Surf Brasil Pro

Corrida esquenta no Borete

Juliana dos Santos confirma ponta do ranking, Tainá Hinckel brilha e disputa masculina pelo topo segue aberta com 18 surfistas na briga do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, nas ondas do Borete.
Surf Brasil Pro 2026, Praia do Borete, Porto de Galinhas, Ipojuca (PE)

O Surf Brasil Pro Porto de Galinhas já definiu as quartas de final femininas na quinta-feira e as irmãs de Ipojuca, Monik e Nicole Santos, saíram da briga pelo título desta segunda etapa do Campeonato Brasileiro de Surf 2026. A cearense Juliana dos Santos avançou e não perde mais a liderança do ranking, enquanto no masculino tem 18 surfistas com chances matemáticas de assumir a ponta na corrida pelo título brasileiro da temporada. Na quinta-feira foi iniciada a batalha por vagas nas oitavas de final e o bicampeão brasileiro Douglas Silva segue na busca do bicampeonato em casa na Praia do Borete. A segunda metade da sexta fase vai abrir a sexta-feira, às 9h com transmissão ao vivo pelo canal Surf Brasil TV no YouTube e pelos canais de TV Woohoo e XSports.

A sexta-feira começou com vitória da surfista olímpica Tainá Hinckel sobre a carioca Aysha Ratto, por imbatíveis 13.34 pontos nas oitavas de final femininas. A catarinense conseguiu nota 7.17 na sua melhor onda e quase bateu o recorde de 13.40 pontos da pernambucana Monik Santos na quarta-feira. Tainá agora vai fazer um clássico do surf brasileiro na primeira quarta de final com a paulista Sophia Medina, que derrotou a sensação cearense nas ondas da Praia do Borete, Gabriely Queiroz, por 9.13 a 7.70 pontos.

“Estou superfeliz por essa bateria, principalmente porque consegui ir trocando as notas e isso te deixa mais tranquila. Apesar de que, a Aysha (Ratto) surfa muito e pegou uma onda muito boa na bateria”, destacou Tainá Hinckel. “Achei as condições do mar um pouco difíceis, mas quando você encaixa no lugar certo, consegue pegar umas ondas boas. Não foi uma bateria tão simples, ao contrário, foi superdisputada. Só que consegui escolher as ondas certas para ir trocando notas. Estou superfeliz com minha competitividade e que deu tudo certo para passar essa bateria contra a Aysha, que surfa muito”.

No segundo duelo das quartas de final, a paulista Sophia Gonçalves, que barrou a ipojucana Monik Santos, vai enfrentar a gaúcha Alexia Monteiro. Curiosamente, ambas ganharam suas baterias por 11.50 pontos. Na chave de baixo, que vai apontar a segunda finalista do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, a número 1 do ranking, Juliana dos Santos, terá pela frente a grande promessa da nova geração, a paulista de apenas 14 anos de idade, Carol Bastides, que já bateu uma campeã brasileira na quinta-feira, Yanca Costa. E a última vaga para as semifinais, será disputada pela experiente paulista Juliana Meneguel e a jovem catarinense Kauanny de Souza, de 15 anos.

Juliana dos Santos confirma a liderança do ranking na quinta-feira – Juliana dos Santos já passou por um dos grandes talentos desta promissora geração de surfistas, a paranaense Luara Mandelli. A cearense foi quem chegou mais perto dos 13.34 pontos da Tainá Hinckel, ao vencer sua bateria por 12.17 pontos. Com a classificação para as quartas de final, Juliana já garantiu 16.100 pontos no ranking. A catarinense Tainá Hinckel ainda pode igualar essa pontuação se ganhar o Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, mas ficaria abaixo no primeiro critério de desempate, que é o maior número de baterias vencidas.

“A gente já sabe o que tem que fazer dentro do mar, é um trabalho que vem sendo feito há um tempo, para ser executado na hora certa”, disse Juliana dos Santos, campeã brasileira de 2024. “Estou muito feliz em ter feito um bom resultado no Panamericano de Surf no Panamá, onde fiquei em terceiro lugar. Em seguida, vim direto pra cá e competi no Nordestino aqui do lado, como um treino semana passada. E consegui vencer fazendo boas performances no mar, que tinha altas ondas. Estou feliz por estar conseguindo encaixar meu surf nas baterias e achar boas oportunidades para surfar e bora pra próxima”.

Liderança do ranking masculino é ameaçada por 18 surfistas – Na competição masculina, o líder do ranking, Michael Rodrigues, não passou nenhuma bateria esse ano na Praia do Borete, onde foi semifinalista no ano passado. O cearense mora há muitos anos em Florianópolis (SC) e agora é ameaçado por 18 surfistas, que ainda estão vivos na disputa do título do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas. O vice-líder, Wesley Leite, já assume a ponta se passar para as oitavas de final, no duelo com o potiguar Rafael Barbosa, que ficou para abrir a sexta-feira em Ipojuca.

