
Reconhecido como um verdadeiro celeiro de talentos do surf nacional, o Ceará continua produzindo surfistas de qualidade acima da média em seus diversos fundos de areia, pedra e coral.
A mais nova sensação da região se chama Pablo Paulino e acaba de faturar o cobiçado título mundial Pro Junior.
Aos 17 anos, Paulino superou toda sorte de adversidades, e os mais difíceis adversários, para chegar ao topo do mundo na categoria que tem sido um termômetro e um preciso indicador dos futuros integrantes da elite do surf mundial, o WCT.

Foi assim com o tricampeão mundial Andy Irons, campeão Pro Junior em 98, com o atual vice-campeão mundial Joel Parkinson, bicampeão Pro Junior, em 99 e 2001, e com o campeão Pro Junior de 2003 Adriano Mineirinho, que já é tido como presença garantida no circuito mundial nos próximos anos.
Ao que tudo indica, o mesmo deve acontecer com Pablo. Não apenas por ter vencido de forma incontestável a difícil competição em 2004, mas pelo nível de surf que vem apresentando, tendo impressionado lendas do esporte como Wayne Bartholomew, presidente da ASP, Mark Occhilupo, Luke Egan, Joel Parkinson, entre outros.
É claro que apenas talento e surf no pé não bastam. O apoio familiar, estrutura profissional e financeira e principalmente o equilíbrio no lado psicológico também são determinantes para o sucesso nesse longo e sinuoso caminho.
O próprio Ceará viu um de seus maiores talentos, Fábio Silva, abandonar uma carreira promissora no WCT por não agüentar a pressão que recai sobre um top mundial, longe de casa e da família boa parte do ano e sem uma empresa que ajude o atleta na empreitada.
Quanto a isso Pablo está tranqüilo. Por uma incrível e feliz coincidência do destino, ele fechou um contrato de patrocínio com Billabong Brasil dias antes de embarcar para a Austrália, onde disputaria o mundial promovido anualmente pela marca.
Inicialmente o contrato foi assinado apenas para o patrocínio principal, com o atleta liberado para procurar outros apoiadores através de seus empresários. Porém, depois da excelente campanha na Austrália, a Billabong Internacional mostrou interesse em ter o atleta representando todas as marcas do grupo. Já no Brasil, a Ability, empresa de assessoria esportiva que cuida da carreira do atleta, negociou um contrato inicial de dois anos com a gigante mundial australiana.
“Pablo surfou muito e impressionou a todos na Austrália. Quando voltou ao Brasil, fomos procurados pela matriz e começamos a negociar a ida dele para a Billabong Internacional. No final deu certo e hoje ele é o único atleta ‘full brand’ da empresa, com patrocínio da Billabong, Von Zíper e Kustom, as três marcas da GSM, que comanda o grupo Billabong”, explica Zé Paulo, team manager da Billabong Brasil.
Local do Titanzinho, que além de Fábio Silva revelou fenômenos como Tita Tavares, top do circuito mundial, e alguns dos integrantes da elite nacional brasileira, como Lucinho Lima, Pablo começou a surfar aos 8 anos por influência do irmão mais velho Paulo Henrique.
“Eu nasci e morei em Santos (SP) até os 7 anos, quando fui para o Ceará com minha mãe, que já tinha um filho lá. Comecei no esporte incentivado por ele e entrei na escolinha de surf do Titazinho, que revelou nomes como Duda Carneiro, André Silva, Lucinho Lima, Martins Bernardo, entre outros, que hoje estão viajando e batalhando em busca de um lugar ao sol”, conta o atleta.
Confira galeria de fotos da carreira de Pablo Paulino.
Veja vídeo com imagens de Paulino no litoral norte de São Paulo.
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Em seu primeiro ano de surf Pablo usava um equipamento bastante comum às crianças carentes do Ceará que iniciam no surf: a famosa tábua, ou “tauba”.
Depois ganhou uma prancha de presente da mãe, que parcelou o pagamento em cinco vezes, segundo ele conta.
Porém, a prancha quebrou pouco tempo depois e Pablo só voltou a ter uma quando ganhou de presente da amiga e incentivadora Tita Tavares.
Com pouco mais de um ano de surf participou da primeira competição e um ano depois já era campeão cearense Iniciante.
“Surfei muito de tábua e agradeço muito o apoio

que tive de pessoas como a Tita e minha mãe. O sonho dela era que eu fosse policial, mas isso nunca passou pela minha cabeça, e apesar disso
sei que estou dando muitas felicidades a ela como surfista profissional”, conta Paulino.
