Billabong Pro Pipeline

Brasil na semi

Caio Ibelli, Samuel Pupo e Miguel Pupo seguem vivos no Billabong Pro Pipeline, e dois deles se enfrentam nas quartas de final.
Billabong Pro Pipeline 2022, North Shore de Oahu, Havaí

O Brasil já está garantido nas semifinais do Billabong Pro Pipeline. Nesta terça-feira (1) foram definidas as baterias das quartas de final da etapa havaiana, e Caio Ibelli e Samuel Pupo se enfrentam na última bateria da fase. Miguel Pupo também segue vivo e encara o peruano Lucca Mesinas no round.

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Como previsto, as ondas ganharam muito tamanho ao longo do dia. Elas começaram com 5 pés e bateram 12 pés ao longo da tarde. Pela manhã os tubos de Backdoor ainda apareciam com frequência, porém conforme o swell foi ganhando força, Pipeline passou a ser o único caminho para as vitórias.

Miguel foi o primeiro brasileiro a garantir vaga nas quartas de final. Ele passou bem por Connor O’Leary na sexta bateria da terceira fase. Depois de uma metade de disputa fraca, nos 20 minutos finais os surfistas mostraram performance. O australiano se soltou antes, quando usou a prioridade e fez um tubo pra Pipeline que valeu 4.67 pontos. Na mesma série, porém numa esquerda menor, o brasileiro também completou um canudo, que valeu 3.67.

Com menos de dez minutos para o fim, Miguel precisava de 3.44 pontos para assumir a liderança, e aí ele começou a fazer um excelente uso da prioridade. Logo passou por dentro de Pipe (5.67) para assumir a primeira posição. Conner não fez uma boa escolha e perdeu a prioridade num airdrop. O australiano saiu do mar para trocar de prancha. Ele precisava de 4.58.

Quando faltavam quatro minutos para o fim, novamente Miguel usou bem a prioridade. O brasileiro foi para a esquerda, ficou fundo e saiu junto com a baforada para disparar na frente com mais 7.17 pontos. Connor ainda tentou uma onda pra Pipe, mas caiu e se despediu do Billabong Pro Pipeline.

Nas oitavas a disputa foi brazuca. Miguel pegou os melhores tubos da terceira bateria e superou Italo Ferreira. A bateria estava parelha, sem destaque, até os 11 minutos finais. Naquele momento Miguel completou um drope numa parede íngreme já dentro do tubo, e saiu com uma baforada explosiva. Ele estava em segundo lugar e assumiu a liderança com 7.33 pontos.

Miguel completou outro canudo para Pipeline no minuto seguinte. Dessa vez ele conquistou 5.07 pontos dos juízes, e deixou o caminho complicado para Italo. O campeão de Pipeline em 2019 passou a precisar de 7.57. Ele ainda teve uma chance, mas a onda ficou espumada e ele não saiu do tubo para a esquerda.

O próximo adversário de Miguel será Lucca Mesinas, que virou a bateria do Round 3 contra o norte-americano Kolohe Andino nos segundos finais, com um tubo para Pipeline. O peruano não teve adversário nas oitavas, já que o costa-riquenho Carlos Muñoz sentiu uma lesão no ombro na vitória sobre o português Fredrico Morais na terceira fase, e não teve condições de competir nas oitavas.

Estreante ousado – O irmão de Miguel, Samuel Pupo, também está nas quartas de final. Samuca passou por Deivid Silva na terceira fase, e depois pelo sul-africano Jordy Smith, nas oitavas.

Samuel Pupo pegou um bom tubo que valeu nota no critério excelente e a vitória sobre Deivid Silva no terceiro round. O duelo foi o 15º da fase e começou com notas fracas, mas nos minutos finais Samuel brilhou.

O brasileiro começou a surfar bons tubos para Pipeline e venceu com ampla vantagem no placar. As melhores atuações dele valeram 5.67 pontos e a nota no critério excelente, 8.33, conquistada com um drop de backside sem as mãos na borda, seguido de um tubo oco e profundo, com saída junta da baforada.

Deivid até que tentou, mas teve dificuldade em achar as melhores ondas e perdeu pelo placar de 14.00 a 5.26 pontos.

A outra vitória de Samuel nesta terça-feira foi na última bateria do dia, e das oitavas. O brasileiro fez dois tubos muito bons para a esquerda, colocou duas notas na casa dos sete pontos no somatório (7.83 e 7.33) e superou Jordy Smith. O sul-africano demorou 22 minutos para entrar em ação, e mesmo assim escolheu uma onda que não abriu a boca para ele sair do tubo.

Jordy voltou pro jogo quando restavam sete minutos para o término da bateria (7.07), mas ele precisava de mais para vencer e não teve mais chances de conseguir a nota.

