Surf Brasil Pro

Locais de Ipojuca comandam o show

Bicampeão brasileiro Douglas Silva bate todos os recordes com seus aéreos e Monik Santos faz as maiores marcas femininas de 2026.
Surf Brasil Pro 2026, Praia do Borete, Porto de Galinhas, Ipojuca (PE)

Os surfistas locais de Ipojuca comandaram o show na quarta-feira do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas na Praia do Borete. O bicampeão brasileiro Douglas Silva, bateu todos os recordes desta segunda etapa do Campeonato Brasileiro de Surf, somando um aéreo nota 9.00 na vitória por 15.40 pontos na repescagem. E a campeã brasileira Monik Santos foi para o topo das listas de maior nota e somatório feminino de 2026, com a nota 8.00 e os 13.40 pontos que totalizou também na repescagem. Agora os duelos passam para o formato de confrontos diretos nas 16 baterias da sexta fase masculina e nas oitavas de final femininas. O show de surf continua nesta quinta-feira, ao vivo pelo canal Surf Brasil TV no YouTube e pelos canais de TV Woohoo e XSports.

“Estou muito feliz e quero agradecer a Deus, por todas as oportunidades que Ele me deu lá dentro do mar. Agradecer a minha família que está aqui todos os dias torcendo, meus amigos, minha namorada, todo mundo mandando a vibe e isso é muito importante”, disse Douglas Silva, que venceu essa etapa do Campeonato Brasileiro em casa no ano passado. “É muito maravilhoso para mim, voltar aqui aonde no ano passado foi o início do bicampeonato brasileiro e esse ano pode ser o início do tri né. Mas, estou super de boa, só deixando as coisas acontecerem, deixando Deus tocar o barco e fico amarradão de estar ali dentro d´água dando show pra galera”.

A bateria que Douglas Silva mandou um aéreo full rotation de frontside, que igualou a nota 9.00 do paulista Kailani Renno e registrou um novo recorde de 15.40 pontos no Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, foi de altíssimo nível. Foi um verdadeiro show de aéreos e o vice-líder do ranking, Wesley Leite (SP), avançou em segundo lugar por 12.30 pontos a 12.00 do ex-top da elite mundial, Peterson Crisanto (PR), que acabou eliminado com uma nota 7.50. Até o último colocado, Guilherme Fernandes (SP), surfou muito bem e chegou a liderar o confronto quando conseguiu uma nota 7.00 na sua melhor onda.

“Eu sabia que seria uma bateria difícil, com o Xapa (Wesley Santos), o Urso (Peterson Crisanto), ex surfista do CT e o Guilherme (Fernandes) também, que veio pra repescagem junto comigo. Então eu sabia que ia ter que dar tudo de mim”, destacou Douglas Silva, que falou sobre o fato de competir em casa. “Isso é incrível. Tenho certeza de que todo atleta no mundo, que tiver uma torcida igual a que tenho em casa, se sentiria muito feliz, realizado. Isso pra mim é muito gratificante e só tenho gratidão a todo mundo que sai das suas casas pra vir na praia torcer por mim. Eu to só fazendo meu trabalho, fazendo o que eu mais amo, que é competir e surfar, estou bem comigo mesmo e a torcida tá incrível”.

Monik Santos bate todos os recordes do surf brasil pro 2026 – Assim como Douglas Silva, a também ipojucana Monik Santos aproveitou muito bem a segunda chance de classificação na repescagem, batendo todos os recordes femininos das duas etapas do Surf Brasil Pro 2026. A nota 8.00 que conseguiu com duas manobras muito fortes invertendo a direção da prancha, superou o 7.50 que a sua irmã, Nicole Santos, tinha feito no domingo na Praia do Borete. E os 13.40 pontos ultrapassaram os 13.17 da hexacampeã brasileira Silvana Lima na primeira etapa, na Praia da Taíba, no Ceará. Monik Santos fez os novos recordes para vencer três talentos da nova geração, a catarinense Kauanny de Souza, a carioca Sarah Ozorio e a paulista Kemily Sampaio.

