O tiranossauro do surf brasileiro

Tinguinha e Marcela na Joaquina, durante o SuperSurf 2002. Foto: Ricardo Macario.

Tinguinha é o surfista mais velho do circuito brasileiro e continua arrepiando. Foto: Ricardo Macario.

O ainda garoto Tinguinha em 78, no primeiro campeonato. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Estilo e pressão. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Desde pequeno surgiu a vocação para voar. Foto: Bruno Alves/Reprodução Fluir 3.

Beto Fernandes e Tinguinha a caminho das ondas em Maresias (SP). Foto: Ricardo Macario.

Surf total no Hawaii durante o Monster Much, em 89. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Tinguinha em Pipeline, Hawaii. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Tinguinha e Paulo Rabello. Foto: Alexandre Andreatta/Reprodução Fluir 3.

Revista Fluir. Foto: Reprodução Fluir.

Os aéreos fazem parte do repertório do atleta desde o início. Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Tinguinha cumprimenta Wagner Pupo ao final de mais uma disputa: companheiros e veteranos de circuito. Foto: Ricardo Macario.

Tinguinha conversa com Jojó de Olivença, outro veterano do surf brasileiro, em Itacaré (BA). Foto: Ricardo Macario.

Caminhada com a esposa em Camburi, onde vive. Foto: Dodô.

Sequência em Ubatuba. Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Revista Trip. Foto: Reprodução.

Tinga posa para campanha de um antigo patrocinador. Foto: Reprodução Fluir.

Orelhinha, Almir, Tinguinha e Feio em Ubatuba, durante o brasileiro de 79. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Ano: 82. Local: Joaquina, Florianópolis (SC). Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Tinga cheio de jinga. Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Batida vertical em Ubatuba. Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Tinguinha na praia do Félix, Ubatuba (SP). Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Emoção em mais uma vitória, com Jojó à esquerda. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

O velho Tinga costuma dar trabalho em qualquer tipo de mar. Foto: Ricardo Macario.

Tinguinha em Bananas Point, São Sebastião. Foto: Dodô.

Aqui ele vira com força num mar de responsa em Saquarema (RJ). Foto: Ricardo Macario.

Tinguinha em 78. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Entocado em preto e branco. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Tinga rasga a parede com força. Foto: Bruno Alves/Reprodução Fluir 3.

Tinguinha comemora o primeiro título paulista profissional, em 78, com Picuruta, Orelhinha e Neno no palanque. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Cavada em Itamambuca, Ubatuba (SP). Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Cutback em Camburi, quintal de casa. Foto: Dodô.

Mais um título para a coleção, cercado pelos irmãos Amaro e Neno Matos, com Taiu à esquerda e Elton Preiss à direita. Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Radicalidade desde cedo. Foto: Alberto Sodré/Reprodução Fluir 3.

Mesmo depois dos 30, Tinguinha continua com surf de grommet. Foto: Arquivo pessoal Tinguinha.

Tubão em Maresias. Foto: Dodô.

Tinguinha em seu escritório de trabalho: a praia. Foto: Dodô.

Alguém conhece maneira melhor de se referir a um “coroa” de 38 anos que ainda compete e dá trabalho à afiada nova geração do surf brasileiro? Com certeza não. O nome dele é Carlos Gonçalves de Lima, mais conhecido como Tinguinha Lima, apelido que herdou do pai, Tinga. Eterno garoto, sempre cheio de energia e modernidade no estilo polido e radical de surfar, ele possui o verdadeiro espírito de Peter Pan e hoje é o surfista mais velho do circuito brasileiro profissional.

 

Nascido em 19 de fevereiro de 64, na cidade de Jacarezinho, Paraná, Tinguinha veio para São Paulo aos 2 anos com os pais, Carmelino Lima e Maria Mendes Lima, para a cidade do Guarujá, litoral do Estado, onde morou até os 30. Foi lá que o garoto franzino começou a praticar o esporte que iria mudar a vida dele e o próprio surf no Brasil. Com 28 anos de surf nas costas, ele foi um dos maiores precurssores do que se conhece por surf moderno.

 

O que a garotada mais radical faz hoje, como dar três aéreos numa onda, aéreo 360 e desgarradas de rabetas, Tinguinha já fazia há vinte anos. Os títulos também acompanham a carreira do atleta desde o início. Em 75 ele começou a pegar as primeiras ondas e, já em 77, ficou em quinto no primeiro campeonato que participou. Começou a competir profissionalmente em 78 e, no ano seguinte, aos 14 anos, se tornou vice-campeão brasileiro. O mesmo aconteceu em 80. Ainda em 78 e 79 foi campeão paulista profissional. Em 82 se tornou campeão brasileiro profissional.

