Faltavam exatos sete minutos e trinta segundos para o término da bateria, enquanto Mineirinho dropava aquela direita. A cada movimento de explosão, o sino chegava mais perto de suas mãos novamente. A onda acabou ao som de coros de torcida em seu favor.
Passado o tempo de aflição, veio a nota. O empate técnico entre as somatórias significava que o título era de Fanning, autor da melhor nota individual. Até o último segundo, Mineirinho focou, remou e acreditou, mas o sino escorregou de suas mãos.
Polêmicas à parte, com a segunda colocação em Bells Beach, o guerreiro segue no top 3 do ranking do CT e apresenta um dos melhores começos de ano de sua carreira. Tudo isso justamente quando completa dez anos na elite, período em que não fez questão de esconder de ninguém seu maior sonho: ser campeão mundial de surf. E, no ano passado, não fossem pelas lesões, teria grandes chances de estar na briga pelo título.
Recuperado para competir, mais experiente e ainda jovem, Mineirinho parece cada vez mais capacitado a alcançar e destruir suas metas. Enquanto o guerreiro da HD se prepara para competir na onda de Margaret River, terceira etapa do WCT 2015, a equipe da marca trocou uma ideia com ele sobre o momento que vive. Confira a entrevista.
HD: Dá pra dizer que 2014 foi um ano difícil pra você, muito prejudicado por lesões. Em 2015, a gente tá vendo um Mineirinho no seu 100%. A preparação para esse ano foi só técnica ou houve também uma mudança de mentalidade? O que mudou em relação aos últimos 10 anos?
Adriano de Souza: Bom, com certeza, 2014 pra mim foi muito difícil. E foi bem claro… Ano passado não consegui brigar pelo título mundial pelas lesões que eu tive, mas foi um dos melhores anos da minha carreira, de consistência, e consegui ir bem em praticamente todos os campeonatos que competi. Agora em 2015, se Deus quiser, eu continuo com esse mesmo ritmo do ano passado e espero não me lesionar daqui pra frente para que tenha chances reais de um título mundial no fim do ano. Não teve nenhuma mudança, mas sim muito trabalho para manter esse ritmo. Sei que é muito ‘punk’, porque tem muitos atletas bons no tour este ano. E eu ter bons resultados, com certeza, me faz ficar cada vez mais motivado.
HD: Nas duas primeiras etapas, você foi um dos surfistas que mais ficou marcado pela agressividade nas manobras, característica sua que não é de agora. Qual é a importância de ser destaque no power, enquanto outros surfistas procuram cada vez mais se enquadrar num padrão de surf moderno?
Adriano: Ah! Acho que cada um tem uma personalidade e cada um pode ser criativo de um lado. Eu estou tentando cada vez mais ter esse surf mais agressivo e mais power. Quanto mais pra mim é melhor e é o que eu estou buscando. Enquanto isso, outros atletas estão buscando a modernidade. Então, é claro que eu também corro atrás disso para tentar melhorar um pouco esse meu estilo, mas com certeza o meu foco mesmo é sempre melhorar o power.
HD: Quando a final em Bells foi definida, entre você e Mick Fanning, pelas características técnicas de vocês, todo mundo acreditava que seria uma batalha de power surf e que dificilmente os dois tirariam as pranchas da água e arriscariam manobras como o aéreo. No fim das contas, foi exatamente o que aconteceu e os dois acabaram com a mesma nota na somatória. Qual é a sua leitura desse empate?
Adriano: Bom… eu sou profissional do surf, né? Não sou juiz, mas tenho uma boa visão pelo fato de saber como surfar a onda de Bells e ter uma boa leitura. Acho que, todos esses anos em que eu estou indo para Bells, investi muito minha carreira por lá. Por isso, tenho bons frutos. E é um lugar também que eu mesinto muito bem. O Fanning já venceu quatro vezes! É o cara a ser batido lá. E eu fico amarradão de estar surfando de igual para igual com um três vezes campeão do mundo. O cara já ganhou tantas vezes lá… Então, ter feito essa final e, pela primeira vez na história, ter dado um empate técnico, quer dizer que eu estou no caminho certo e é isso que eu procuro.
HD: O Mick Fanning está na elite desde 2002 e é referência certa para qualquer jovem australiano que tem como meta competir no CT, assim como você para os brasileiros. Como você vê essa rivalidade competitiva quando ocorre uma bateria entre vocês?
Adriano: Bom, com certeza, o Fanning é referência na Austrália como hoje é o Gabriel para o Brasil. Então são grandes surfistas, têm uma imagem muito boa, são competidores muito fortes e, com certeza, eles são referências. É o que me faz acordar cedo todo dia para treinar e continuar na pegada, porque eu sei o quanto eles são fortes e, para derrotá-los, tem que fazer o máximo do seu máximo. Então, é o que eu sempre corro atrás.
HD: A próxima etapa é Margaret River. No ano passado, você foi até o round 5, na bateria contra Michel Bourez, que vinha muito bem e acabou campeão do evento. Gostaríamos que você fizesse uma análise da onda de lá e falasse um pouco sobre o que dá pra tirar de positivo e negativo da etapa de 2014.
