“Na segunda-feira de 20 de abril, após mais um ‘swell do século’, que bombou principalmente no sábado, dia 18, transformando Maresias num turbulento lago de espuma quebrando 12 pés plus, encontrei na praia com o meu amigo Oswaldo Pepe. A social na praia estava relativamente escassa. As imagens e seqüelas de quem surfou ou de quem apenas observou aquele swell boiavam ainda frescas nas retinas”, escreve Sidão Tenucci em sua coluna Soul Surf.
Lendo o Zé Luiz Romeo já sabia que ia bombar! Eram três ciclones se juntando, o terceiro – o mais violento, entrando na madrugada de sexta para sábado de Páscoa. Não vai ter areia nas praias Pepe…
Excitação total! Na quinta, o Zé Paulo, a Adriana e sua princezinha Yasmin vieram jantar no barraco de Maresias. Foi uma sorte mútua.
Explico, o Zé – um dos meus melhores professores de Surf – me falou longamente do que deveria acontecer e como deveria proceder para entrar neste swell, na Baleia, o point mais provável na remada. Diz, nestas raras ocasiões a correnteza muda, vem muito forte de Sul; muito. Assim não entre pelo canal junto as pedras, pois ou você será jogado nelas ou será bombado para o outside.
Entre mais pelo meio, na altura da escolinha (da Billabong, dirigida por ele) já dá, fique atento para usar a correnteza para varar a arrebentação sem deixar que ela te empurre muito para o canto esquerdo. Vá assim até a metade, entre o inside e o outside e daí saia da correnteza o mais rápido que der remando para o Sul, para o centro da praia. Daí voce pode ir sossegado para o outside que a correnteza não te pega mais. Ou pega pouco…
Durma cedo, se prepare mentalmente, concentre bem e entre no máximo até as nove, depois vai ficar cabeludo. Excitação. Total. Mas não foi só. Tem aquilo do prazer mútuo.
Há algum tempo atrás um querido, mas muito pouco profissional, tow-surfer, deu o que chamou de curso de tow-in. Uma bobageira, só perdi tempo e dinheiro, mas aproveitei a oportunidade desperdiçada para comprar uma Pat Rawson maravilhosa da coleção do Jorge Pacceli – que fez questão de montar as melhores quilhas que tinha, arrumar na medida os suportes para meus pés goofies e ainda se dispôs a me dar algumas aulas, na boa.
Adivinharam? O Zé babou na prancha e como ainda não tive oportunidade de usá-la (e já tinha outra, uma balsa do Dick Brewer, risos, que cara de sorte…) não tive como não emprestar-lhe. Valendo inclusive para o mês que iria passar no Tahiti, comentando na transmissão via internet a etapa de Teahupoo para a Billabong, de quem é o coach no Brasil.
É um prazer enorme poder fazer qualquer coisa para o Zé. Para mim ele faz parte do encantamento, do espírito que me levou a conseguir pegar onda numa idade para lá de provecta. Lembro-me das condições mágicas de como o conheci. Quem curte surf de verdade vai gostar de ouvir.
No aprendizado fiquei pelo menos um ano, só remando em minha Rico 9.6 de três longarinas, revestida com tecido havaiano, que o próprio Rico me vendeu. Uma prancha maneiríssima que uso até hoje quando o Moreira está nervoso (quase sempre, risos).
Daí que neste dia, fui remar e pegar espuma na Baleia, mas como surfista iniciante, não sabia de nada, nem tinha rack para prender direito a prancha. Fim do dia, já meio escuro, não sabia direito o que fazer vejo sair de uma das vielas que dão para a praia, um carinha dirigindo um buggy para lá de Califórnia, puxando uma carretinha que deveria ter umas, sei lá, 15 pranchas.
Que cena! Pensei, nossa, olha o quiver do cara! Na simpatia, ele se aproximou, percebendo meu interesse. Comentei, quantas pranchas… Explicou que eram da escolinha que tinha ali. Ah… e daí veio o estalo: olha, posso deixar minha prancha com você? Não tenho direito como levar e vou voltar para surfar amanhã, tudo bem para você, levar ela?
Quem conhece o Zé já sabe a resposta. Não só levou como me convidou a dar na sequência uma passadinha na casa dele, ali, no Camburi. Aceitei, e foi assim que não só fiquei amigo de uma figura muito especial do esporte como também ganhei a amizade de sua linda esposa e ainda por cima pisei pela primeira vez em uma casinha de surfista de verdade, como aquelas tantas que tinha visto nas revistas e nos filmes, mas que francamente não imaginava ver tão real e verdadeira aqui no Brasil. The real thing, o espírito do esporte!
As minhas histórias com o Zé não param aí, mas ficam para uma outra vez. Agora estamos no sábado de manhã, chegando na Baleia, oito e meia da manhã. Um tititi danado. Ambulância saindo da viela com muita gente dentro, afogados, surfistas, pedras, resgates, aquele clima.