 

Repetiu o feito nos dois anos seguintes – época em que nem havia um circuito nacional -, depois de novo em 90 e 93, quando se tornou o mais velho campeão da história, aos 29 anos, ambos já pela ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional). Também já integrou a elite mundial, em 94, quando ainda eram os Top 44 da ASP (Association ofSurfing Professionals), mas teve de abandonar tudo devido à problemas particulares.

Quando jovem, Tinguinha tinha fama de rebelde e também ficou conhecido pela difícil relação com os patrocinadores, tendo passado por diversas marcas nos mais de 20 anos de carreira. Além disso, é uma pessoa que possui forte ligação com a natureza – suas caçadas no mato se tornaram famosas na década de 90. Uma das explicações para isso pode ser a descendência indígena herdada da avó, uma representante da tribo Guarani.

 

Sujeito simples e tímido, dono de um sotaque quase caipira, Tinguinha também é duro nas críticas quando o assunto é surf profissional. Para ele, o cenário atual precisa de mudanças urgentes, e é isso que ele pretende fazer no caso de ser eleito o novo presidente da ABRASP, cargo que disputará nas próximas eleições da entidade, ao término da última etapa do circuito, em novembro, na Prainha (RJ).

 

Casado pela segunda vez, há quatro anos com Marcela Gagulim, ele é pai de três filhos, sendo que a mais velha já possui 15 anos. A entrevista a seguir foi feita durante a etapa de Florianópolis (SC) do SuperSurf 2002, entre os dias 28 de agosto e 1 de setembro na praia da Joaquina.

 

Como começou seu envolvimento com o surf?

Comecei pegando onda na praia das Astúrias, no Guarujá, com uma pranchinha de isopor. Depois de alguns anos ganhei uma prancha de fibra de um amigo, que também me ensinou os primeiros passos no esporte, o Zé Roberto “Caiçara”. Na seqüência ele fez minhas sete primeiras pranchas e dois anos depois eu já estava competindo. Ele fazia minhas pranchas, inscrições e atuava como técnico, acompanhando minha carreira.

 

Em quem você buscava inspiração?

 

Na década de 80 eu me inspirei muito no Mark Richards, depois o Paulo Rabello, que era também um amigasso. Ele foi um cara que me espelhei muito. Tinha vezes que eu tava treinando nas Astúrias e meus amigos falavam que ele tava surfando no Tombo. Eu saía da água, ia pro Tombo e passava o dia todo observando ele surfar, porque as manobras, a linha dele era diferente de todo mundo na época. Ele era minha principal referência e é uma pessoa que admiro até hoje e surfa muito ainda, não compete porque não quer. E tenho ele como exemplo de pessoa também fora da água, como atleta. Nunca usou drogas, é uma pessoa íntegra.

 

Como você entrou para as competições?

 

Quando corri os primeiros campeonatos eu era bastante tímido, tinha vergonha de me expor ao público. O Zé Roberto (Rangel, ex-proprietário da Town & Country, falecido há alguns anos)foi quem fez a inscrição no meu primeiro evento, em 77, e fiquei em quinto, como Junior. No seguinte, em 78, era o paulista profissional… Não, acho que corri na Master. Aí ele me colocou pra competir contra os veteranos e venci, fui campeão paulista pela primeira vez em 78. Na seqüência fui vice-campeão brasileiro, em 79, com o Rabello vencendo. E aí foi, nunca programei nada, as coisas foram acontecendo na minha vida. E o mais legal é que nunca almejei o que sou hoje, os títulos, as coisas foram fluindo e eu acompanhei.

 

No final dos anos 70 e meados dos 80 você surfava de uma maneira que ninguém tinha visto antes, fazendo manobras de vanguarda como aéreos 360, desgarradas. De onde você tirava tudo isso?

 

É como eu falei, as coisas foram acontecendo na minha vida, inclusive as manobras. Eu entrava na água às 7 horas da manhã e saía 3, 4 horas da tarde. A prancha fazia parte da minha vida, era uma extensão do meu corpo, minha alma. E eu fazia o que queria em cima dela. Aéreo 360 eu dou até hoje, mas não em competição. Uma vez um juiz disse que eu fazia palhaçada, que aquilo que eu fazia era ridículo. Aí o Kelly Slater foi campeão mundial fazendo exatamente isso, 15 anos depois, com as manobras que o palhaço aqui fazia. Agora eu pergunto: quem era o palhaço, eu ou o juiz? Agora, o que mais me indigna é que esse juiz atua até hoje, trabalha nos eventos do SuperSurf e tá em todas.

