Descanse em Paz

Adeus, Hélio Fernandes

Waterman Hélio Fernandes sofre acidente enquanto surfava na Barra da Tijuca na segunda-feira (22) e deixa vazio na comunidade do surfe carioca.

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Hélio Fernandes, o “Bigode”, sempre o primeiro a chegar ao pico.

O mar da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, amanheceu com um brilho diferente e um vazio imensurável na última segunda-feira (22). Hélio Britto Sanches Fernandes, carinhosamente conhecido como Bigode, faleceu aos 68 anos fazendo exatamente o que pautou sua vida: surfando. A lenda do surfe carioca se despediu nas primeiras horas do dia em seu “quintal”, o Posto 3,5, deslizando sobre as ondas com a prancha que havia acabado de ganhar de presente dos amigos.

O acidente ocorreu em uma manhã de céu azul, sol, ondas pequenas e água ligeiramente fria. Hélio dividia o pico com um amigo quando, após surfarem uma onda em direções opostas, foi atingido pela própria prancha e desmaiou. Ao notar o desaparecimento do companheiro, o amigo retornou e o encontrou submerso, próximo ao equipamento.

O waterman foi retirado da água e socorrido pelo Corpo de Bombeiros, que o transportou ao hospital, mas ele infelizmente não resistiu. Hélio deixa um legado de amor ao oceano e uma lacuna irreparável na comunidade do surfe, onde era admirado por sua vitalidade e pela generosidade com que compartilhava o mar.

Uma vida dedicada ao oceano – Hélio não era apenas um surfista; era uma instituição da cultura de praia. Sua trajetória no esporte foi vasta e respeitada, cruzando fronteiras que iam do bodysurf em Pipeline e Sunset, no Havaí, às tradicionais esquerdas do Quebra-mar e as direitas do Pontão, picos do Rio de Janeiro.

Sua versatilidade era sua marca registrada. Fosse no pranchão ou na pranchinha, nos treinos rigorosos de waterpolo ou ensinando natação para centenas de alunos, Bigode sempre emanou uma postura que impunha respeito imediato, acompanhada de uma energia que contagiava até quem o observava de longe.

 

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O primeiro a entrar – Religiosamente, Hélio era o “sentinela” do mar. O primeiro a entrar na água, todos os dias, era ele quem ditava o ritmo da galera entre os postos 3 e 4 da Barra da Tijuca. Tornou-se folclórica sua frase “tava melhor mais cedo”, dita com a propriedade de quem já havia lido as condições do mar antes mesmo do sol nascer.

Mais do que surfar, ele “pilhava”. Hélio era o motor que incentivava desde os veteranos até a nova geração, enviando surf checks e convocando todos para aproveitar o dia.

O presente e a despedida – O último final de semana foi marcado por um momento que agora ganha tons de profecia e homenagem. Amigos do pico se reuniram para entregar a Hélio um presente simbólico: uma prancha nova. A celebração seguiu no Quiosque do Naná, em um churrasco onde Bigode, com sua generosidade habitual, chegou carregando pão de alho e carne.

“Quando pedimos pra ele escolher a música, ele disse que era eclético, que podíamos colocar qualquer coisa”, relembram os amigos.

A última carne assada pelo grupo foi a que ele levou. E hoje, apenas dois dias após receber o presente, Hélio partiu utilizando aquela mesma prancha, fechando um ciclo de amizade e paixão pelo esporte.

O legado de uma Lenda – Hélio Fernandes deixa um legado que ultrapassa as manobras nas ondas. Ele deixa a lição de que o sorriso radiante e a disciplina podem caminhar juntos. Para a comunidade do surfe, fica a certeza de que o “quintal do P3,5” nunca mais será o mesmo, mas a presença de Bigode será sentida em cada série que entrar no horizonte.

Como dizem os amigos e admiradores: Lendas nunca morrem. Hélio Fernandes estará para sempre na memória de cada remada.

Despedida – A despedida de Hélio Fernandes acontece nesta terça-feira (23), no cemitério São João Batista, em Botafogo (RJ), capela 08. O velório começa às 12h (de Brasília) e o sepultamento está marcado para as 16h30.