Latinidades

O poder das mulheres negras

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DaMata Make Up. Foto: Natalia Giacomello.

 

O Festival Latinidades leva ao Distrito Federal uma programação gratuita, rica e variada, reforçando seu compromisso cultural, social e formativo. Entre os dias 25 e 31 de julho, a 9ª edição acontece no Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios e no Cine Brasília. O evento consolidou-se como o maior festival de mulheres negras da América Latina, promovendo sob a temática afro diálogos e intercâmbio cultural entre estados brasileiros e outros países.

A nona edição em 2016 tem como tema a comunicação, incitando olhares sobre o marketing, o jornalismo e as redes sociais. Ressalta a importância do fortalecimento das mídias negras, da produção intelectual de negras e negros em torno da produção de conteúdos. A partir deste tema, o Festival Latinidades destacará ainda o protagonismo de mulheres negras na comunicação.

Todos os anos, o Latinidades oferece música, dança, teatro, literatura, formação, capacitação, empreendedorismo, ações ambientais, responsabilidade social, economia criativa, comunicação e reflexão. A programação desta edição traz mesas de debates, oficinas, shows, mais de 15 lançamentos literários, feira, shows, exibição de filmes e muito mais.

 

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Akin tocando no Festival Latinidades. Foto: Natalia Giacomello.

 

Entre os convidados participantes nas mesas e debates estão intelectuais, jornalistas, produtores culturais, como Luciana Barreto (Repórter Brasil Tarde/TV Brasil), Valéria Almeida (Globo Repórter /TV Globo), Maíra Azevedo (Jornal A Tarde – BA), Hendi Pontiac (África do Sul), Djamila Ribeiro (Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo), Sueli Carneiro (Geledés Instituto da Mulher Negra), Eliane Dias (Boogie Naipe/Racionais MC’s), Jean Yves Bassangna (Camarões), Monique Evelle (Desabafo Social), entre outros nomes.

Na sexta-feira, dia 29/07, acontecerá a conferência com a norte-americana Kimberlé Crenshaw, uma das mais reconhecidas intelectuais negras da atualidade. Seu trabalho inovador chegou a influenciar a elaboração da cláusula sobre equidade presente na Constituição sul-africana.

No sábado à noite, dia 30/07, acontecem os shows com Rico Dalasam (SP), MC Soffia (SP), Donas da Rima (DF), Beth D’Oxum e Coco de Umbigada, Dream Team do Passinho (RJ) e duas apresentações internacionais, a saxofonista Hope Clayburn (EUA) e a cantora Veronny Okwei Odili (Nigéria).

Durante o final de semana, a programação também contempla os pequenos. O Espaço Infantil traz atividades para as crianças aprenderem brincando e se divertirem muito, com histórias, roda de conversas e bailinho.

 

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Bailinho para as crianças. Foto: Natalia Giacomello.

 

No “Latinidades Sustentável” o evento busca inspirar atitudes que contribuam para um mundo melhor, como o “Vem de bike” que disponibiliza bicicletário com iluminação e segurança funcionando todos os dias. O “Varal Social” também acontece todos os dias do festival, com espaço para troca ou doação de roupas usadas. Todo o resíduo reciclável do evento tem coleta seletiva, gerando renda para 100 famílias da associação de catadores localizada na L4Sul: Apcorb. E o evento oferece ainda espaço para doação de lixo eletrônico.

A acessibilidade não fica de fora: intérpretes de libras narram os shows e conferências, o evento disponibiliza espaço adequado para cadeirantes e pessoas com mobilidade limitada.

Latinidades é realizado pela Griô Produções e Instituto Afro Latinas, em parceria com a ONU, Organização das Nações Unidas e patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

Em oito edições, o Festival Latinidades acumula público de cerca de 200 mil pessoas e mantém como objetivo máximo a visibilidade das mulheres negras e sua representação digna em todos os espaços. Em 2016, mais uma vez, o festival visa este importante fortalecimento e valorização da história e cultura negra e suas manifestações tradicionais.

 

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Juliana Luna. Foto: Natalia Giacomello.

 

SERVIÇO

9ª edição Festival Latinidades
Dias:

25 a 31 de julho de 2016 (segunda-feira à domingo)
Locais:
Cine Brasília (25/07, 19h)
EQS 106/107 – Asa Sul, Brasília – DF.

Museu Nacional
SCTS 2 – SHCS, Esplanada dos Ministérios, Brasília – DF.

Entrada gratuita
Site oficial: http://www.afrolatinas.com.br

Realização: Griô Produções e Instituto Afro Latinas
Parceria: Organização das Nações Unidas
Patrocínio: Fundo de Apoio à Cultura do DF/ Secretaria de Cultura.
Apoio: Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF

 

Programação Latinidades 2016

Dia 25 de julho, segunda-feira
19h – Sessão de Cinema no Cine Brasília.

Dia 26 de julho, terça-feira
17h30 – Terça Afro – Territórios de Afetos (debate)
19h30 – Mesa de abertura – Democratização da comunicação
Com Luciana Barreto (RJ), Juliana Cézar Nunes (DF), Valéria Almeida (SP) e, como debatedor, Dom Filó (RJ).

