São Paulo

90 juízes capacitados

Evento capacita 90 juízes e recebe alguns dos principais nomes do surfe brasileiro em rodas de conversas e palestras.
Forum Paulista de Surf

Com o surfe brasileiro conquistando o lugar mais alto do pódio em campeonatos ao redor do mundo, o esporte vive uma fase de crescimento e qualificação. Na primeira edição, o Fórum Paulista de Surf encerrou os três dias de evento com a formação profissional de 90 juízes de diversos estados, que agora vão colaborar com o desenvolvimento do esporte nos campeonatos pelo país. Durante o encontro, participantes e convidados ressaltaram a importância da profissionalização e evolução do esporte.

“Os participantes foram indicados por associações e federações de surf de diversos estados brasileiros. Ao todo, foram 90 novos juízes que, a partir de agora, estão capacitados e à disposição para participar do quadro dos quase 30 campeonatos que estimamos que ocorram todo final de semana pelo país. Contar com este tipo de qualificação é essencial na formação de novos campeões, uma vez que profissionaliza muito a parte técnica do surfe no Brasil”, comemora Marco Ferragina, um dos idealizadores do projeto.

O diretor técnico da Confederação Brasileira de Surf e presidente da Associação Santos de Surf, Marco Rabellé, explicou que o evento vai ajudar a fortalecer o esporte. “Essa aglutinação de conhecimento é muito positiva para o surf brasileiro como um todo e não é toda hora que a gente consegue realizar este tipo de curso. Por isso mesmo, traz um engrandecimento para quem pratica o esporte e para os diversos setores que envolvem o surfe”, comenta.

São Paulo: a capital não-litorânea do surfe

O evento, realizado na câmara municipal de São Paulo, recebeu o apoio do vereador George Hato, que ressaltou a importância do investimento no desenvolvimento do esporte na capital paulista, que não conta com praias. “São Paulo é a cidade não litorânea com a maior quantidade de surfistas do mundo. Por isso, abrir as portas da câmara municipal para os surfistas é uma grande honra. Hoje, recebemos esportistas, palestrantes, árbitros, pessoas que fomentam o esporte, com o intuito de ouvir as demandas, conversar e ver no que conseguimos colaborar”, ressaltou.

Para o coordenador geral do curso “ISA – Juiz Nível 1” e árbitro chefe da ISA, WSL South America e CBSurf, Sérgio Gadelha, o envolvimento do poder legislativo é essencial para o futuro do surfe. “Essa iniciativa possibilitou que, pela primeira vez na história, pudéssemos formar um número grande de árbitros”, comenta. Ao todo, foram disponibilizadas 50 vagas presenciais e 40 vagas online para possibilitar a participação de profissionais de todo Brasil.

A própria International Surfing Association (ISA) ficou impressionada com a quantidade de árbitros que foram formados durante o evento, em seu discurso na abertura do evento, Alex Reynolds (Diretor de Parcerias ISA) e Erik Krammer (Diretor Tecnico ISA), confirmaram que se tratava do “maior evento de capacitação de árbitros de surfe não apenas no Brasil, mas na história do surfe mundial”.

Na prática, os participantes saíram das aulas com uma base sólida e atualizada para fazer justiça na hora de julgar as manobras no mar. “O curso foi muito construtivo para uma carreira de arbitragem, com uma total atenção dos palestrantes envolvidos. Conversado de forma clara, os novos critérios do mundo do surfe, a variedade de manobras, regras e a cobrança desejada nas competições entre cada categoria – surfe, supwave, longboard, bodyboard e surfe adaptado”, apontou Luiz Gustavo Araújo Carneiro Ferreira, árbitro da Associação de Surf de Itacaré, na Bahia, um dos participantes da formação.

Informação e debates sobre o esporte

No último dia de evento, o Fórum recebeu importantes nomes do esporte para trocar experiências e responder perguntas do público. Evandro Abreu, criador da case Super Surf, iniciou a programação com uma aula sobre o “Mercado e Patrocínio Esportivo”. A palestra evidenciou a relação entre o surf e a educação, mostrando a importância de atrair investimentos e patrocínios que fortaleçam ainda mais projetos nesse sentido.

Já para a mesa “Mídia e Jornalismo Especializado”, o evento recebeu um dos grandes nomes da área: o jornalista Bruno Bocayuva, que nasceu e cresceu “pegando onda”, e encontrou no jornalismo uma maneira de mostrar ao mundo a beleza do esporte. “Nos bastidores do surf com a mídia, desde campeonatos até os treinos, podemos resumir tudo em uma palavra: coletividade. O surfe no Brasil está crescendo para quebrar os estereótipos de que não é mais um esporte somente para elite, mas para todos”, conta.

No debate sobre o “Papel do treinador no desenvolvimento de talentos”, o convidado Pedro Souza reafirmou que o talento não é feito do acaso. Assim, é necessário dedicação e um ambiente favorável para desenvolvimento da prática. “A periodicidade de campeonatos e treinos vai além da capacidade do treinador. De modo geral, o atleta precisa trabalhar para a capacitação física, exige treinamentos durante as viagens e cabe ao treinador estar preparado para saber o que pode ser entregue ao atleta”, detalha.