 

Mas você se inspirava em alguém?

Não… Eu cheguei até a inventar manobra, mas era uma coisa minha, que vinha de dentro mesmo. À noite, na cama antes de dormir, eu ficava imaginando o que poderia fazer de diferente, pensava na onda… E era incrível, porque muitas vezes eu pensava nisso e no dia seguinte eu tentava executar e conseguia, mas às vezes eu nem queria fazer. Tinha um parceiro meu, o Luis Neguinho, que era chamado de “mister aéreo”, mas ele só fazia aéreo. Eu também dava aéreo, mas criei o “cut-tinga”, que no final do cut-back eu chutava a rabeta e invertia o sentido da prancha. A primeira vez que fiz essa manobra foi em 79, em Saquarema (RJ). O floater, que na época não tinha nome, eu chamava de corridinha no lip. Tinha outra que chamava “slalon”, que era uma batida no lip, aí eu jogava a rabeta e corria de borda na onda, acho que hoje chama “rock-slide”. E também o “lay-back”, uma batida na junção onde eu girava o tronco e inclinava as costas na água, coisas que a gente não vê o pessoal fazendo hoje em dia.

 

Faz um retrospecto da sua carreira, títulos e conquistas.

Fui campeão paulista profissional a primeira vez em 78 e 79 de novo. Aí fui vice-campeão brasileiro em 79 e 80. Nessa época tinham dois campeonatos: em Ubatuba e Guarujá, onde fui vice. Aí em 81 eu sofri um acidente de moto no Guarujá… Bati num ônibus e fui direto com a cabeça, me quebrei inteiro. Fiquei três meses em coma, pouca gente sabe disso… No total foram seis meses me recuperando. Aí voltei a competir e fui campeão brasileiro em 82, 83 e 84. Depois fui de novo em 90 e 93, já pela ABRASP. Em 94 eu fui Top 44 do circuito mundial, mas acabei abandonando por falta de estrutura.

 

Como foi essa fase?

Acabei desistindo porque, na época, eu tinha patrocínio de pranchas do Joca Secco, tinha sido campeão brasileiro no ano anterior, campeão paulista e top 44. Aí, em 94, perdi meu patrocínio, me separei da mulher do meu primeiro casamento e o cara não entregava minhas pranchas, tava competindo há um ano e meio com a mesma, uma 6 pés. Então não tinha condição, tava com a cabeça bem bagunçada e parei de competir em 94, mas voltei em 96.

 

Você ainda tem alguma pretensão de voltar pro WCT?

Vou falar pra você: se eu tivesse um patrocinador que me bancasse no WQS, com certeza em um ano eu estava entre os Top 46. Do que eu estou vendo no circuito, dava pra voltar fácil…

 

Você casou de novo há quanto tempo?

Eu estou casado pela segunda vez já há quatro anos, com a Marcela. Do primeiro casamento tenho três filhos, duas meninas e um menino. Agora eles estão com 15, 12 e 11 anos respectivamente. Mas nenhum pega onda, minha ex-mulher é evangélica e não gosta dessas coisas. Aliás, por conta disso, das brigas e etc, já faz um ano que não vejo meus filhos, resolvi deixar eles quietos lá com a mãe.

 

Sua esposa atual é argentina, certo? Como vocês se conheceram?

Essa é uma história muito interessante. Eu a conheci num campeonato em Mar Del Plata, em 96. Aí ela veio pra cá em 96 mesmo e ficou dois meses. Depois eu fui pra lá e conheci a família dela. Namoramos uns dois anos, ficamos noivos e casamos. Mas teve uma passagem que me marcou muito. Quando ainda estávamos namorando, brigamos e ficamos separados por seis meses, sem ver nem falar um com o outro. Aí fui correr um campeonato na Argentina e fiquei em segundo. Quando uma mulher lá veio me entregar o prêmio, ela tomou o troféu da mão dela e veio entregar pra mim, foi demais, todo mundo aplaudiu (rs). Depois disso a gente voltou e não separou mais. Pretendo ter filhos de novo, até porque não curti a fase legal dos meus filhos, pois estava sempre viajando, competindo… Minha segunda filha nasceu, eu tava na Europa e só fui vê-la depois de 25 dias…

 

Quem são seus amigos pessoais?

Olha, eu tenho poucos amigos de confiança mesmo, dá pra contar em uma mão e sobra dedo… Tem o Zé Roberto (Caiçara), que me ensinou a surfar, tem o João, um amigo que mora perto de casa, e o Pit, um cara de Santos que, quando eu morava no Guarujá, a gente ficava se mordendo, um queria pegar o outro… Aquela rixa Santos e Guarujá, sabe? E hoje o cara é um puta amigo meu, tá sempre junto, pega onda junto…

 

E no circuito, tem alguém?

