Sem medo
“O surfista mais corajoso que já existiu”. Era assim que Greg “Da Bull” Noll, ele mesmo considerado por muita gente o mais destemido dos surfistas, se referia a Jose Angel. Expoente entre um grupo de tomados que entrou para a história por suas performances pioneiras em Waimea, Greg realmente botava pra baixo nas maiores. A diferença é que Noll não chegava ao meio do drop e saltava da prancha em direção ao abismo, dando um mortal de costas antes de ser completamente atropelado pela montanha d’água. Isso só quem fazia era Jose Angel. Para depois reaparecer das profundezas da baía, com um enorme sorriso na cara, o homem mais feliz do mundo.
Nativo de São Francisco, na Califórnia, onde aprendeu a surfar, em 1955, aos 21 anos de idade, ele mudou para o Hawaii acompanhando sua futura esposa, também surfista e, naquele tempo, inclusive mais habilidosa que ele sobre uma prancha. Morando em Haleiwa, a porta de entrada para o North Shore, onde lecionava na escola local – a qual viria a dirigir anos mais tarde – o goofy footer Angel se tornou um fissurado por ondas grandes e evoluiu com uma rapidez impressionante. Apenas cinco anos após seu desembarque em Oahu, ele entrou para a história do esporte ao estrelar a capa de estréia da revista Surfer, em 1960, dropando uma onda enorme em Sunset.
Também exímio mergulhador, era capaz de descer no peito a quase 300 pés de profundidade, o que permitia que complementasse sua renda retirando o valioso coral negro do fundo do mar. Mas foi justamente em uma dessas empreitadas, em julho de 1976, aos 41 anos de idade, que Jose Angel desapareceria para sempre. Dois anos antes ele já havia se acidentado num mergulho próximo a ilha de Kauai, quando retornou à superfície rápido demais, não respeitando o tempo mínimo necessário para descompressão. O erro permitiu a entrada de nitrogênio no sangue, o que resultou numa paralisia parcial de sua perna direita e conseqüente diminuição de sua capacidade para surfar.
Abalado por sua condição física restritiva e enfrentando problemas familiares após a morte de sua mãe e fiasco de seu segundo casamento, Angel nunca mais foi o mesmo sujeito simpático e alegre, admirado e querido por todos. Tendo Rick Grigg, outro grande nome do surf de ondas grandes, como parceiro, ele foi mergulhar num lugar conhecido como Cordilheira dos Tubarões, na costa de Maui, onde passou dos 300 pés de profundidade para não mais voltar. Grigg acredita que Angel enganou-se no cálculo da profundidade e apagou lá embaixo. Já a família pensa diferente. Para Shelly Angel o pai “nunca iria envelhecer graciosamente”, e acrescenta, “ele precisava ir embora de uma maneira estrondosa”. Se foi acidente ou suicídio nunca ficou esclarecido, mas Jose Angel continuou vivo na memória de seus parceiros de ondas grandes, como Eddie Aikau e Peter Cole, que organizaram em sua homenagem uma emocionante cerimônia em Waimea. Após orarem por Angel na areia, seus amigos remaram suas pranchas para o outside e formaram um círculo no lugar onde ele costumava surfar. De mãos dadas, lembraram seus feitos e os bons momentos juntos, para depois jogarem no centro do círculo colares floridos.
