Surf Brasil Pro

Decisão em Ipojuca

Baiano Bino Lopes assume liderança e encara o local Douglas Silva, enquanto Tainá Hinckel e Juliana dos Santos comandam semifinais femininas no domingo decisivo do Surf Brasil Pro em Porto de Galinhas.
Surf Brasil Pro 2026, Praia do Borete, Porto de Galinhas, Ipojuca (PE)

O Surf Brasil Pro Porto de Galinhas decide os títulos da segunda etapa do Campeonato Brasileiro de 2026, neste domingo no município do Ipojuca, litoral sul de Pernambuco. O baiano Bino Lopes assumiu a liderança do ranking e vai fazer um duelo de campeões brasileiros com o ídolo local, Douglas Silva, que quer repetir o título do ano passado em casa. No sábado foram disputadas as quartas de final masculinas e femininas na Praia do Borete. A surfista olímpica Tainá Hinckel se destacou com um novo recorde de pontos nas duas etapas de 2026. O domingo decisivo pode ser assistido ao vivo pelo canal Surf Brasil TV no YouTube e pelos canais de TV Woohoo e XSports.

Na primeira semifinal do domingo, a catarinense Tainá Hinckel vai enfrentar a gaúcha Alexia Monteiro já como vice-líder no ranking do Surf Brasil Pro 2026. Na outra bateria, a líder Juliana dos Santos, campeã da primeira etapa no Ceará, pega um grande talento da nova geração, a catarinense Kauanny de Souza de apenas 15 anos de idade. As semifinais masculinas começam com o confronto dos campeões brasileiros Bino Lopes e Douglas Silva, com o também campeão Weslley Dantas disputando a segunda vaga na final com o potiguar Alan Jhones. A vitória no circuito nacional mais rico do mundo, com premiação de meio milhão de reais a cada etapa, vale uma bolada de 50 mil reais para a campeã e para o campeão.

A campeã brasileira de 2023, Tainá Hinckel, detém a maioria dos recordes femininos na gestão Teco Padaratz na presidência da Confederação Brasileira de Surf, iniciada em 2022. E no sábado colecionou mais um, aumentando para 13.60 pontos o maior somatório das duas etapas do Surf Brasil Pro 2026. Tainá bateu os 13.40 que a ipojucana Monik Santos tinha feito também na Praia do Borete nessa semana. A catarinense somou uma nota 7.50 com seu ataque explosivo de backside numa boa onda, para vencer o grande clássico do surf feminino brasileiro contra a paulista Sophia Medina, por 13.60 a 11.67 pontos.

“Foi uma bateria superdisputada com a Sophia e todas as meninas tão surfando muito né. Então, a gente tem que entrar na água pra sempre dar o melhor e foi isso que tentei fazer”, disse Tainá Hinckel. “As condições estavam um pouco difíceis e só agora tá começando a melhorar, por conta da maré que tá começando a encher. Estou feliz porque consegui achar duas ondas boas, que foram suficientes pra passar. Foi uma bateria apertada, disputada do início até o fim e estou realmente muito feliz por estar na semifinal. Agora é descansar um pouco, porque amanhã tem mais”.

Tainá Hinckel agora vai tentar manter a invencibilidade contra a gaúcha Alexia Monteiro, pois ganhou as seis baterias que elas se enfrentaram desde 2022. A catarinense também pode aumentar de 6 para 7, o seu recorde de vitórias em etapas válidas pelo título brasileiro na gestão Teco Padaratz. Mas, a Alexia vem se destacando desde a primeira fase no Surf Brasil Pro Porto de Galinhas. No sábado contra a paulista Sophia Gonçalves, venceu a sua quinta bateria na Praia do Borete esse ano.

Campeã brasileira e líder do ranking enfrentando a nova geração – Na outra semifinal, Juliana dos Santos terá mais um duelo contra outro talento da nova geração. A cearense foi campeã brasileira em 2024 e vice-campeã na final com a catarinense Laura Raupp na etapa pernambucana em Ipojuca no ano passado. No sábado, Jujú enfrentou a bicampeã brasileira Sub-16, Carol Bastides, de apenas 14 anos de idade, por uma pequena vantagem de 11.54 a 10.96 pontos. Agora, terá pela frente a catarinense de 15 anos, Kauanny de Souza, que bateu a experiente paulista Juliana Meneguel, por 9.83 a 7.67 pontos na última quarta de final.