Não, não… Meu, é difícil… A gente tem companheirismo, não amizade. Existe muita concorrência, a gente viaja junto, fica no mesmo hotel, mas não tem amizade, entendeu? A menos que eu não saiba o que é amizade, mas, pra mim, é o que eu sinto por essas pessoas que citei acima. É quando um deles me liga pra contar de um problema, eu saio da minha casa e vou ajudar, ou quando o cara pede tua opinião sobre um lance importante na vida dele, essas coisas… E vice-versa. Isso eu acho legal, isso é amizade.

 

E a caça, você continua fazendo? Como é essa tua relação com o mato?

Putz, eu parei com isso faz tempo, sabia? Tenho feito muita trilha, levado o pessoal da Florestal pra conhecer o mato, que eles não sabem andar no mato, não sabem nada… Mas isso é um lance muito louco, muito bom. A minha avó é índia da tribo Guarani, sabe, vive no interior do Paraná. Hoje ela vive em casa, mas tem a tribo que ela vai direto. Eu já fui lá com o meu tio, mas saiu todo mundo correndo (rs). Eles não estão acostumados com estranhos. Então eu sou descendente direto, minha mãe ainda é mais… Toda minha família tem essa relação com o mato. Tive várias experiências legais no mato… Hoje, se eu precisar disso pra salvar minha vida, numa guerra, ou algo assim, ta tranqüilo.

 

E como era sua rotina de caçador? Você ia pra caçar mesmo ou tinha outro propósito?

Na verdade eu ia pro mato pra meditar, adquirir paciência. Porque bateria de campeonato nada mais é do que um jogo de paciência. Você tem de vinte a trinta minutos pra pegar quatro ou cinco ondas boas. Então tudo isso era uma terapia pra mim, ficar em cima da árvore, concentrado, esperando o bicho… Muitas vezes o bicho vinha e eu deixava ir embora, porque era uma terapia mesmo. Mas já faz uns cinco anos que não vou mais pro mato caçar. Mas ali eu conheço tudo. Se me largar em Bertioga saio lá em Caraguatatuba.

 

Qual é sua comida favorita? E a que menos gosta?

Gosto muito de churrasco e feijoada, mas como de tudo. Na verdade, não tenho muito o costume de comer frutas, o que acabo substituindo por legumes, nem de beber água. Bebo pouquíssima água no dia-a-dia, às vezes fico até uma semana sem beber um copo de água. Minha mulher inclusive começou a me forçar a tomar chimarrão, pra compensar um pouco. Tamo sempre lá na praia e ela fala: toma, toma um pouco. Ah, e não gosto de comer quiabo, isso eu não me amarro.
 
Qual tipo de som você curte pra relaxar, ou pra ouvir antes de competir?

Gosto muito de sons tipo Enia, Enigma, bons pra relaxar… Mas também me amarro em coisas mais pesadas, como Raimundos, Dazaranha (banda do Sul), e reggaes como Tribo de Jah e vários outros. Mas antes de competir prefiro ficar concentrado, sem música.
 
Você faz algum tipo de preparo físico e/ou dieta alimentar para manter a forma?

Não tenho nenhuma dieta especial, apenas o que como no dia-a-dia… Atualmente pratico caça-submarina e capoeira, que já faço há um tempo, além de surfar sempre que tem onda… Também costumo nadar quando está flat e fazer bastante abdominal, em casa mesmo, pois o abdômen é o lugar que concentra boa parte das necessidades do físico em relação ao surf.

 

O que gosta de fazer quando não está no mar, como forma de lazer?

Quando não tem onda gosto de ficar em casa vendo TV com a mulher, ir ao cinema em Santos… Programas bem família mesmo. Às vezes vamos meio que ‘escondidos’ à São Paulo para passear, pegar um teatro e coisas do tipo.

 

Pratica outros esportes que não o surf?

Eu comecei a fazer snowboard há um ano, na Argentina, graças a minha mulher. Ficamos 25 dias numa estação em Ushuaia, onde uma amiga dela tem uma pousada. A sensação é demais, em alguns momentos é quase como pegar um tubão surfando. Ainda não tenho a base, mas já estou pegando o jeito. Quero praticar mais e evoluir. Também fiz jiu-jitsu durante oito meses e me amarrei. Só que não tem professor em Camburi, temos essa carência lá. Não dava pra ir todo dia pra Santos treinar, então acabei desencanando e estou parado.

