

Ele me deu também uma pequena discoteca, quase igual àquela do filme “Quase Famosos”, com Black Sabath 4 , Robin Trower – “Bridge of Sighs”, Neil Young – “Comes a Time”, Santana – “Abraxas”,  Jethro Tull – “Aqualung”, Triumvirat – “Spartacus”, Led Zeppelin IV, Bob Dylan – “Blood on the Tracks”, Wishbone Ash – “There’s a Rub”, Yes – “Fragile” e dois do Bad Company.

 

Sem falar no LP do Pink Floyd, “Umagumma”, que só uns 200 anos depois eu iria entender. Bem provável que meu interesse pelo futebol tenha se esvaído com as esperanças do título mundial da Copa da Espanha e a “Tragédia de Sarriá”.

 

No meu prédio, aqui na Gávea, zona sul do Rio, moravam uns 10 surfistas, sendo que dois deles seriam determinantes no jeito que o surfe entraria de sola na minha vida de futuro ponta direita do Mengão.

 

Um chamava-se Sérgio, conhecido como Parrá, outro era Paulinho, apelidado de Zulu, por causa da cabeleira afro que ostentava na época. Eram inseparáveis. O primeiro tinha uma Brasília branca e o segundo um faro raro para tubos.

 

A dupla me adotou como mascote e no banco de trás da Brasília, todo santo dia, eu ia para o Quebra-mar, na Barra da Tijuca, alguma coisa equivalente à capital do surfe carioca de  então, junto do Arpoador, ou pelo menos parecia isso prum moleque de 15 anos.

 

Quando não tinha carona, esperava o 554, ônibus de trajeto curioso, que saía do Leblon e rodava a orla inteira, pela avenida Niemeyer, costeando até o final da praia da Barra. Íamos assim checando todas possibilidades de surfe nos mais de 20 quilômetros do trajeto.

 

Se me perguntarem quando que resolvi ser surfista pro resto da vida, a resposta deve resvalar nos meus 15 anos.

 

E foi por aí que, num belo dia de marolas lindas, água quentinha, canalzinho ao lado das pedras e umas direitinhas atípicas no Quebra-mar, resolvi me atirar de rosto para o bico da minha prancha.

 

O resultado: 35 pontos e quase fico se um olho, feito o David Bowie e o Derek Hynd. No primeiro hospital, público, o médico de plantão examinou o corte e exigiu internação: “Vamos ter que operar”, disse o jaleco branco.

 

– Vai operar a sua mãe! Emendei de voleio.

 

Acabei numa clínica de cirurgia plástica. Calma, nada disso que vocês pensam, apenas fui me costurar, pois um amigo do meu pai atendia lá. Nunca mais esqueço a cara da minha irmã quando entrou na sala onde iriam começar a sutura, desmaiou na hora. E eu rindo.

 

Foram três meses sem encostar na água salgada. Toda família dizendo que aquele esporte era muito perigoso, um menino tinha morrido com a garganta cortada no Recreio, avisava preocupada uma tia.

 

No dia em que pude voltar a surfar, era um domingo, chamei minha mãe pra aparecer na praia assistir o filho surfando, afinal os vizinhos diziam que ele levava jeito.

 

Peguei o primeiro 554, às 5:15 da madrugada, entrei no mar 6 horas, minha mãe deve ter chegado umas 9, saí pra dar um beijinho, voltei e só me desaguei às 6 da tarde. 12 horas dentro d’água, com dois pequenos intervalos para “olá” e “até mais tarde”, na bochecha da mamãe.

 

A prancha era uma Russo, 6’1″, amarela, biquilha, comprada de um surfista semi-profissional, Carlinhos, irmão do Heitor Fernandes, famoso shaper brasileiro que morava no Hawaii.

 

Esse ano completa 20 anos daquela caída. Era recomendado que não ficasse muito tempo no sol para a cicatriz não ficar muito saliente. Ostento uma cicatriz discreta na face direita, a outra, bem maior, até hoje não fechou, eu carrego pra sempre nos olhos, no jeito de olhar pro mar.

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