Dia 27 de julho, quarta-feira
10h – Mesa 01 – Vozes da perifa: comunicação insurgente; comunicação e resistência.
Com Thamyra Thâmara (RJ), Thabata Lorena (DF), Maíra Azevedo (BA) e, como debatedora, Priscila Rodrigues (RJ).
14h – Cine Afrolatinas
KBELA, de Yasmin Thayná (duração: 23 min)
DANDARAS: a força da mulher quilombola, de Ana Carolina Fernandes e Amaralina Fernandes (duração: 31 min).
15h – Mesa 02 – Estética como estratégia política
Com Denise Ferreira da Costa Cruz (DF), Aretha Sadick (SP), Hendi Pontiac (África do Sul) e, como debatedora, Djamila Ribeiro (SP).
17h – Oficina – Terapia Escrita – Mulher Negra: do Substantivo ao Subjetivo
Com Jarid Arraes
17h – Oficina – Pajelanças Mocambólicas de Comunicação – Sistema Baobáxia
Com Casa de Cultura Tainã, Ocupação Cultural Mercado Sul Vive! e Rede Mocambos – com a presença de Mestre TC

Dia 28 de julho, quinta-feira
10h – Mesa 03 – Nós por nós: mídias negras em ação
Ana Flávia Magalhães Pinto (SP), Larissa Santiago (BA), Sueli Carneiro (SP) e, como debatedora, Angelica Basthi (RJ)
14h – Cine Afrolatinas
NEGROS: A docu-series about Latino identity (Uma docu-série sobre a identidade de Latinos/as), de Dash Harris (duração: 32 minutos)
15h – Mesa 04 – Arte e protesto
Renata Felinto (SP), Eliane Dias (SP), Jarid Arraes (SP) e, como debatedora: Sueide Kintê (BA)
17h – Oficina – Print: Materializando zines
Por: Bianca Novais e Flora Egécia (Estúdio Cajuína)

Dia 29 de julho, sexta-feira
10h – Mesa 05 – Educomunicação e combate ao racismo
Jean Yves Bassangna (Camarões), Denise Teófilo (SP), Sátira Pereira Machado (RS)
Debatedora: Fernanda Luiza Duarte (DF)
14h – Cine Afrolatinas
Jornalista Preta de gênero e cor, de Mariana Alves Tavares (duração: 26 min)
A escrita do seu corpo, de Camila de Morais (duração: 14 min)
Òrun Àiyé: a criação do mundo, de Cintia Maria e Jamile Coelho. (duração: 12 min)
15h – Mesa 06 – Inventividades e afroempreendedorismo
Kizzy Fernanda Terra Ferreira dos Reis (RJ), Monique Evelle (BA), Silvana Bahia (RJ).
Debatedora: Adriana Barbosa (SP).
17h – Oficina – Oficina de Cordel
Com Jarid Arraes
19h30 – Conferência – Kimberlé Crenshaw (EUA)
Debatedora: Jurema Werneck (RJ)
22h – Festa Latinidades (único evento com ingresso pago no Festival)
com Tati Quebra Barraco.

Dia 30 de julho, sábado
11h às 21h – Feira Latinidades
10h às 17h – Espaço Infantil
14h – Espaço Infantil: Erês! Roda de conversa infanto-juvenil
Gustavo Gomes (SP), MC Soffia (SP), Pedro Henrique Cortês (SP) e Renata Morais (RJ)
15h30 às 17h – Oficina – Confecção e customização de fantasias infantis
Com Ednilson Catanhede, Renata Morais e Elis Catanhede (RJ)
16h às 17h – Oficina – Turbantes
Com Juliana Yemisi Luna (SP)

Shows Latinidades
(área externa do Museu Nacional)
19h30 – Arielly
20h10 – Donas da Rima (DF)
20h50 – MC Soffia (SP)
21h30 – Beth D’Oxum e Coco de Umbigada
22h20 – Rico Dalasam
23h10 – Dream Team do Passinho (RJ)
00h – Okwei V Odili (Nigéria)
01h – Hope Clayburn (EUA)

Dia 31 de julho, domingo
11h às 21h – Feira Latinidades
14h às 15h30 – Slam A CoisaTá Preta! (batalha de poesia)
Com Tati Nascimento e Meimei Bastos (DF)
14h às 17h – Espaço Literário
14h30 às 16h – Oficina – Maquiagem para pele negra – Projeto Negras do Brasil
Com DaMata Makeup (SP)
15h às 18h – Espaço Infantil: Bailinho à fantasia
Com Crespinhos SA (RJ)
14h às 20h30 – Oficina – Vivência de Percussão, Dança, Canto e História Tradicionais da cultura Yorùbá
Com Ìdòwú Akínrúlí (Nigéria)
14h às 17h – Parte I – Percussão
17h30 às 20h30 – Parte II – Dança

Sobre o Festival Latinidades

Latinidades, o Festival da mulher afro-latino-americana e caribenha, promove e celebra a cultura negra produzida na África e na diáspora, com foco na América Latina e Caribe.

O projeto foi criado em 2008 e nasceu com intuito de celebrar o Dia da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha (25/07), abrindo espaço para debater assuntos e iniciativas relacionadas à igualdade racial e enfrentamento ao racismo e sexismo. Hoje é o maior festival de mulheres negras da América Latina, cumprindo um papel de grande importância para a visibilidade dos temas relacionados à pauta de gênero e raça.

O Latinidades agrega, desde sua primeira edição, debates, oficinas, rodas de conversa, shows musicais, intervenções poéticas e teatrais, literatura, moda, culinária, feira de afro-negócios, artes visuais e cinema. De 2008 a 2015, o festival recebeu aproximadamente 200 mil pessoas, realizou mais de 100 apresentações culturais, entre shows, performances, saraus, desfiles, exibição de filmes, lançamentos literários, entre outros. Ofereceu 150 atividades formativas, entre palestras, conferências, oficinas e debates, que além do Distrito Federal acontecerem também em São Paulo, Cabo Verde e Cuba.

O evento desenvolve diálogos importantes com o poder público, organizações não-governamentais, movimentos sociais e culturais, universidades, redes, coletivos e outros grupos.

Contatos:

http://www.afrolatinas.com.br
https://www.facebook.com/Festivallatinidades/
https://www.instagram.com/afrolatinas
https://twitter.com/Latinidades2016

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.