No entardecer do dia 6 de abril de 2012, o waterman norte-americano do Oregon, Bobby Gomez, solteiro, 36 anos, morador de Uluwatu, Bali, entrou no jardim de casa. Estava 4 metros sólidos.
O que seria um dia histórico para qualquer mortal – com direito à magia das lendas -, para ele parecia um evento comum. Bobby pegou uma prancha 7’2” toda empoeirada que nunca tinha visto, abandonada há anos na casa de um amigo balinês e, com seus 1,70 de altura, foi para a água com a habitual despretensão.
Bobby é um dos melhores praticantes de stand-up paddle cruising do mundo. Entre suas aventuras conhecidas destacam-se a recente volta na ilha de Bali em apenas dez dias, e, no ano passado a remada de SUP de Bali até o norte de Java em três meses: “Eu normalmente trago uma prancha de surf comigo, assim, se eu encontrar um pico de surf inédito, posso surfá-lo”.
Bobby se define como católico, e diz que “no oceano eu sinto o Espírito Santo mais perto. Passo muito tempo em oração enquanto estou remando”. Pelo o que pude sentir das suas respostas, ele não se compraz simplesmente com os feitos atléticos solitários que pouquíssimas pessoas nesse planetinha teriam a coragem ou a vontade de realizar.
Perguntado sobre o que lhe dava mais prazer, respondeu: “Enquanto eu remava nas ilhas Maluku Norte em dezembro passado, numa pequena ilha só acessível pela água, encontrei uma garotinha com um grave defeito congênito, de nascença, nos pés. Disse à família que tentaria ajudá-la conseguir um tratamento, e, desde então, levantei dinheiro para que ela fosse atendida por um médico competente em Jakarka. A sua primeira consulta vai ser nessa sexta! Eu me sinto muito bem por ter feito isso”.
“Quem é ele?”, perguntei ao nosso amigo em comum, Marcos Perez, que além de me sugerir a pauta, é também adepto e mestre em SUP o suficiente para poder apreciar o talento de Mr. Gomez. Morador da ilha de longa data, Perez me escreveu, entusiasmado em relação ao mais novo feito do seu ‘SUP buddy’:
“O Bobby chegou hoje em Jimbaram remando em sua prancha de SUP depois de dar a volta na ilha de Bali em apenas dez dias… loucura total! Ele é “o cara”! Um real waterman…”. “Só” isso, Perez? Mas como é ele como pessoa? “Bobby é um cara quieto e muito educado… um gentleman na água”, respondeu, com indisfarçada admiração. “Zen ao extremo, um dos caras mais mellow que já conheci. Na dele total. É realmente o cara”.
Perguntei ao próprio Bobby qual foi a situação mais perigosa em que esteve metido enquanto cruzando os mares: “No ano passado eu remei de Bali até Java Central, e o trecho mais amedrontador foi entrar em G-Land. Demorou muito mais do que eu esperava para alcançar a entrada oriental da Baía de Grajagan. Tive que acampar no meio da selva a meio caminho da península. Uma enorme tempestade caiu naquela noite. Acabou a minha comida e eu estava completamente exausto quando finalmente alcancei G-Land, mas quando cheguei na entrada da baía havia uma forte corrente saindo, o que tornava muito difícil penetrar. Tive que remar muito perto de algumas ondas enormes e fora de controle para que me ajudassem e me empurrassem para dentro da baía. Quando finalmente consegui, simplesmente desmaiei na praia de exaustão e prazer por ter conseguido!”
Como defini-lo? Big-rider? Mais um aventureiro que quis buscar as respostas da vida na religião, nos desafios com a natureza, colocando a própria vida em perigo em lugares exóticos? Um solitário compulsivo? Um dos maiores SUP cruisers do mundo? Um cara que fica feliz fazendo os outros felizes? Soa ideal demais.
Mas o ideal às vezes é não só possível como verdadeiro. Não tive como encontrar pessoalmente com o personagem para tentar “humanizá-lo”, detectando eventuais falhas de caráter ou um comportamento secreto, quem sabe vexaminoso; ou traumas de infância camuflados que eu poderia tentar trazer á tona, para torná-lo mais compreensível para mim, circunscrito na armadura dos meus conceitos. É o que todos esperam de todos, certo? Que não só tenhamos um lado, digamos, doentio, mas que possamos expô-lo ao amável público. Mas para quê?
Por enquanto e para todos os efeitos, qualidades e defeitos, Bobby Gomez é uma pessoa que, além de ter como meta fazer o bem aos “menos afortunados do que eu”, como diz, fez da sua vida o mar, e nele se insere com a coragem dos que sintonizam a FM Oceano com naturalidade. Pude perceber que possui a adaptabilidade dos anfíbios, para quem molhar ou secar as guelras na prancha de surf ou no SUP é mera questão da vontade do momento, confirmando e dando fluido seguimento ao que se é.
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP (Ocean Pacific) e escritor, com dois livros publicados: Almaquatica (Fnac) e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro, o Poentes de Amor – 70 poemas ilustrados por 55 artistas plásticos, será lançado no próximo mês. Viajou 52 países e surfou em alguns deles.
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