Três surfistas ultrapassam os 12.800 pontos do Michael Rodrigues se chegarem nas semifinais, o baiano Bino Lopes e os paulistas Cauã Gonçalves e Alex Ribeiro. Os outros 14 com chances matemáticas na briga pela liderança, já precisam chegar na grande final. E para oito deles, só interessa a vitória nesta segunda etapa do Surf Brasil Pro 2026 em Pernambuco. Um dos que têm que chegar na final, é o paulista Marcos Correa, que fez um novo recorde de 16.17 pontos, ultrapassando os 15.40 do Douglas Silva na quarta-feira. Marquinhos deu um show nas esquerdas do Borete, somando notas 8.67 e 7.50 e jogando um 7.07 fora.

“Primeiramente, quero agradecer a Deus, por ter feito uma performance que me deu a nota excelente, 8.67. Eu já tinha um 7.50 e ainda descartei um 7.00. Fazia tempo que eu não descartava um 7.00”, disse Marcos Correa. “O Lucas (Bezerra) começou liderando, mas eu sabia que as ondas ainda iam encaixar pra mim. Aí tirei um 7, depois um 7.5 e fui só trocando nota, mas quero parabenizar o Lucas. Ele é bem novo, já compete superbem e tá evoluindo bastante. Estou feliz porque consegui pegar as melhores ondas e fazer uma excelente bateria. Agora é descansar e manter o foco, porque tem muita luta pela frente ainda”.

Douglas Silva avança na busca do bicampeonato em casa – Quem também fez uma grande apresentação na quinta-feira, foi o cearense Cauã Costa, que somou notas 8.00 e 7.00 para vencer o catarinense Lucas Haag com o segundo maior placar do dia, 15.00 pontos. Cauã estreou na Praia do Borete esse ano, mandando o bicampeão brasileiro Douglas Silva para a repescagem. O ídolo local venceu esta etapa do Surf Brasil Pro na sua casa no ano passado e vem embalado pelo título panamericano conquistado no Panamá. Dodô passou pela repescagem batendo recordes e na quinta-feira despachou o capixaba Rafael Teixeira, também usando os aéreos de frontside nas esquerdas do Borete.

“Eu sabia que ia ser uma bateria difícil, então eu vou continuar usando as manobras aéreas que tão no pé”, disse Douglas Silva, que não competiu na primeira etapa do Surf Brasil Pro 2026 no Ceará e está iniciando a busca pelo tricampeonato brasileiro em casa em Ipojuca. “Essa minha prancha tá muito boa e eu sabia que o Rafael (Teixeira) é um adversário muito forte, então eu fui pros aéreos mesmo. Graças a Deus, eu fui feliz, passei essa bateria e to amarradão. É isso que eu tenho pra mostrar, é essa gana lá dentro d´água, essa vontade de vencer e vamo embora pra próxima”.

Na quarta-feira, foi realizada metade das 16 baterias da sexta fase, que definiram os primeiros duelos das oitavas de final do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas. O primeiro será entre o baiano campeão brasileiro Bino Lopes e o paulista Renan Pulga, vice-campeão no ano passado. No segundo, o novo recordista Marcos Correa enfrenta o alagoano Amando Tenorio. Na terceira bateria, está o cearense Cauã Costa, que mora no Rio de Janeiro, com o jovem potiguar Samuel Joca. E o bicampeão brasileiro Douglas Silva entra na quarta com o paulista voador, Murillo Coura, vencedor do último confronto da quinta-feira em Ipojuca.

Surf Brasil promove ações socioambientais no sábado – O Surf Brasil e o Instituto-E promovem constantemente ações socioambientais em todo o país. Para o Surf Brasil Pro Porto de Galinhas, está programada uma caminhada ecológica e o plantio de mudas de restinga na Praia do Borete, onde acontece a segunda etapa do Campeonato Brasileiro de Surf.

“Nós sempre realizamos ações de plantio, limpeza de praias e educação ambiental com alunos da rede pública, levando a Cultura Oceânica para as novas gerações”, destaca Duda Tedesco, responsável pelo ESG da Confederação Brasileira de Surf.

Em Ipojuca, será realizada no sábado, às 10h, uma Caminhada Ecológica com as crianças da Associação Cuidar é Preciso e alunos da rede pública. A atividade sairá do Hotel Armação em direção ao campeonato na Praia do Borete, onde acontecerá um mutirão de limpeza da praia e o replantio de mudas de espécies de restinga. A ação conta com apoio ambiental da empresa Ekvilibro, por meio da moeda verde Mondo.

Duda Tedesco destaca o apoio recebido da Prefeitura de Ipojuca, por meio de Felipe Melo, da Agência Municipal do Meio Ambiente, e de Memé de Bertinho, da Secretaria Especial de Esportes, além da Associação Cuidar é Preciso. O Surf Brasil Pro Porto de Galinhas conta ainda com apoio ambiental da La Mondo en Ekvilibro.