“Estou muito feliz de ter conseguido soltar meu surf e fazer uma boa nota, porque sei que as meninas estão em um nível muito alto”, disse Monik Santos. “A primeira bateria dessa fase, foi a da minha irmã (Nicole Santos). Ela conseguiu vencer e me inspirou muito, fiquei muito instigada e consegui essa nota 8. Soltei o pé e deu certo. Estou aqui com a minha família, minha esposa, minha irmã e quero agradecer a todos os meus patrocinadores, a Neuronha, a Prefeitura do Ipojuca que vem nos apoiando, incentivando e fazendo esse evento maravilhoso aqui em casa. É muito bom poder competir em casa, com todas as pessoas que eu amo, que me viram crescer e evoluir aqui nesse lugar maravilhoso, que é um paraíso”.

Tainá Hinckel se recupera chegando perto do recorde de 2026 – Antes da Monik Santos registrar novos recordes no Surf Brasil Pro 2026, a surfista olímpica da Guarda do Embaú, Tainá Hinckel, já havia igualado a nota 7.50 da Nicole Santos e chegado bem perto do maior somatório do ano da Silvana Lima. A catarinense venceu sua bateria por 13.10 pontos, contra 13.17 da cearense. Tainá não conhecia o município do Ipojuca no litoral sul de Pernambuco e está competindo pela primeira vez na Praia do Borete. Por isso, encontrou dificuldades na sua estreia, mas aproveitou a segunda chance de classificação para as oitavas de final, eliminando a vice-líder do ranking, Analu Silva, da Paraíba.

“Estou muito feliz de ter avançado essa bateria, porque ontem realmente acabei não me achando nas condições do mar e a onda aqui é um pouco difícil de ler, principalmente de se posicionar lá dentro”, disse Tainá Hinckel. “Não é tão fácil de competir aqui, mas estou feliz em estar me adaptando, entendendo melhor a onda e por ter passado minha bateria hoje. É a minha primeira vez aqui e achei o lugar maravilhoso, então estou feliz de ter avançado. Eu gosto bastante de competir no Circuito Brasileiro e estou superfeliz por passar a bateria, minha prancha tá boa e vamos seguindo, bateria por bateria”.

Só a Juliana dos Santos segue defendendo a ponta do ranking – No confronto seguinte, a cearense Juliana dos Santos, campeã brasileira de 2024 e líder do ranking 2026 com a vitória na primeira etapa na Praia da Taíba, também se recuperou do tropeço na sua estreia no Surf Brasil Pro Porto de Galinhas. Juju chegou antes em Ipojuca e venceu a etapa do Circuito Nordestino encerrada na sexta-feira passada nas mesmas ondas da Praia do Borete. Na quarta-feira, Juliana dos Santos derrotou a também cearense Ariane Gomes, a carioca Mariana Areno e a potiguar Maria Clara, para seguir defendendo a liderança do ranking nas oitavas de final. O próximo desafio é com a paranaense Luara Mandelli.

Já na competição masculina, o cearense Michael Rodrigues, campeão da primeira etapa no Ceará, não passou pela repescagem e muitos surfistas podem tirar a sua primeira posição no ranking. Ele foi barrado na bateria que o potiguar Rafael Barbosa fez o segundo maior somatório do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, 15.20 pontos que só ficaram abaixo dos 15.40 do Douglas Silva. Um dos mais de 20 surfistas que ganharam chance de assumir a ponta do ranking em Ipojuca, é o experiente ex-top da elite mundial que já tem título de campeão brasileiro no currículo, Jadson André. O potiguar estreou com vitória na quarta-feira e avançou direto para a rodada classificatória para as oitavas de final.

“Foi uma bateria difícil, mas procurei me manter concentrado e consegui virar ali na última onda, com um aéreo bom e estou feliz de ter avançado”, disse Jadson André. “O evento está maravilhoso, o Surf Brasil vem fazendo um trabalho incrível e eu tenho um bom histórico aqui em Porto de Galinhas. Na minha vida inteira, desde as categorias de base, amador até o profissional, eu nunca tinha perdido um campeonato aqui, até aquela final no Dream Tour em 2024, que eu perdi pro Edgard (Groggia). Toda vez que venho pra cá, os resultados são incríveis e agora é fazer os ajustes pra próxima bateria”.

