Reduto de uma das ondas de água doce mais célebres do planeta, o rio Araguari, no Amapá, sofre com o assoreamento provocado pela criação de búfalos na região e pode perder o status de “Hawaii das Pororocas”.
Por Bruno Abbud
Poderia ser o peixe-boi-da-amazônia, a ararajuba, o macaco-de-cheiro ou o uacari-branco – mas a preciosidade amazônica que corre risco de extinção, desta vez, não é um animal. É a pororoca do rio Araguari, no Amapá, a onda que avança rio adentro a 40 quilômetros por hora e pode quebrar por mais de duas horas, apontada pelo livro dos recordes, o “Guiness Book”, como a mais longa do mundo. A ironia do destino é que seu sumiço tem origem na ação de… Um animal. Na verdade, dois. O primeiro é o búfalo. O segundo, o homem.
O fato é que a criação de búfalos na região – comandada por homens importantes, entre eles o empresário Salomão Alcolumbre Junior, que é suplente de senador em Brasília, e Eraldo Afonso Zampa, um promotor de Justiça – está provocando o assoreamento do rio e, consequentemente, a extinção gradativa da pororoca do Amapá. “A pororoca é um fenômeno de maré que acontece toda lua cheia e nova, com maior potência nos períodos do equinócio, principalmente nos estados do Maranhão, Pará e Amapá. E é no Amapá que temos o rio Araguari, afluente direto do rio Amazonas”, explica o surfista Serginho Laus, um dos maiores especialistas em ondas de rio da atualidade, duas vezes recordista mundial de permanência surfando a pororoca e diretor do Instituto Pororoca (IPO). “O relevo do rio Araguari é perfeito, suas dimensões fazem com que a Pororoca tenha uma formação de sonho. Uma dádiva da mãe natureza”, afirma o professor Elói Melo, ph.D. em Oceanografia pela Universidade da Califórnia.
A onda do Araguari é considerada o “Hawaii das Pororocas”, diz Serginho. Em 2012, ela assumiu o primeiro lugar do ranking organizado pelo IPO, seguida pela Silver Dragon, na China, e pela Seven Ghosts, ou Bono, na Indonésia. “Milhões de metros cúbicos de água da vazante do rio Amazonas fazem com que outras toneladas retornem de uma vez só para dentro do Araguari, elevando ondas que já chegaram a 4 metros de face”, afirma Serginho. Por essas e outras, o rio Araguari foi transformado em cenário para o filme “Surf Adventures 2” e chegou a receber a visita de nomes ilustres do surf mundial, como o australiano Ross Clarke-Jones e a lenda californiana Gary Linden. Mas, graças ao assoreamento provocado pelos rebanhos de búfalos, a onda começa a perder força e, este ano, caiu para a terceira posição no ranking do IPO, atrás das ondas da China (1º) e da Indonésia (2º).
De rio a afluente
A engenheira florestal Patrícia Pinha, analista ambiental do Instituto Chico Mendes (ICMBio), explica que o acúmulo de sedimentos no fundo do rio – que faz com que a onda se torne menor e mais barrenta – acontece desde o ano passado por causa das valas abertas pelos animais na área em que o rio desemboca no mar. “A foz do rio Araguari está assoreando rapidamente desde meados de 2012. Isso acontece principalmente em razão da abertura de alguns canais de grande expressão na margem direita da foz, por causa da criação desordenada de búfalos”, diz. Serginho dá detalhes: “Os búfalos caminham em grupo e em linha, as pegadas no solo úmido fazem buracos. Com centenas de animais passando pelo mesmo lugar, valas vão se abrindo. No período das cheias, a força da água ajuda a abrir cada vez mais esses caminhos. Campos secos onde passavam cavalos hoje são enormes rios em que navegam embarcações grandes, incrivelmente originados pela ação dos búfalos”. De acordo com Patrícia: “Esses canais artificiais ligaram o rio Araguari ao rio Gurijuba, fazendo com que a água da foz do Araguari fosse desviada. Assim, o rio perdeu toda a sua força no momento em que deságua no mar. A entrada da maré sem qualquer obstáculo – já que o rio não promove mais uma força contrária – faz com que uma grande quantidade de sedimentos seja depositada no fundo”. Raso e sem força, o Araguari assiste à extinção de sua pororoca, uma das ondas de rio mais apreciadas do planeta.
Além do sumiço da onda, os búfalos causam outro problema naquele pedaço do Amapá. A água, que costumava ser doce, passou a ter alta concentração de sal. “A água daquela parte do Araguari fica salgada na maior parte do ano. Isso provoca uma série de impactos sociais e ambientais para as comunidades ribeirinhas e para a fauna dessa região”, avisa Patrícia. A solução, segundo ela, seria controlar a criação de búfalos. “A atividade não tem qualquer controle ambiental do estado do Amapá e os animais são criados soltos, de maneira extensiva. Os búfalos precisam ser criados em número adequado. Apesar de ser uma exigência legal, não existe licenciamento ambiental para as fazendas de búfalo no Amapá. Além disso, os criadores usam uma área muito maior do que suas respectivas propriedades, invadindo terras públicas. É preciso interromper o desvio das águas e fazer com que o Araguari volte a ter força e consiga desaguar novamente no oceano. As águas não podem continuar sendo desviadas para o Rio Gurijuba. Do contrário, toda a foz será assoreada e o Araguari passará a ser apenas um afluente do Gurijuba.” Segundo Laus, o Instituto Pororoca, em parceria com o ICMBio, voluntários e outros órgãos dedicados a preservar a Amazônia, já alertou o Ministério Público do Amapá. Agora, resta esperar.
Matéria publicada originalmente na edição de agosto da Revista FLUIR.




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