“Estou feliz de passar pra semifinal agora e grata à Deus por ter acordado bem hoje, pra disputar as quartas de final”, disse Juliana dos Santos. “Tem altas ondas e as direitas começaram a aparecer na maré enchendo. Eu até entrei no pico das esquerdas, mas a Carol começou nas direitas e eu consegui fazer uma onda boa logo no início. Depois, demorou para fazer um backup. Esperei pra pegar uma onda da série e estou feliz por achar boas oportunidades, porque eu sabia que seria uma bateria difícil com a Carol, que vem surfando muito bem. Deus tem iluminado meu caminho e estou feliz por estar nas semifinais de novo aqui”.

Enquanto Juliana dos Santos já tem quatro vitórias em seis finais disputadas desde 2022, Kauanny de Souza festejou a sua primeira semifinal da carreira: “Primeiramente, quero agradecer a Deus, porque sem Ele nada disso estaria acontecendo. Eu tenho certeza de que foi Ele que colocou as melhores ondas pra mim. Antes de entrar na água, orei muito pedindo sabedoria, conexão com o mar e deu certo, então só tenho que agradecer a Ele. O mar tá difícil, mas consegui me conectar com as ondas pra vencer essa bateria e estou preparada pra qualquer condição. Independente contra quem for, eu vou pra cima, dar na cara e é isso (risos)”.

Bino Lopes assumindo a liderança do ranking nas quartas de final – As quartas de final masculinas rolaram após as femininas, com disputa pela liderança do ranking logo na primeira bateria. O baiano Bino Lopes já tiraria o primeiro lugar do cearense Michael Rodrigues, se passasse para as semifinais. E foi isso que aconteceu. O campeão brasileiro de 2015 começou bem a bateria contra o alagoano Amando Tenorio e chegou até a conseguir a sua maior nota na gestão Teco Padaratz. A nota 8.00 que recebeu na nona onda que pegou na bateria, sacramentou a vitória por uma larga vantagem de 14.50 a 9.46 pontos. Bino Lopes então saiu do mar já como novo líder no ranking do Surf Brasil Pro 2026.

“Estou amarradão em ter avançado mais uma bateria muito difícil, contra o Amando Tenorio”, destacou Bino Lopes. “Eu comecei bem conectado com a vala e sabia que tinha uma esquerdinha, que rendeu legal, deu pra fazer três manobras e aí saí com um 6.00 e um 6.50. Depois ficou mais fácil pra administrar a bateria, porque não tava vindo tanta onda. Comecei a fazer um joguinho de xadrez ali e aí veio o 8.00, que me deu uma tranquilidade maior e estou amarradão de ter avançado. Vamos com tudo aí pras semifinais”.

Disputa por onda no início é penalizada com interferência dupla – A segunda quarta de final foi bem mais disputada, com toda a torcida na areia para assistir o ídolo local, o bicampeão brasileiro Douglas Silva, que voltou pra casa com o título panamericano conquistado no Panamá. A bateria começou quente, com Dodô e o cearense Cauã Costa se cruzando na briga pela primeira onda. Ambos ficaram em pé ao mesmo tempo, com o pernambucano querendo pegar uma direita e Cauã a esquerda. Os juízes assinalaram uma interferência dupla, com os dois sendo penalizados com a perda da metade da segunda nota computada. Logo, Douglas Silva acertou um aéreo full rotation de frontside, que ganhou nota 8.17 e foi decisiva para garantir a vitória por 10.72 a 7.60 pontos.

“Eu sabia que ia ser uma bateria muito difícil. O Cauã vem se destacando com as manobras aéreas, tirando boas notas, então eu sabia que ia ser difícil enfrentar ele”, disse Douglas Silva, que comentou sobre a interferência. “Na hora que rolou isso, eu vi uma direita animal, ele viu uma esquerda animal e a gente dropou praticamente juntos. Só que um querendo ir prum lado, outro pro outro e foi até engraçado. Aí logo veio uma esquerda e mandei um aéreo muito bom, acabei fazendo um 8 e foi o que me garantiu na bateria. Eu tava super diboa, tranquilo, só queria fazer meu trabalho e estou feliz de ter me classificado pra semifinal”.