O show de surf continua nesta quinta-feira na Praia do Borete – Outros surfistas se destacaram com aéreos fantásticos nas boas ondas da quarta-feira na Praia do Borete. O paulista Cauã Gonçalves foi o primeiro a encabeçar a lista de recordes do dia, com nota 8.00 e 15.00 pontos. A sua nota só foi superada pelo 9.00 do Douglas Silva, mas o somatório foi batido pelos 15.40 do pernambucano e pelos 15.20 do potiguar Rafael Barbosa nos confrontos seguintes da repescagem. E na última bateria do dia, o cearense Rafael Venuto também voou bonito para ganhar outra nota 8.00 e vencer por 14.63 pontos.

A expectativa é de que o show de surf apresentado na quarta-feira, quando foi até preciso mandar fechar o espaço aéreo na Praia do Borete, para os voos espetaculares dos surfistas, continue nos confrontos diretos entre dois surfistas, que serão disputados a partir desta quinta-feira em Ipojuca. Esse formato será utilizado a partir da sexta fase masculina e das oitavas de final femininas, até as decisões dos títulos no domingo. A batalha pelos 50.000 reais da vitória promete muita emoção na continuação do segundo desafio do circuito nacional mais rico do mundo, que distribui uma premiação histórica de meio milhão de reais em cada etapa.

O Surf Brasil Pro 2026 é uma realização de Surf Brasil, em conjunto com a Federação Pernambucana de Surf nesta segunda etapa em Porto de Galinhas, que conta com patrocínio da Prefeitura Municipal do Ipojuca através da Secretaria Especial de Esportes, CAIXA Esportes, Monster Energy e Surf Telecom; apoio local da marca JISK e parceria de Suntech, Brazilian Tiger Balm, Sococo, Shopee, Chandon, Restaurante Chicama, Cerveja Praya, apoio ambiental de La Mondo en Ekvilibro e apoio institucional do COB – Comitê Olímpico do Brasil. Todas as etapas do Surf Brasil Pro 2026 são transmitidas pelo canal Surf Brasil TV no YouTube e nos canais Woohoo na TV fechada e XSports na TV aberta, com o último dia também passando ao vivo no canal Time Brasil TV do COB no YouTube.

Próximas baterias do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas

(entre parênteses o estado que representa na competição)

Oitavas de final femininas
9º lugar com R$ 6.000 e 5.000 pontos

1ª Tainá Hinckel (SC) x Aysha Ratto (RJ)

2ª Sophia Medina (SP) x Gabriely Queiroz (CE)

3ª Monik Santos (PE) x Sophia Gonçalves (SP)

4ª Kiany Hyakutake (SC) x Alexia Monteiro (RS)

5ª Juliana dos Santos (CE) x Luara Mandelli (PR)

6ª Yanca Costa (RJ) x Carol Bastides (SP)

7ª Ariane Gomes (CE) x Kauanny de Souza (SC)

8ª Juliana Meneguel (SP) x Nicole Santos (PE)

Sexta fase
1º=Oitavas de Final e 2º=17º lugar com R$ 4.000 e 4.000 pts

1ª Bino Lopes (BA) x Felipe Oliveira (SP)

2ª Janninfer de Sousa (CE) x Renan Pulga (SP)

3ª Jonathan Freitas (RN) x Amando Tenorio (AL)

4ª Marcos Correa (SP) x Lucas Bezerra (CE)

5ª Samuel Joca (RN) x Luan Wood (SC)

6ª Cauã Costa (RJ) x Lucas Haag (SC)

7ª Douglas Silva (PE) x Rafael Teixeira (ES)

8ª Rafael Venuto (CE) x Murillo Coura (SP)

9ª Wesley Leite (SP) x Rafael Barbosa (RN)