Convidado no gás – O adversário de Samuel nas quartas de final será Caio Ibelli. Ele foi outro brasileiro que fez boa bateria na terceira fase. O brasileiro fez um bom tubo pra Pipeline, e depois passou por dentro de Backdoor para vencer Griffin Colapinto.

O norte-americano botou pra dentro de duas bombas pra esquerda, mas não achou a saída. Ao contrário, o brasileiro dropou pra Pipe segurando a prancha com as mãos, colocou no trilho e ficou em pé. Depois ele voltou a reforçar a base com as mãos para sair do tubo junto com a baforada. A nota foi 7.33 pontos.

Caio se manteve calmo, pois precisa de menos de um ponto para assumir a liderança. E ele fez bem o jogo, ao pegar um canudo pra direita, anotar 3.90 pontos e deixar o norte-americano na necessidade de 5.74.

Griffin ainda tentou a virada numa esquerda, mas a onda não era da série e o tubo não foi fundo. Nem as duas batidas que ele deu depois ajudaram na nota, que foi 4.93 pontos. Caio avançou e Griffin foi eliminado.

Caio voltou a mostrar muita maturidade em Pipeline na sétima bateria das oitavas. Com duas notas na casa dos seis pontos (6.50 e 6.33), o brasileiro superou de forma tranquila o australiano Callum Robson. O estreante na elite não se conectou com a bancada e perdeu por 12.83 a 5.23 pontos.

Maior nota do dia – O autor da maior nota do dia foi João Chianca. Ele competiu numa das baterias mais aguardadas da terceira fase do Billabong Pro Pipeline. O novato na venceu um dos favoritos ao título da competição havaiana, Jack Robinson.

O brasileiro foi melhor desde o início, seja na escolha das ondas ou na performance para completar os canudos. Exímio surfista de tubos, o australiano não saiu de alguns e chegou a vacar na tentativa de um drope numa onda grande.

João conquistou 6.67 pontos pra Backdoor num momento que não tinha a prioridade. Três minutos depois, quando restavam 22, o brasileiro usou a prioridade, foi pra Pipe e colocou mais 6.70 no somatório.

O australiano passou a precisar de 7.54 pontos, mas só teve chance de surfar mais duas vezes e não completou os tubos, um para Pipe e outro para Backdoor. Depois as ondas pararam de aparecer em Pipeline, até que nos segundos finais João usou a prioridade e foi pra direita. Ele andou muito, mas não saiu do canudo, porém terminou a batalha como vitorioso.

A outra bateria de Chumbinho no dia foi mais uma pedreira. Ele perdeu, mas se despediu do Billabong Pro Pipeline com a maior nota da etapa até o momento. A derrota foi para ninguém menos que John John Florence, bicampeão mundial que vive em frente à Rainha do North Shore e é considerado o atual melhor surfista do pico havaiano.

O havaiano deu espetáculo e abriu larga vantagem na bateria com as notas 9.77 e 8.00 pontos. João precisava de 17.77 pontos para reverter o placar, mas ele acreditou e chegou perto.

O brasileiro pegou uma bomba, controlou o drope, sumiu dentro do tubo e saiu. A nota foi 9.87 pontos, a maior do Billabong Pro Pipeline até o momento. A partir daí João passou a necessitar de 7.90 pontos e ele tinha 13 minutos para isso.

João ainda pegou três ondas, e na melhor fez 6.87 pontos. Ele foi eliminado, mas deixou uma excelente impressão no mundo do surfe. Agora ele mira o olhar para Sunset, praia próxima de Pipeline que sediará a segunda etapa do CT 2022, neste mês de fevereiro.

Kelly nos segundos finais – O maior nome do surfe de todos os tempos, Kelly Slater, também competiu duas vezes nesta terça-feira. A primeira bateria foi tranquila, já que o também norte-americano Jake Marshall surfou apenas uma onda (1.50). O 11 vezes campeão mundial venceu com 7.00 e 4.70 pontos nas melhores apresentações.

Nas oitavas a história foi bem diferente. Ele participou da primeira bateria das oitavas de final. O adversário Barron Mamiya botou pressão em Kelly com as notas 6.50 e 8.67 pontos. O norte-americano passou a precisar de uma nota máxima para avançar na competição e foi em busca das ondas.

Na terceira tentativa, Kelly fez um belo tubo pra Pipeline e conquistou 8.00 pontos. Mas ele ainda precisava de 7.18. Quando restava pouco mais de dez minutos, o norte-americano pegou uma onda ruim e foi varrido por uma série.