 

Qual é sua disposição para pegar ondas grandes? Gosta ou apenas cai em campeonatos? E o Tow-in, já praticou?

Olha, eu realmente gosto de pegar mares grandes. Teve uma época que inclusive pensei em parar de competir para me de dedicar às ondas grandes. A última barca que peguei grande foi para o México, tinhas uns 10, 12 pés. Mas não estou bem preparado para isso agora. Porque para competir tem de ser leve, rápido, né. Já para ondas grandes precisa estar mais sarado, com as pernas mais fortes. Quando começaram a aparecer caras como o Burle, Eraldo, o Resende, falei pra minha mulher: olha aí, posso me dar bem nisso. Mas ela não gostou da idéia (rs). Também não tenho condições de me bancar, pois é um esporte caro, um jet-ski custa cerca de 17 mil dólares. Mas se pintar um patrocínio, posso pensar no caso. O Romeu (Bruno) me convidou pra fazer Tow-in, há uns anos. Teve até uma barca com a equipe dele pra uma laje em São Sebastião que tem uma onda animal, um tubão cabuloso. Eles tavam de jet e todos os equipamentos. Ele chegou a me oferecer a prancha dele, mas preferi ir na remada mesmo. Ali é um bom local pra treinar. Digo isso porque aqui no Brasil só podemos nos preparar para praticar em outros lugares. Infelizmente aqui não existem ondas ideais para Tow-in.

 

E qual foi a maior onda que você já pegou?

Foi no Hawaii, em 89. Peguei um mar em Phanton’s com uns 18 pés. Tava bem grande. Tava o Marcus Brasa, Léo Chinês, Kias de Souza e Eric Miyakawa. Eles caíram e eu fui um tempo depois. Perguntei: pegaram onda? Eles disseram que não, então falei para entrarmos de novo, fiquei botando pilha. Aí caímos e peguei logo uma bem grande, de uns 18 pés. Depois todos se deram bem, foi muito legal. Não vou ao Hawaii desde 94. Depois que tive alguns problemas pessoais, dei um tempo. Mas quero ir em breve, é importante estar no Hawaii. É lá que o surfista projeta seu plano de marketing para o próximo ano.

 

Cite algumas de suas ondas preferidas.

Jeffrey’s Bay, na África do Sul, Winkipop, na Austrália, Puerto Escondido, no México, Backdoor, no Hawaii, Maresias, Camburi e Montão do Trigo, em São Sebastião, Pitangueiras e praia do Tombo, no Guarujá. No Brasil, as mais pesadas são Paúba e Maresias.

 

Um fato marcante na carreira.

Bem, por incrível que pareça foi em fevereiro deste ano, em Camburi, onde moro há dez anos. Já viajei por muitos lugares do mundo, peguei Sunset grande, México grande, mas nunca imaginei que ia passar o sufoco que passei em Camburi. Tomei um caldo nervoso e fiquei quatro ondas embaixo da água… Quando saí, minha língua estava dormente, o corpo todo formigando, vendo estrelinhas… (rs). Pô, eu acho que só agüentei porque estou fazendo treinos de apnéia, senão acho que tinha apagado.

 

Na sua opinião, o que representou a mudança do circuito brasileiro com a entrada do SuperSurf?

Olha, no começo eu gostei da mudança, mas depois cheguei à conclusão de que o Brasil é um celeiro muito grande de talentos, e fechar o circuito para 44 atletas é desperdício. Tem muita gente boa que não está na elite e teria condição de ser campeão brasileiro. Acho que pro ano que vem já pode acontecer de abrir. Pra mim seria bom manter assim, venho aqui, passo duas baterias e tô garantido pro ano que vem. Mas não acho justo. Nem disputo as provas do SuperTrials para dar chance pra galera que ta lá ralando. Teve até uma reunião da ABRASP no começo do ano e falei que achava que quem estava garantido pelo SuperSurf tinha que correr a triagem desde o início, e quem corre o Trials e não tem pontuação teria os pré-classificados pra dar oportunidade pro pessoal. No conselho acharam que eu estava louco.

 

Em quem da nova geração brasileira você apostaria suas fichas como um futuro campeão mundial?

Dos que competem aqui, no SuperSurf, eu aposto no Trekinho. Acredito que ele seja o melhor surfista carioca no momento. Ele ainda é novo, falta experiência de competição, tem que amadurecer. O Bernardo Pigmeu também é muito bom, além do Jihad (Kohdr). E tem uma garotada no sul, entre 8 e 12 anos, que arrebenta. Quando essa molecada crescer, vai ser difícil segurar. Só não fomos campeões mundiais ainda porque os juizes não deixam. Mas uma hora “eles vão ter que nos engolir”.