Livro Guardiões Do Oceano – Além das ações ambientais, Duda Tedesco também anunciou o lançamento do livro Guardiões do Oceano, voltado para alunos do Ensino Fundamental I (9 a 11 anos) da rede pública. A solenidade acontecerá no dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, no Santuário Cristo Redentor com a participação do reitor Padre Omar, do presidente da Confederação Brasileira de Surf, Teco Padaratz, do executivo da Confederação Brasileira de Vela, Marco Aurélio, e de Oskar Metsavaht.

O Surf Brasil Pro 2026 é uma realização de Surf Brasil, em conjunto com a Federação Pernambucana de Surf nesta segunda etapa em Porto de Galinhas, que conta com patrocínio da Prefeitura Municipal do Ipojuca através da Secretaria Especial de Esportes, CAIXA Esportes, Monster Energy e Surf Telecom; apoio local da marca JISK e parceria de Suntech, Brazilian Tiger Balm, Sococo, Shopee, Chandon, Restaurante Chicama, Cerveja Praya, apoio ambiental de La Mondo en Ekvilibro e apoio institucional do COB – Comitê Olímpico do Brasil. Todas as etapas do Surf Brasil Pro 2026 são transmitidas pelo canal Surf Brasil TV no YouTube e nos canais Woohoo na TV fechada e XSports na TV aberta, com o último dia também passando ao vivo no canal Time Brasil TV do COB no YouTube.

Próximas baterias do Surf Brasil Pro Porto de Galinhas

(entre parênteses o estado que representa na competição)

Sexta fase
1º=Oitavas de Final e 2º=17º lugar com R$ 4.000 e 4.000 pts

——–as 8 primeiras baterias fecharam a quinta-feira

9ª Wesley Leite (SP) x Rafael Barbosa (RN)

10 Lucas Vicente (SC) x Israel Junior (RN)

11 Weslley Dantas (SP) x Gabriel André (SP)

12 Jadson André (RN) x Cauet Frazão (CE)

13 Yuri Gabryel (SC) x Ytalo Oliveira (CE)

14 Alex Ribeiro (SP) x Alan Jhones (RN)

15 Santiago dos Santos (CE) x Deivid Silva (SP)

16 Cauã Gonçalves (SP) x Michel Roque (CE)

Quartas de final femininas
5º lugar com R$ 8.000 e 6.100 pontos

1ª Tainá Hinckel (SC) x Sophia Medina (SP)

2ª Sophia Gonçalves (SP) x Alexia Monteiro (RS)

3ª Juliana dos Santos (CE) x Carol Bastides (SP)

4ª Juliana Meneguel (SP) x Kauanny de Souza (SC)

Oitavas de final já formadas
9º lugar com R$ 6.000 e 5.000 pontos

1ª Bino Lopes (BA) x Renan Pulga (SP)

2ª Marcos Correa (SP) x Amando Tenorio (AL)

3ª Cauã Costa (RJ) x Samuel Joca (RN)

4ª Douglas Silva (PE) x Murillo Coura (SP)

Resultados da quinta-feira na Praia do Borete
Oitavas de final femininas
9º lugar com R$ 6.000 e 5.000 pontos

1ª Tainá Hinckel (SC) 13,34 x 10,14 Aysha Ratto (RJ)

2ª Sophia Medina (SP) 9,13 x 7,70 Gabriely Queiroz (CE)

3ª Sophia Gonçalves (SP) 11,50 x 10,40 Monik Santos (PE)

4ª Alexia Monteiro (RS) 11,50 x 8,60 Kiany Hyakutake (SC)

5ª Juliana dos Santos (CE) 12,17 x 10,60 Luara Mandelli (PR)

6ª Carol Bastides (SP) 11,24 x 5,53 Yanca Costa (RJ)

7ª Kauanny de Souza (SC) 12,33 x 12,07 Ariane Gomes (CE)

8ª Juliana Meneguel (SP) 10,50 x 7,40 Nicole Santos (PE)

Sexta fase
1º=Oitavas de Final e 2º=17º lugar com R$ 4.000 e 4.000 pts

1ª Bino Lopes (BA) 13,50 x 9,83 Felipe Oliveira (SP)

2ª Renan Pulga (SP) 10,50 x 7,73 Janninfer de Sousa (CE)

3ª Amando Tenorio (AL) 11,33 x 11,20 Jonathan Freitas (RN)

4ª Marcos Correa (SP) 16,17 x 11,00 Lucas Bezerra (CE)

5ª Samuel Joca (RN) 10,40 x 8,17 Luan Wood (SC)

6ª Cauã Costa (RJ) 15,00 x 11,40 Lucas Haag (SC)

7ª Douglas Silva (PE) 13,17 x 9,13 Rafael Teixeira (ES)

8ª Murillo Coura (SP) 13,00 x 7,27 Rafael Venuto (CE)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.