Adriano: Ano passado deu altas ondas. A gente teve a sorte de ter o evento em The Box, mas eu estava vindo muito bem na onda do Main Break. Quando transferiu o campeonato, eu acabei perdendo para o campeão da etapa. Então, o bom que eu tive do ano passado foi o aprendizado. Foi o primeiro ano que foi CT lá, sempre foi QS. Esse ano, consigo ver que eu tenho um pouco mais de experiência e espero tirar um bom resultado aqui em Margaret e chegar no Brasil forte.
HD: No ano passado, a realização das baterias do round 5 em The Box pegou de surpresa muitos surfistas que não tinham muita experiência na onda. Já caras mais pirados e experientes, como Kelly Slater, ficaram felizes de ver a etapa pegando fogo. Como você vê o grau de dificuldade da onda e a possibilidade de ter que competir nela?
Adriano: Eu não tenho problema nenhum com essas mudanças e tal, mas, realmente, foi que a bateria pegou fogo. O Michel se deu melhor e foi campeão. Eu tinha treinado antes essa onda. Durante o campeonato mesmo, deixei de fazer uns treinos no Main Break para tentar me aprimorar ainda mais e ter mais conhecimento da onda, mas, infelizmente, Michel foi melhor do que eu. Agora, se rolar novamente, acho que eu tenho grandes chances de me dar bem.
HD: Esse ano, o surf brasileiro alcançou seu auge até agora, com 7 atletas na elite apresentando potencial para competir de igual para igual contra qualquer surfista e em diferentes ondas. Na sua opinião, em que momento começou essa evolução do surf no país e que fatores contribuíram para chegarmos ao nível que se vê hoje?
Adriano: Eu acho que, quando surgiu o Gabriel, com certeza, as coisas evoluíram muito em termos de infraestrutura. Isso trouxe vários segmentos novos para o surf brasileiro, trazendo muita expectativa. Eu já estava na guerra também, faz uns cinco, seis anos tentando. Só que eu não consegui chegar nem perto, pelas conquistas que ele teve logo no início de sua carreira. Acho que, com tudo isso, o surf evoluiu bastante. Muitos investimentos entraram após a vinda dele. Isso ajudou muitos atletas. Com isso, nosso surf deu uma certa crescida. Acho que, hoje, com certeza, o surf brasileiro está vivendo o auge.
HD: A gente vê nos brasileiros um diferencial de união em relação a surfistas de outros países. Qual é a importância do Brazilian Storm como time, sempre se apoiando e se dando força durante o circuito?
Adriano: Acho que esse time tem tudo para crescer ainda mais, com novos atletas, com a galera que está lutando no WQS. Quanto mais, melhor… mas acho que essa união vem muito da base da amizade também. Acho que todo o mundo tem uma boa amizade um com o outro. O fato de a gente torcer um pelo outro nos fortalece ainda mais. É claro que é um esporte individual, mas, no geral, é o Brasil que está dentro da água. Espero continuar vendo essa união cada vez mais forte. Acho que essa união faz uma grande força.
HD: Esse foi o seu melhor começo nos últimos anos de WCT, com uma segunda e terceira colocação nas primeiras etapas. Com isso, você se mantém no top 3, a apenas 700 pontos de Toledo e Fanning. Qual é a importância desse momento para a sua carreira e qual é a meta para as próximas etapas?
Adriano: Com certeza, esse é meu melhor início de temporada, mas o caminho é muito longo. Têm muita coisa pela frente. Não estou muito preocupado com quem está na minha frente ou não. Só estou preocupado em fazer meu surf, conseguir estar 100% na etapa e tentar mostrar o máximo que eu posso. Margaret vai ser meu próximo evento e eu vou pra cima. Pode ter certeza que eu vou tentar fazer meu melhor para sair daqui de cabeça erguida, que o próximo evento será o Brasil, em casa.
HD: Para terminar, a gente vê o quanto o exemplo que Ricardinho dos Santos deixou como surfista e como pessoa tem sido seu principal incentivo e lhe motivado a apresentar o melhor da sua performance. Que valores deu pra tirar da amizade entre vocês e que sentimento é esse que vem te dando tanta força?
Adriano: Bom, a gente tinha uma amizade muito legal. Eu respeitava muito ele. Era um cara que fazia muita diferença quando o mar subia e, aí, virava uma influência muito forte. Estou quase morando em Floripa e a gente tinha nossos planos de surfar juntos, pegar onda juntos, mas uma fatalidade aconteceu e ele se foi mais cedo. Então, para mim, é uma honra defender o nome dele aqui na Terra. Agora, eu tenho um amigo lá em cima e eu, com certeza, estou precisando dele sempre. A gente sempre teve uma amizade bem legal. A namorada do Ricardo é muito amiga da minha mulher. Então, a gente era bem próximo. É isso… Eu perdi um amigo e ele está mais vivo do que nunca, dentro da gente. As pessoas que ele gosta, com certeza, sentem isso também.
Já deu pra ter uma ideia do que está por vir nas próximas etapas? O fato é que a combinação especial entre foco, power surf e amizade com a qual Mineirinho vem trabalhando tem tudo para conquistar grandes vitórias.
O Margaret River Pro nesta terça-feira, às 20 horas (horário de Brasília). Na primeira bateria, Adriano de Souza enfrenta Sebastian Zietz e CJ Hobgood. Fique ligado nas novidades e mande suas vibrações positivas para Mineirinho pelas redes sociais da HD, Facebook e Instagram.
Créditos: Marcelo Silva Pizolotto / HD. Assessoria de Imprensa: Monica Rentroia