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Como não sou de enfrentar o mar, sempre espero que me aceite – ou não, não fiquei com medo. Mas a adrena bombava solta.
Foi tudo como o Zé falou. Entrei pela escolinha, a correnteza me ajudou a varar, no meio virei para o Sul e tomando na cabeça legal, finalmente, cheguei no último dos outsides – é, porque quando fica assim, tem vários…
Clima pesado, uns poucos surfistas, dez, doze. Nenhum iniciante, só gente experimentada, todo mundo sério, focado no que o mar fazia. A praia, lá longe, um traço. O balanço. O espetáculo, sempre me fascina. Lembro de um dia gigante no Moreira, consegui varar as morras e dei de cara com o Joãozinho Simonsen, numa pranchinha, sei lá, 5’9″, 6’0″.
E aí Pepe, veio ver de camarote? Vim, é isso aí, não tinha categoria para dropar aquele mar. Mas ainda assim entrei para ver de dentro. Voltar, bem, depois a gente vê…
De repente o mar dá uma abaixada, no conjunto, tudo. Ato seguinte se forma um paredão mais no outside ainda. De ponta a ponta da praia, um paredão, desses de tenis, um pouco maior, já espumando no lip. Todo mundo remando no desespero, pois não é só passar esta, é passar a série que está entrando.
A sorte é que quando está grande assim, entra gigante, estoura e logo se desfaz. É difícil encontrar o ponto no qual a parede de fato se forma e permite o drop e o glide. E geralmente este ponto é crítico, é lá e em nenhum outro lugar.
Bem, depois de uns 40 minutos me aclimatando, comecei a achar que dava para pegar alguma coisa. Quem estava lá ficava torcendo quando alguém iniciava a remada para tentar o drop, mas sensação é que a vitória era de todos.
Finalmente, comecei a ‘perder o respeito e a remar nas morras’. Algumas peguei, dava aquela descidinha e já saia, não sou louco de entrar no inside insano.
O esprit de corps dos que estavam lá é de impressionar; a sensação de participar de uma tribo como estas é para mim o que há de melhor, nada se compara, quem surfa sabe do que estou falando, é muito bom, lava a alma e dá aquela sensação de que nós não estamos devendo nada para ninguém, que o nosso destino nós, no respeito e acolhida das ondas, fazemos sozinhos.
Faltava pegar aquela morra que iria me levar até a areia, ou pelo menos, bem perto dela. Mas antes, lembrei de José Angel, quem conhece lembra, um surfista das antigas, havaiano; sabe o que o maluco fazia? Para saber como seria tomar um caldo, se colocava consciente na posição para tomar um. Assim, dizia, quando tomar um caldo, já sei o que vai ser.
Este é o mal de quem leu demais as histórias do surf. Voce acha inspiração nelas, não se manca que não é havaiano nem nada e tenta repetir a história, como uma homenagem que todos os surfistas de verdade prestam para seus legends.
Taqui o velhinho se imaginando em Sunset ou melhor, em Makaha, em um swell épico. Me llamo Angel, José Angel! Veio a bomba e eu bem embaixo do lip. Pensei, agora vai ser um tempão, se prepara, relaxa e espera passar.
Olha, não foi tudo isto, não foi nem como os piores caldos que tomei no Moreira. Foi até meio que maneiro. O problema foi a prancha, que foi puxada muito para além, falei, vai quebrar o leash, vou ficar sem prancha e neste mar, não consigo voltar nadando para a praia, quem mandou seu mané!
A cordinha esticando, esticando e eu já vendo a coisa estourar, ah que chato, que otário, essas lá são horas de bancar o havaiano, de honrar os legends seu prego?
Mas não quebrou! voltou speed direto na minha cara (desviei) mas não rompeu, ah sorte divina! deuses do surf, obrigado. Daí veio uma, depois outra e finalmente encaixei uma direitaça (sou goofy, lembram?), que foi acelerando e emendando em cada um dos vários insides. Eu vinha pulando, super bumpy, olhava para os lados e a um metrinho atrás de mim tava aquele morro de água espumando, babando feroz. Pensei, cair aqui, aí, tou perdido, vai ser um caldaço, socorro.
Mas não cai e fui direto até o que restava de areia, quase na viela em que tinha entrado. Senti as quilhas raspando no chão e sai de lado, andando, daquele marzão.
Enrolei o leash como se fosse um dia qualquer, tranquilo, só faltou assobiar. Pus a prancha debaixo do braço e comecei a andar.
Mas não deu. Comecou com um sorriso, de satisfação, de alegria, de gratidão ao mar e a todos os meus amigos do surf e aos livros, as imagens, a história linda deste esporte. Logo era uma risada, em seguida um cacacá e daí gargalhada mesmo, sozinho, como um maluco, ri tanto que cai no chão, as pernas bambas, fiquei lá, um ataque, não conseguia parar.
Com muito esforço me controlei para chegar até o carro. Nem olhava para as pessoas, de vergonha. E morria de rir em seguida. É o surf…