Weslley Dantas vence confronto de campeões brasileiros do sábado – O confronto seguinte foi mais um duelo de campeões brasileiros no Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, com o vencedor do primeiro título da gestão Teco Padaratz em 2022, o potiguar Israel Junior, contra o primeiro campeão brasileiro do Dream Tour em 2023, o paulista Weslley Dantas. São dois especialistas em manobras aéreas e King Dantas comandou o show, com os seus full rotations de frontside nas esquerdas da Praia do Borete. Ele já largou na frente com nota 7.50 e logo acertou outro que valeu 7.87. Israel Junior esboçou uma reação no final, mas Weslley Dantas garantiu a vitória com o maior placar do dia, 15.37 a 12.86 pontos.

“Estou muito feliz, é a minha primeira semifinal esse ano, abrindo as portas para grandes resultados pro resto da temporada”, disse Weslley Dantas. “Estou feliz com meu desempenho, porque o Israel (Junior) é um grande surfista, um grande aerealista e eu sabia que ele ia voar. Então, tive que não só dar aéreos, mas competir bem, para que ele não pudesse pegar alguma onda boa, porque tem nível de fazer (nota) 8, 9, também. Eu não podia dar esse mole com a bateria na minha mão. Eu já tava mentalizando esses dois aéreos, uma nota alta, a galera vibrando antes da bateria e, graças a Deus, aconteceu”.

Batalha pela liderança do ranking no domingo decisivo em Ipojuca – Weslley Dantas é o único surfista que ainda briga pela liderança do ranking no domingo decisivo do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas. E ela pode até ser decidida numa final entre ele e Bino Lopes. O baiano terá um duro desafio pela frente, contra o defensor do título da etapa pernambucana em Ipojuca, Douglas Silva. Se Bino Lopes perder, Weslley já assume a ponta se vencer o Alan Jhones na segunda semifinal. O potiguar mostrou a potência do seu surf de borda, para aniquilar o ataque aéreo do cearense Santiago dos Santos na bateria que fechou o sábado na Praia do Borete. Alan Jhones somou notas 7.37 e 7.00 na vitória por 14.37 a 11.70 pontos. Então, a batalha não será fácil para Weslley Dantas. Na categoria feminina, Juliana dos Santos já havia confirmado a primeira posição, quando se classificou para as quartas de final.

O Surf Brasil Pro 2026 é uma realização de Surf Brasil, em conjunto com a Federação Pernambucana de Surf nesta segunda etapa em Porto de Galinhas, que conta com patrocínio da Prefeitura Municipal do Ipojuca através da Secretaria Especial de Esportes, CAIXA Esportes, Monster Energy e Surf Telecom; apoio local da marca JISK e parceria de Suntech, Brazilian Tiger Balm, Sococo, Shopee, Chandon, Restaurante Chicama, Cerveja Praya, apoio ambiental de La Mondo en Ekvilibro e apoio institucional do COB – Comitê Olímpico do Brasil. Todas as etapas do Surf Brasil Pro 2026 são transmitidas pelo canal Surf Brasil TV no YouTube e nos canais Woohoo na TV fechada e XSports na TV aberta, com o último dia também passando ao vivo no canal Time Brasil TV do COB no YouTube.

Semifinais do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas

(entre parênteses o estado que representa na competição)

Categoria feminina
3º lugar com R$ 13.500 e 7.300 pontos

1ª Tainá Hinckel (SC) x Alexia Monteiro (RS)

2ª Juliana dos Santos (CE) x Kauanny de Souza (SC)

Categoria masculina
3º lugar com R$ 13.500 e 7.300 pontos

1ª Bino Lopes (BA) x Douglas Silva (PE)

2ª Weslley Dantas (SP) x Alan Jhones (RN)

Resultados das quartas de final no sábado em Ipojuca

Categoria feminina
5º lugar com R$ 8.000 e 6.100 pontos

1ª Tainá Hinckel (SC) 13,60 x 11,67 Sophia Medina (SP)

2ª Alexia Monteiro (RS) 12,57 x 11,70 Sophia Gonçalves (SP)

3ª Juliana dos Santos (CE) 11,54 x 10,96 Carol Bastides (SP)

4ª Kauanny de Souza (SC) 9,83 x 7,67 Juliana Meneguel (SP)

Categoria masculina
5º lugar com R$ 8.000 e 6.100 pontos

1ª Bino Lopes (BA) 14,50 x 9,46 Amando Tenorio (AL)

2ª Douglas Silva (PE) 10,72 x 7,60 Cauã Costa (RJ)

3ª Weslley Dantas (SP) 15,37 x 12,86 Israel Junior (RN)

4ª Alan Jhones (RN) 14,37 x 11,70 Santiago dos Santos (CE)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.