Kelly não desistiu, conseguiu chegar nos instantes finais na prioridade, e quando tudo parecia perdido, veio uma série. O norte-americano deixou passar a primeira onda e foi na segunda. Quando restavam três segundos para o fim, ele dropou pra Pipeline, ficou fundo no canudo e saiu feliz da vida. A nota foi 9.23 pontos. O adversário de Kelly nas quartas será o japonês Kanoa Igarashi.

Filipe e Italo – Filipe Toledo e Italo Ferreira foram eliminados no dia, mas passaram uma bateria. Filipe bateu o especialista em Pipeline, convidado para a etapa, Ivan Florence, na terceira fase.

O havaiano apostou em Pipeline, mas não conseguiu nenhum tubo expressivo. Já Filipe pegou ondas menores também para Pipe, mas quando teve oportunidade de ir para Backdoor, fez o uso da prioridade, ficou fundo e saiu para anotar 7.67 pontos.

A nota deu a liderança para o brasileiro, que ainda viu um ataque perigoso do havaiano, porém o tubo para Pipeline foi outro que não teve profundidade. Final de bateria e Filipe classificado para as oitavas de final do Billabong Pro Pipeline.

O adversário de Filipinho foi outro havaiano. A bateria entre ele e Seth Moniz rolou num momento em que Pipeline não funcionava muito bem. Os dois tiveram poucas oportunidades, e o havaiano mostrou que conhece o pico, achando as melhores oportunidades que apareceram. Filipe surfou apenas duas ondas, enquanto seu adversário foi em quatro. No final Seth venceu pelo placar baixo de 8.00 a 3.50 pontos.

Antes de perde para Miguel nas oitavas, Italo competiu e venceu pelo Round 3. O campeão da etapa havaiana do CT em 2019 mostrou sintonia com a Rainha do North Shore de Oahu, e fez uma boa apresentação.

Muito ativo e sabendo escolher bem as ondas quando tinha a prioridade, Italo começou com 6.50 pontos aos cinco minutos de bateria, com um tubo pra Pipeline. Três minutos depois fez outro, porém numa onda menor (5.43) também pra esquerda. Enquanto isso, o adversário Miguel Tudela só tinha ondas fracas e já necessitava de 8.00 pontos para vencer.

Passados os 20 minutos iniciais da bateria, Italo usou bem a prioridade, ficou fundo em Pipeline, e saiu do tubo após a baforada para anotar 7.17 pontos. Restando 16 minutos para o fim, o peruano não conseguia completar boas ondas e precisava de uma nota quase perfeita.

Tudela foi pra Pipe no minuto final e fez um bom tubo, porém os 5.67 pontos não alteraram o resultado. Final de bateria e Italo Ferreira venceu pelo placar de 13.67 a 9.60.

Próxima chamada – A próxima chamada para o Billabong Pro Pipeline acontece nesta quarta-feira (2), às 14h30, para um possível início às 15h (de Brasília).

Previsão das ondas – Pipeline deve funcionar muito bem nesta quarta. A previsão indica ondas de 8 a 12 pés de face pela manhã, com vento terral. Ao longo do dia o swell perde força.

Billabong Pro Pipeline
Oitavas de final

1 Kelly Slater (EUA) 17,23 x 15,17 Barron Mamiya (HAV)
2 Kanoa Igarashi (JPN) 11,70 x 10,50 Leonardo Fioravanti (ITA)
3 Miguel Pupo (BRA) 12,40 x 8,73 Italo Ferreira (BRA)
4 Lucca Mesinas (PER) 3,07 x w.o Carlos Munoz (CRI)
5 Seth Moniz (HAV) 8,00 x 3,50 Filipe Toledo (BRA)
6 John John Florence (HAV) 17,77 x 16,74 João Chianca (BRA)
7 Caio Ibelli (BRA) 12,83 x 5,23 Callum Robson (AUS)
8 Samuel Pupo (BRA) 15,16 x 8,20 Jordy Smith (AFR)

Quartas de final

1 Kanoa Igarashi (JPN) x Kelly Slater (EUA)
2 Miguel Pupo (BRA) x Lucca Mesinas (PER)
3 John John Florence (HAV) x Seth Moniz (HAV)
4 Caio Ibelli (BRA) x Samuel Pupo (BRA)
Round 3 Feminino

1 Sally Fitzgibbons (AUS) x Malia Manuel (HAV)
2 Tyler Wright (AUS) x India Robinson (AUS)
3 Tatiana Weston-Webb (BRA) x Moana Jones Wong (HAV)
4 Isabella Nichols (AUS) x Bettylou Sakura Johnson (HAV)
5 Carissa Moore (HAV) x Bethany Hamilton (HAV)
6 Gabriela Bryan (HAV) x Brisa Hennessy (CRI)
7 Johanne Defay (FRA) x Molly Picklum (AUS)
8 Lakey Peterson (EUA) x Luana Silva (HAV)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.