Resgate da essência

Kemel Addas Neto relembra a história do clássico Chasing the Lotus, filme que marcou época nos anos 1970.

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Gerry Lopez e a sessão memorável de 1974 em Uluwatu, Bali.

Você já se perguntou qual o real motivo da sua paixão pelo surfe? Sempre gostei de ir fundo nos pensamentos e tentar entender por que me fascino e amo tanto surfar, estar na praia e dentro d’água o máximo que puder, e, claro, tenho certeza de que a maioria que está lendo este texto compartilha deste mesmo sentimento.

O filme de hoje é talvez o roteiro que mais conseguiu colocar a essência, o espírito de aventura, a paixão por ondas e surfar que já assisti. Chasing the Lotus é um filme que conta a história de dois dos mais importantes filmmakers da história dos filmes de surfe. Esses caras souberam melhor que ninguém absorver tudo – mas tudo mesmo – que o surfe, viagens e as praias pelo mundo afora proporcionam.

Cartaz de Chasing the Lotus.

Greg Weaver e Spider Wills são nascidos na Califórnia e seus caminhos começaram em direções bem diferentes. Weaver era um alucinado por surfe e fotografia. Wills estava na força aérea americana e lá começou a fotografar e em seguida a filmar.

Enquanto Weaver surfava diariamente em vários picos do sudeste da Califórnia entre HB e Swamis, e, claro, sempre com sua câmera por perto, Wills, que amava o mar e era um bom bodysurfer, começou a filmar surfistas em Huntington Beach.

Não demorou muito e Weaver também começou a filmar e já com algum sucesso. Ambos começaram a ter seus trabalhos reconhecidos, pois, mesmo sem se conhecer, tinham em comum o espírito aventureiro e literalmente uma visão diferente de filmes e como filmá-los. Wills foi o primeiro a filmar com foco nos pés dos surfistas, estilo que mais tarde foi muito copiado em filmes.

Ele teve o seu primeiro filme de surfe lançado em 1968, nada menos que Pacific Vibration, uma obra de arte cinematograficamente falando para a época do mundo do surfe. Já Weaver, sempre em busca do melhor ângulo, se enfiava em qualquer lugar, árvores, morros em cima do carro e por aí vai. Weaver, nesta época (fim dos anos 60), tinha em Newport Beach seu “QG”, onde ele amava filmar, pois, além de altas ondas, tinha a possibilidade de encontrar diferentes ângulos. Ele tinha suas imagens adicionadas em filmes e suas fotos publicadas nas revistas Surfer e Surfing.

Weaver foi um importante fotógrafo, começando a mostrar uma incrível equipe de skate Zepher Team, dos skatistas Tony Alva, Stacy Peralta, Jay Adams e muitos outros, isso tudo no meio da famosa Dogtown. Finalmente eles se conectam! E não poderia ser em lugar melhor: na ilha de Maui, no Havaí.

Nesta época, Maui era invadida por hippies e surfistas dos mais malucos que tinham. Para se ter uma ideia, Jimi Hendrix apareceu por lá em uma tarde e começou a tocar no meio da praia para centenas de pessoas e surfistas como Gerry Lopez e muitos outros.

Ali, Weaver e Wills começaram uma sólida parceria. Will era o cara de dentro da areia e Weaver o cara da das filmagens dentro d’água, fazendo cenas em duplo ângulo. Nesta mesma época e lugar Weaver e Herbie Flatcher falam um pouco de como fundaram a fábrica de pranchas LSD (Lahaina Surf Desings), com shapes do genial Dick Brewer. Começaram a viajar mundo afora e documentar, através de suas câmeras, lugares inóspitos e virgens com ondas que ainda sequer tinham nome. Isso não é incrível?

Esses caras eram pagos para fazer esse trabalho incrível numa época em que ninguém sonhava com isso. Por pura essência, seguiram todo o caminho durante anos nos trilhos da verdadeira alma de surfista. Com muita clareza, o filme mostra perfeitamente como a melhor época do esporte se passou, como era descobrir picos novos, as drogas da época, as festas e as incríveis surf trips. Sem dúvida, esses dois gênios das câmeras devem ser chamados de patronos das viagens de surfe, pois na época ninguém fez isso mais e melhor do que essa dupla.

O filme mostra picos como praias desconhecidas em Maui, Ilhas Reunião, África, Costa Rica, Baja Califórnia e muitos outros lugares. Cada história contada e filmada no melhor estilo “low profile”, pois eles eram muito underground (rústicos) no estilo de viver e trabalhar. Com todos esses ingredientes, saíram filmes que até hoje tiram o fôlego.

O primeiro trabalho que realmente fizeram juntos foi o filme Forgotten Island of Santosha, dirigido pelos irmãos Larry e Roger Yates. O filme foi todo rodado nas Ilhas Maurício, na costa de Madagascar, em um pico chamado Tamarin Bay, na época mais do que um secret spot. Com esquerdas incríveis e cenário de tirar o fôlego até os dias de hoje, o filme foi uma revolução na época, em 1974. Os surfistas protagonistas desta incrível jornada foram Larry Yates e o havaiano Joey Cabell. Filme imperdível!

Chasing the Lotus narra viagens em que foram feitos filmes de altíssimo nível como o PUMP, In the Wind e muitos outros! Por essas coincidências da vida, durante a filmagem do PUMP Weaver, Occy e cia. acabaram aterrissando na Ilhas Reunião, no pico de Saint Leu, e lá filmaram o que considero a melhor parte do filme.

Narra também situações de localismo no Havaí, festas no auge do movimento hippie na Califórnia e Maui, a incrível viagem surpresa para Indonésia e a descoberta de Uluwatu. Cito a história na Baja Califórnia com dois talentosos surfistas da época, Chris Brown e Peter King. Os comentários de Weaver sobre Cabo San Lucas são de pirar.

Spider era o dono das cenas de longboard, mas Weaver lançou em parceria com o produtor Steve Cleveland, que mostra Joe Tudor com apenas 14 anos de idade e o experiente Wingnut. O filme também traz comentários de surfistas importantes no cenário do surfe da época, como Gerry Lopez, Steve Pezman (The Surfer’s Journal), Herbie Fletcher, Bob Hurley e muitos outros.

Posso assegurar que a paixão que esses caras tinham por descobrir o novo, o amor ao surfe e ao audiovisual fez com que este e outros filmes fossem possíveis. Olha, posso assegurar, este é um filme que vocês vão assistir dezenas de vezes e, acreditem, vão querer viver algumas daquelas incríveis histórias, pode apostar (risos).

O filme tem como narrador principal o soul surfer Mr. Jeff Bridges. O som de Chris Bell e banda foi composto e arranjado exclusivo para o filme. Os surfistas: Gerry Lopez, Rory Russell, Buttons Kaluhiokalani, Chris Brown, Occy, Ronnie Burns, Sunny Garcia, Munga Barry, Corky Carroll, Herbie Fletcher e muitos outros.