 

Como você avalia o julgamento dos eventos atualmente?

Esse é um ponto delicado. Eu acho que deve haver uma reformulação geral na forma de julgamento. O que acontece hoje em termos de circuito mundial… Na década de 80 o julgamento mudou por causa do Martin Potter, ele era super prejudicado. Tinha o Dave Macaulay, que fazia a onda certinha, enquanto o Potter era explosivo, dava aéreo e outras manobras radicais e ninguém dava nota pra ele. Então, o que adianta ser um surfista inovador, um talento, e não ter nota? Aí vem o outro, no esquema batida/cutback, batida/cutback, e ganha de você…

 

A que você atribui isso? Acha que os juizes não acompanharam a evolução natural do esporte?

O problema é que não houve uma renovação no quadro de juizes. Os que estão atuando hoje são os mesmos que estavam na minha época de garoto. E se eu sair, se o Jojó e o Pedro (Muller) saírem, eles ainda vão ficar por muito tempo. Então a gente está lutando por uma chapa nova pra mudar isso aí.

 

Explica melhor essa história. É pra concorrer à eleição da ABRASP, no final do ano?

Essa chapa ainda não está totalmente definida, estamos conversando pra definir quem ocuparia os cargos e etc. Mas estamos a fim de fazer uma renovação benigna pro esporte de uma forma geral. Os envolvidos são, além de mim, o Guga Arruda, o Falcão (Pedro) seria uma pessoa, mas parece que não tem tempo, o Bira (Schauffer), aqui do Sul, uma pessoa super organizada e responsável pelos melhores circuitos já realizados no Brasil, o catarinense. Aí o presidente e o vice indicariam os outros cargos… A eleição rola no final do circuito, no Rio de Janeiro, depois da última etapa, na Prainha, acho que no dia 7 de novembro.

 

Quem vota nessa eleição?

O conselho dos surfistas vota, as federações – catarinense, paulista, gaúcha e carioca votam. Quem faz campeonato tem direito de voto, paga taxa pra ABRASP, essas coisas… A gente quer fazer uma mudança no esporte para melhor, tirar essa situação de comodismo. Existem pessoas novas querendo trabalhar, com boas idéias…  Tá bem legal o negócio.

 

E vocês manteriam alguém da atual diretoria no caso de uma vitória?

Algumas pessoas sim, que são influentes e conhecem bastante o esquema, como o Klaus Kaiser, por exemplo. O Pedro Muller também, só depende dele. Precisamos saber se ele quer continuar, quais são os planos dele para o futuro. Entre os juizes ficariam o Papel (irmão do Binho Nunes) e o Paulo Mota. Mas pra fazer essa renovação dos juizes é preciso mudar a atual diretoria da ABRASP, pois são eles que mantém os que estão aí, e há um comodismo generalizado de ambas as partes.

 

O que a nova chapa pretende fazer pra retomar os circuitos regionais do país, que estão falidos e servem de base para o brasileiro e mundial?

Eles realmente são a base para a renovação dos surfistas nos circuitos brasileiro e mundial. Pretendemos dar nova vida à tudo isso, valorizar o surf do jeito que ele merece. Eu chamo isso de incompetência de vender um produto alucinante, no caso o surf. Hoje existe uma pessoa na federação que ninguém aceita, e foi eleita por unanimidade pelas associações locais porque manipulou a votação na Federação Paulista. E essas mesmas pessoas pertencem à APS (Associação Paulista de Surf). Então, eles não têm aceitação no mercado de surfwear e não conseguem elaborar um projeto para vender para outras empresas. Aí ficam batendo de porta em porta e recebem não atrás de não. Enquanto não houver uma modificação nessa diretoria não vai haver campeonato…

 

Você acha que a Abril vai renovar o SuperSurf pra o próximo ano?

Bom, é uma coisa difícil de dizer, porque eu não sei quais são os planos da Abril… Eu acredito que a Volkswagen vai pressionar, porque está lançando um modelo de carro com o nome do circuito (a Saveiro SuperSurf), tem a SunCoast que acabou de entrar como patrocinadora. Mas eu acho que ainda tem muito o que melhorar no circuito. No primeiro ano tava demais, eu melhoraria um pouco a premiação apenas. Eu acho que se você vende um circuito rico, ele será sempre rico, e a recíproca também é verdadeira. Então eles estão vendendo uma coisa pobre e estão enriquecendo sozinhos. Se estivessem vendendo uma coisa rica, ficariam milionários…

 

Mas vender um circuito rico significa vender mais caro?