Já o também treinador Paulo Kid complementou as palavras do colega explicando que o treinador deve conhecer o tempo de cada um dos seus surfistas e qual campeonato deve incentivá-lo a fazer parte. “A minha transição de atleta para técnico se deu a partir da observação das técnicas que cada treinador utilizava para desenvolver os esportistas. A partir deste aprendizado, me envolvi com escolinhas de surf e acabei mudando de posto, foi algo de forma natural”.

Com o alto nível dos atletas, o bate-papo sobre “Preparação Física e Condicionamento para competições” contou com a experiência do especialista Marcus Vinicius, que deu dicas sobre como desenvolver a força e habilidade que o esporte exige. “O preparador físico tem que levar tudo em consideração, desde as características naturais do surfista até as estruturais, como o equipamento de surfe. Assim, a tarefa é trabalhar as características coordenativas e físicas dos esportes, ter um certo equilíbrio, e analisar as capacidades de cada atleta”, explicou.

Um dos idealizadores do primeiro trabalho científico sobre surfe, o professor e mestre em Educação Física, Flávio Ascânio, que analisou surfistas brasileiros comparando com o público geral não praticante do esporte, contou que os resultados comprovam que o surfe ajuda na parte cardiorrespiratória dos praticantes do esporte com grandes garantias à saúde a longo prazo – ou seja, surfar faz bem.

O desenvolvimento do surfe feminino

Finalizando o dia, o “Surf Feminino” foi tema de uma mesa redonda que contou com Deolanda Vaz, criadora da Associação Brasileira de Surf Feminino (ABSF). Mãe de surfista, a diretora identificou a necessidade de uma associação para as mulheres no Brasil e graças a essa iniciativa em 2001 realizaram o primeiro campeonato com divisão de categorias do Brasil, o ‘World Wave’, No entanto, a trajetória não foi fácil: “Falavam: quem é essa mulher? Quem ela pensa que é? Ela só é mãe de surfista. Mas, graças às meninas do surf eu não desisti e estamos com grandes planos para o surf feminino em 2023”, garante.

Já a fundadora da Associação de Surf Feminino (ASF), Ana Carolina Moura, contou que, apesar de recente e ainda sem verbas, o foco da organização é possibilitar que meninas da periferia tenham oportunidade no esporte. “Fizemos poucos eventos porque é difícil encontrar meninas que queiram começar agora, depois de anos de dificuldades. Por isso, tentamos buscar e chamar atenção das meninas para o surfe”, relata.

Nesse sentido, Debora Gesualdo, idealizadora do coletivo Longarinas, criou o grupo para, além de surfar, incentivar outras mulheres a buscarem o esporte. “Sinto essa dificuldade de ver meninas se inscreverem nos campeonatos e acho que envolve outras questões, como anseio e medo. Acredito que se juntarmos as meninas, podemos fazer volume na água, se ajudando, trocando experiências e dando voz às mulheres”, opina.

A fundadora da APGSF, Priscila Dias, contou sobre a realidade da Praia Grande, no litoral paulista. “Nós identificamos essa dificuldade de ter uma base sólida, muitas vezes por falta de patrocínio e incentivo familiar. Por isso, estamos com um projeto para 2023, uma ação de capacitação de novos talentos para ajudar e incentivar novas surfistas”, detalha.

Uma das principais vozes do surfe feminino no Ceará e criadora do Surf Lands, Joana Meirelles, conta que o grupo surgiu no WhatsApp cujo objetivo era combinar caronas e companhias de surfe. Contudo, o coletivo foi crescendo e se tornou um importante meio para o desenvolvimento do esporte, que ainda enfrenta resistência dos patrocinadores. “No começo ficamos um ano sem patrocínio para campeonatos regionais e após um acidente trágico envolvendo com uma das surfistas, houve a visibilidade dos órgãos públicos. Hoje, lutamos para que os patrocinadores nos vejam como iguais”, conta.

Entre outras participantes de diferentes organizações de surfe feminino que compartilharam depoimentos e projetos para o fortalecimento do esporte, a ex-atleta Alice Santos, que surfou durante 13 anos, ressaltou a importância do Fórum Paulista de Surf e da formação de mulheres juízas. Com isso, o evento chegou ao final com um horizonte de mais profissionalização e igualdade no esporte e a promessa de uma nova geração de campeões, consolidando uma tradição vitoriosa para o surf brasileiro. Destaque também para Nathália Nascimento, presidente da Associação de Surf da Grande São Paulo, entidade responsável pela realização do Circuito Municipal de Surf de São Paulo (conhecido como SP Contest) pelos últimos 20 anos.

Para finalizar a primeira edição do Fórum Paulista de Surf, subiram à tribuna o vereador George Hato e os secretários municipais de esporte das cidades de São Paulo (Cacá Vianna), Bertioga (Danilo Lerne) e Praia Grande (Rodrigo Santana “Rodrigão”). Todos enalteceram o papel do esporte na sociedade e agradeceram a presença de todos os surfistas presentes na Câmara Municipal de São Paulo.

O Fórum Paulista de Surf tem homologação da International Surfing Association – ISA, supervisão da Confederação Brasileira de Surf – CBSurf e idealização da Associação Santos de Surf (ASS), Associação Bertioguense de Surf (ABS), Associação de Surf da Grande São Paulo (ASGSP). A realização é da Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Esportes.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.