O surf afiado que ele vem mostrando foi lapidado nos diversos fundos de pedra e coral que existem no Ceará, em especial um secret próximo ao Titanzinho que segundo ele é uma das melhores ondas do Brasil.
A influência de nomes como Fábio Silva e Joel Parkinson também faz parte do estilo adotado por Pablo.
“Minha base foi desenvolvida em um fundo de pedra perto de casa que tem uma onda incrível e bastante difícil, que proporciona dois ou três tubos na mesma onda e muitas manobras. Igual a ela só mesmo na Indonésia. Sempre tentei imitar o estilo de Fábio Silva, com manobras bem elásticas, e Joel Parkinson, que possui bastante fluidez”, fala o atleta, que diz estar buscando o nível mostrado pelos tops mundiais.
As principais manobras executadas pelo atleta são os aéreos 360 e invertido, batidas de backside e rasgadas de frontside. Depois de ver que o surf no Ceará estava bastante enfraquecido, sem apoio nem perspectivas, ele decidiu tentar a sorte no Rio de Janeiro, a exemplo de vários outros atletas nordestinos em situação semelhante.
“Em 98 decidi ir para o Rio de Janeiro, mas ainda voltava bastante para visitar minha mãe, pois a saudade era grande. Depois de um ano a grana estava curta e tive que optar entre ficar de vez ou voltar, e escolhi a primeira opção”, conta Pablo, que logo depois viria a conhecer a pessoa responsável pelo amadurecimento do seu surf.
Durante uma competição em Santos foi apresentado ao shaper carioca Tiago Bastos Cunha, que estava lá para ver Lucinho Lima, um dos atletas que apoiava. Na época Pablo era patrocinado pela marca Maresia, que bancava as pranchas do atleta. Tiago ficou interessado e resolveu dar três pranchas a ele, como teste.
“Gostei bastante das pranchas do Tiago, nunca havia tido tantas pranchas em meu quiver. Em 2000 acabei indo morar na Casa dos Surfistas, no Recreio dos Bandeirantes, um projeto social desenvolvido por Cunha e Udo Bastos para surfistas do Nordeste que se mudaram para o Rio. Fui o primeiro atleta patrocinado por eles e tive o apoio necessário para começar minha trajetória nas competições”, explica.
Confira galeria de fotos da carreira de Pablo Paulino.
Veja vídeo com imagens de Paulino no litoral norte de São Paulo.
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O ano de 2003 foi decisivo e Pablo faturou os títulos de campeão brasileiro amador nas categorias Mirim e Júnior, dando um salto significativo em sua carreira.
Foi para o mundial amador da ISA em Durban, África do Sul, e, mesmo marcando uma das maiores médias do evento, terminou na sétima colocação na Junior.
Decidiu se profissionalizar em seguida e conseguiu a tão sonhada vaga para o SurfSurf, primeira divisão do surf brasileiro.
Mas, desde as categorias de base até hoje seu principal rival dentro da água tem sido o fenômeno Adriano Mineirinho. Várias disputas foram travadas entre os dois, algumas

eletrizantes.
“Fiquei muito feliz quando ganhei dele em Icaraí, em uma etapa do brasileiro amador. Estava em casa, diante da torcida e precisando de uma combinação de notas para virar. Já no final da bateria consegui marcar um 8,5 e um 8,4 e acabei virando, foi muito importante para mim aquela vitória”, diz Paulino.
Os dois ainda se encontrariam justamente na final da primeira seletiva sul-americana que definiu o time brasileiro que disputou o mundial Pro Junior de 2004, na praia da Joaquina, em Florianópolis.
Apesar de estar automaticamente classificado por ser o atual campeão na época, Mineirinho não só disputou a etapa como chegou na final e estava quase levando o título.
Para dar uma idéia do nível técnico da disputa, Adriano Mineirinho abriu a bateria com 8.33 e em seguida marcou um 7.87. Paulino tirou um 9 e precisava de 7.02 para tirar a vitória do guarujaense. Foi quando nos 20 segundos finais, Mineirinho tinha a prioridade e desistiu de entrar em uma onda que não parecia ser grande coisa. Pablo remou deseperado e com muita vontade pegou a onda salvadora, arriscou tudo na única manobra, um aéreo 360, e tirou 8,23, garantindo a vitória.