Sim, mais caro… Suponhamos que a premiação por campeonato fosse em torno de R$ 1 milhão. Ficaria muito mais fácil vender um pacote por R$ 5 milhões. Quanto mais renda de premiação, maior o ganho… Isso é óbvio, se um produto é rico, ele vai valorizar todos os envolvidos. Eu elaborei e estou vendendo um projeto por um milhão e meio, e já existem várias empresas interessadas… E fora do surfwear, é um projeto totalmente desvinculado das empresas de surfwear.

 

Como é esse projeto?

É um campeonato brasileiro de seleções, que aconteceria paralelo ao SuperSurf, com quatro etapas e totalmente independente. Cada Estado entra com dez atletas e um técnico. Acredito que a partir de janeiro já teremos algo em termos de calendário. Na minha opinião, o grande problema da ABRASP é que eles se acostumaram com os patrocínios sempre caindo no colo, mas nunca duraram muito, as marcas acabam sempre caindo fora, não há uma continuidade. Eles nunca foram à uma agencia de propaganda, ou de repente licenciar a marca ABRASP, que é alucinante, pra vender um produto, ter um ganho financeiro em cima disso… Tem tantas coisas a serem feitas, eu não entendo porque não fazem. Eu acho a sede da entidade deve estar em São Paulo e no Rio de Janeiro, que é onde estão a mídia e o dinheiro. Aqui no Sul é tudo muito bonito, bacana, mas falta alguma coisa.

 

Tinga, você já está quase na casa dos “enta”. De onde tira motivação para continuar competindo?

Acho que o amor pelo esporte faz com que você prolongue por muito tempo a carreira, principalmente se você vive do esporte, se é sua profissão. E se você tem êxito, se corre atrás dos seus objetivos, sua vida vai longe.

 

O que pretende fazer quando parar de competir?

É difícil dizer. Eu e minha esposa temos alguns negócios imobiliários em São Sebastião, e também costumo investir em terrenos. Mas não dá pra prever, às vezes a gente planeja uma coisa e acontece tudo diferente. Até 95 tudo o que eu planejei se concretizou, mas de lá pra cá foi rolando tudo ao contrário, então decidi deixar rolar. Tudo vai depender também do que acontecer após as eleições da ABRASP. Mas eu tenho vários planos, e não vou me afastar do surf, isso é o que eu sei fazer melhor. Eu sou presidente da Liga Brasileira, pouca gente sabe que a liga existe, mas ela ta aí. Se não me engano é o único órgão nivelado às federações registrado na Receita Federal, é uma empresa, sem fins lucrativos…

 

Quem integra e o que faz a Liga?

A Liga é como a ABRASP, só que eu não posso fazer circuito brasileiro porque a ABRASP faz. Estou organizando as coisas e pretendo fazer esse circuito (seleções) pro ano que vem, que seria feito pela Liga. Depois quero fazer um campeonato de Masters e, se a Federação Paulista continuar ruim, quero fazer o circuito Paulista pela Liga também. A Marcela, minha esposa, é a secretária, o Renan (Rocha) é o vice-presidente, o Jojó (Olivença) é o tesoureiro e o Guga Arruda é o diretor-técnico.

 

Quero falar de um ponto delicado com você, sobre teus patrocinadores ao longo da carreira. Você nunca parou em lugar nenhum e muita gente te chama de mercenário. O que você tem a dizer?