10 Lucas Vicente (SC) x Israel Junior (RN)

11 Weslley Dantas (SP) x Gabriel André (SP)

12 Jadson André (RN) x Cauet Frazão (CE)

13 Yuri Gabryel (SC) x Ytalo Oliveira (CE)

14 Alex Ribeiro (SP) x Alan Jhones (RN)

15 Santiago dos Santos (CE) x Deivid Silva (SP)

16 Cauã Gonçalves (SP) x Michel Roque (CE)

Resultados da quarta-feira na Praia do Borete
Quarta fase masculina
1º=Sexta Fase / 2º e 3º=Repescagem

————as 8 primeiras baterias fecharam a terça-feira

9ª 1-Murillo Coura (SP)=11.53, 2-Michael Rodrigues (CE)=11.33, 3-Alexandre Camargo (CE)=6.40

10 1-Santiago dos Santos (CE)=10.30, 2-Deyvson Santos (RN)=10.27, 3-Lucas Haag (SC)=10.23

11 1-Lucas Vicente (SC)=10.37, 2-Alex Ribeiro (SP)=8.84, 3-Renan Pulga (SP)=8.36

12 1-Jonathan Freitas (RN)=12.67, 2-Amando Tenorio (AL)=11.14, 3-Edgard Groggia (SP)=9.87

13 1-Jadson André (RN)=11.14, 2-Luan Carvalho (SP)=10.20, 3-Michel Roque (CE)=8.77

14 1-Cauet Frazão (CE)=13.40, 2-Felipe Oliveira (SP)=9.43, 3-Bino Lopes (BA)=7.57

15 1-Samuel Joca (RN)=11.54, 2-Luan Wood (SC)=8.20, 3-Samuel Igo (PB)=6.70

16 1-Rafael Teixeira (ES)=12.10, 2-Rafael Venuto (CE)=8.73, 3-Gabriel Dantas (RJ)=4.63

Quarta fase ou repescagem feminina
1ª e 2ª avançam para as Oitavas de Final
3ª=17º lugar (R$ 3.000 e 4.000 pontos) e 4ª=21º lugar (R$ 3.000 e 3.800 pts)

1ª 1-Nicole Santos (PE), 2-Kiany Hyakutake (SC), 3-Larissa dos Santos (CE), 4-Julia Nicanor (SP)

2ª 1-Tainá Hinckel (SC), 2-Aysha Ratto (RJ), 3-Analu Silva (PB), 4-Potira Castaman (SC)

3ª 1-Juliana dos Santos (CE), 2-Ariane Gomes (CE), 3-Mariana Areno (RJ), 4-Maria Clara (RN)

4ª 1-Monik Santos (PE), 2-Kauanny de Souza (SC), 3-Sarah Ozorio (RJ), 4-Kemily Sampaio (SP)

Quinta fase ou repescagem masculina
1º e 2º avançam para a Sexta Fase
3º=33º lugar (R$ 3.000 e 3.200 pontos) e 4º=41º lugar (R$ 3.000 e 2.800 pts)

1ª 1-Ytalo Oliveira (CE), 2-Felipe Oliveira (SP), 3-Mathias Ramos (CE), 4-Gabriel Klaussner (SP)

2ª 1-Michel Roque (CE), 2-Janninfer de Sousa (CE), 3-Walley Guimarães (SC), 4-Rafael Santos (CE)

3ª 1-Cauã Gonçalves (SP), 2-Lucas Haag (SC), 3-Paulo Henrique Grilo (RN), 4-Marcos Alves TT (CE)

4ª 1-Douglas Silva (PE), 2-Wesley Leite (SP), 3-Peterson Crisanto (PR), 4-Guilherme Fernandes (SP)

5ª 1-Rafael Barbosa (RN), 2-Renan Pulga (SP), 3-Edgard Groggia (SP), 4-Michael Rodrigues (SC)

6ª 1-Amando Tenorio (AL), 2-Alex Ribeiro (SP), 3-Deyvson Santos (RN), 4-Alexandre Camargo (CE)

7ª 1-Luan Wood (SC), 2-Bino Lopes (BA), 3-Gabriel Dantas (RJ), 4-Samuel Igo (PB)

8ª 1-Rafael Venuto (CE), 2-Lucas Bezerra (CE), 3-Luan Carvalho (SP), 4-Derek Souza (SP)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.