“Até hoje me emociono quando assisto o vídeo daquela final, foi uma vitória marcante para mim e minha família também. Apesar de toda essa rivalidade dentro da água, somos bastante amigos fora dela”, garante Paulino, que ficou em nono lugar na segunda etapa da seletiva e terminou como campeão sul-americano Pro Junior, garantindo a vaga na equipe que disputou o mundial em North Narrabeen, Austrália.
Foi lá que aconteceu a grande virada na carreira e na vida de Pablo Paulino. Ele conta que já estava muito feliz de representar o Brasil na competição, e não esperava ganhar o título de forma tão impressionante. Pablo conta que apesar de a equipe estar bem unida, ele preferiu adotar uma postura diferente dos demais e se concentrar totalmente na competição, assistindo ao máximo de baterias que pudesse.
“Acho que essa foi a equipe mais unida que já integrei. Jean (da Silva) e o Hizu (Hizunomê Bettero), por serem os mais velhos e mais experientes, estavam liderando a galera, dando os toques e ajudando no inglês. A torcida brasileira também era grande e deu a maior força. Mas eu queria ser campeão e decidi ficar na minha, não saía da praia e queria ver as baterias do adversários, estudar o mar e as ondas, que por causa do vento estavam bem parecidas com o Ceará e também com as do Rio de Janeiro”, analisa Pablo, que afirma ter adquirido uma base importante nas ondas cariocas.
Confira galeria de fotos da carreira de Pablo Paulino.
Veja vídeo com imagens de Paulino no litoral norte de São Paulo.
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A estratégia de Pablo funcionou e, mesmo tendo sido mandado para a repescagem, ele deu a volta por cima. Depois disso não perdeu mais, aniquilando os adversários um a um até chegar à final, com médias altíssimas e manobras modernas e precisas.
Com a eliminação de Mineirinho pelo alemão Marlon Lipke, as atenções se voltaram para o até então desconhecido brasileiro.
“Depois de vencer Jean nas quartas-de-final senti que poderia realmente vencer o campeonato. Entrei nervoso, já que ele era conhecido, disputa o WQS, e estava surfando muito bem. Mas consegui boas notas, relaxei e acabei vencendo. Na final, contra o havaiano Dustin Cuizon, eu estava tranqüilo, mesmo com as

tentativas de intimidação dele”, revela.
“Ele chegou a afundar o bico da minha prancha, tentou me dar um soco e xingou muito, mas procurei não revidar e apenas me concentrei em surfar bem. Pretendo conhecer o Hawaii em breve e não valeria a pena ficar marcado por atitudes como as dele. Porém, remei forte para ganhar posição e mostrei que não abaixaria a cabeça”, fala com empolgação o atleta.
“Gostei de surfar no formato do WCT, com disputas homem a homem, achei até mais fácil. Foi inesquecível conviver com ídolos como Mark Occhilupo, Luke Egan, Joel Parkinson, David Rastovich e Mick Fanning durante a competição na Austrália. Fui elogiado por eles depois da final e isso me motivou bastante a buscar meu maior objetivo que é entrar no WCT”, disse ele.
Agora, Pablo começa uma nova fase. Decidiu mudar-se do Rio de Janeiro para Camburi, no litoral paulista, onde vai morar no novo centro de treinamento da Billabong, desenvolvido por Zé Paulo, que oferece toda a assistência aos atletas da marca com aulas de inglês, preparação física, assistência médica e nutricional.
“Eu ia morar em Ubatuba, mas mudei de idéia depois de conhecer o CT da Billabong em Camburi. O lugar é alucinante e teremos tudo para desenvolver o lado técnico, esportivo e social em uma casa de sonhos de frente para a praia. Claro que irei passar boa parte do ano fora do país, mas sempre que voltar ao Brasil ficarei lá, treinando e me preparando paras as competições. A Billabong está de parabéns pela iniciativa”, fala Paulino.
Entre os objetivos dele para 2005 está correr as principais etapas do QS e SuperSeries, eventos especiais de 5 e 6 estrelas da segunda divisão do circuito mundial, em que Pablo já entra na fase dos 96 por ser o atual campeão mundial Junior. Também irá disputar as triagens das três etapas do WCT patrocinadas pela Billabong, em Teahupoo, Mundaka e Jeffreys Bay.
No que depender do talento natural deste cearense de criação e formação, o Brasil ainda terá muito motivos para comemorar vitórias mundo afora, como a ocorrida em janeiro deste ano na Austrália.
Confira galeria de fotos da carreira de Pablo Paulino.
Veja vídeo com imagens de Paulino no litoral norte de São Paulo.
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