Leitura de Onda

Maria em Nazaré

Onde só se enxerga a escuridão, a manauara Maria se contorce num caldo metafórico em busca de oxigênio.

A manauara Maria nunca saiu da bolha úmida da Amazônia, mas está ali, sem pedir nem querer, entre as séries de Nazaré, no fundo do mar gelado. Ela só vê a escuridão, enquanto se contorce num caldo metafórico em busca de oxigênio.

Maria tenta subir à superfície, mas logo é dragada pela segunda da série. Ela não tem colete inflável nem garrafinhas de oxigênio. Nunca viu uma prancha, e só flutuou em voadeiras entre o Negro e o Solimões. Não treinou apneia.

O turbilhão cede por um instante, só um instante. Maria chega à superfície e, a seu redor, não encontra a mão de um parceiro, não acha um sled para se agarrar, não ouve qualquer som de jet-ski. Sim, a manauara está abandonada.

Uma nova onda deforma o horizonte. Ela logo percebe que aquilo não é calmaria, e sim o silêncio que precede o afogamento.

Maria percebe que não está sozinha, ali, naquele mar gelado – há muitos outros manauaras como ela, com o canhão apontado para a testa, sem jamais terem visto uma onda, sem fama nem dinheiro, anônimos sem curtidas, à espera do caldo final.

Alguns têm garrafas de oxigênio, o que sugere uma esperança à Maria. Senão para ela, pelo menos para seus iguais naquele drama. Mas não. Os cilindros estão vazios. Alguém esqueceu de enchê-los, antes de afundarem aqueles humanos nesta metafórica Nazaré.

Sem escolha, sem fôlego, sem saída, desgovernados, todos afundarão.

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