Cara, você me fez uma pergunta que nunca ninguém fez e eu queria muito esclarecer isso. Vamos começar pelo início. Meu primeiro patrocinador, a OP, foi onde fiquei mais tempo, foram oito anos. Mas acabei tendo que sair porque a marca, do Sidão (Tenucci), de quem sou amigo, tava meio mal. Na seqüência fechei com a Wrangler, fiquei um tempo, aí o Sidão melhorou e voltei pra ele e fiquei mais dois anos. Aí ele quebrou de novo e saí fora, fui pra Sundek, isso em 89. Fiquei quatro anos lá, fui campeão paulista e brasileiro em 90. Na época eu tinha um técnico que sabia tudo o que rolava na equipe, inclusive foi ele que me levou pra equipe. Aí eu tava indo negociar meu salário e fui conversar com ele. Falei: olha, vou pedir tanto, você acha que é muito? Ele disse: não, acho que é ideal, vamos fechar. Aí cheguei na empresa, fomos pra reunião e falei com os donos. Eles concordaram com o valor que eu pedi. Não é que o técnico vira e fala: eu acho que é muito. Isso no meio da reunião. Pô, se os donos concordaram, como é que ele vira e fala isso? Foi uma situação muito constrangedora, porque eu era o patrocinado, ele era o técnico e me levou pra equipe. E eu tava vendo que a gente podia sair na porrada a qualquer momento. Ele era meu amigo, desde 79 viajávamos juntos. Depois de um mês e meio pedi para sair antes que acontecesse isso. Eles chegaram a pedir pra eu ficar, dizendo que desmanchariam a equipe e ficariam apenas comigo, mas não topei. Então saí e fechei com a 775. Tinha um patrocínio alucinante, o dono era uma excelente pessoa. Só que ele contratou um cara chamado Alex, um alemão. Na época eu ganhava um ótimo salário, e esse cara começou a me “tisorar”. Depois de ser campeão brasileiro pela 775, ganhar um carro da marca, eu tava no WCT e tinha que viajar e tal. Aí falei pra ele que o visto pra Austrália demorava pra sair, pra ele agilizar isso pra mim. No dia do embarque, meu passaporte tava na gaveta dele, sem o visto. Não acreditei, e a situação só piorou depois. Um dia, começamos a falar da vida pessoal, falei que ganhava muito bem, e ele não se conformou que um surfista que passava o dia na praia ganhasse dez mil dólares, enquanto ele, que era formado em Nova Iorque, ganhava mil e quinhentos (na época). Começamos a nos estranhar, e como ele ficava doze horas por dia com o proprietário falava o que queria sobre mim, me queimou na empresa. Saí mais uma vez e fechei com a Onbongo depois de um tempo. Depois de um ano e meio lá, me mandaram embora sem nenhum motivo. Eles me pagaram viagens pra Europa, pra tudo quanto é lugar. Quando voltei, fui conversar com o dono, agradecer, dizer como tinha sido e ele nem quis me receber, me deixou três horas esperando e outro cara veio me dizer que ele não ia me atender, que eu tava despedido. Três meses depois, fui pra um campeonato em Recife e vi um pôster gigante com foto minha, camisetas com quadricomia minha… Isso foi em 97. Em 2000, três anos depois, comprei em Santos uma camisa da Onbongo com foto minha. Entrei com processo na Justiça. Aí ele começou a ligar pra todo mundo e queimar meu filme. Teve uma vez que eu tava praticamente fechado com o Álfio (Lagnado), depois de um vice num campeonato Hang-Loose, ele ligou lá e não fechamos, começou a perseguição. Não sei qual é o problema comigo, não fui eu que quis as coisas assim. Fiquei um ano correndo pela The Realm sem receber nada, sabe por quê? Ele falou que não tinha como pagar, eu falei: não tem problema, nós vamos trabalhando, eu te ajudo e quando as coisas melhorarem a gente acerta. É difícil, cara… Isso é uma coisa que eu queria muito esclarecer. Eu nunca tive ninguém, nenhum patrocinador que investisse na minha imagem, que me pegasse e fizesse um trabalho sério, profissional. Tudo o que eu consegui até hoje, os títulos, as vitórias, foi sempre graças ao meu próprio esforço.

 

E como está o patrocínio atual, com a The Realm?

Tá meio complicado. Eles já passaram pro Guga (Arruda) que talvez não renovem pro ano que vem, não sei. Eles me pagam um salário pra fazer free-surf, não querem que eu esteja competindo. Mas também não pagam viagem, então vou ficar em casa fazendo o quê? Pego o dinheiro e venho competir… Preciso arrumar outro patrocínio forte pra ficar estabilizado. E eu me amarro em estar aqui, não consigo ficar em casa. Mas hoje são  poucas as empresas do surfwear que investem em atletas, tirando o Álfio, né. Eles preferem fazer páginas de anúncio, essas coisas. Mas isso acontece porque não se investe em ídolos. E porque não existe uma emissora como a Globo envolvida no negócio, tá faltando isso. Nas reuniões eu sempre falo: tá gastando quatrocentos mil em algum canto? Pega esse dinheiro e paga pra Globo cobrir no Esporte Espetacular, por exemplo.

 

Pra encerrar, tem algum lugar no mundo que você ainda gostaria de conhecer?

Tem, em 27 anos de surf eu nunca fui pra Indonésia nem pro Tahiti (rs). Gostaria muito de conhecer esses lugares, são alucinantes, parques de diversões pra todos os tipos de manobra. Tá faltando um patrocinador pra dizer: vai, vai e se diverte, faz a mala (rs).

 

Algum nome pra levar o SuperSurf esse ano?

Acredito que o Wagner Pupo pode se dar bem. Ele tá bem consistente esse ano, tem bons resultados, está focado e merece.

 

Deixe um recado pra galera.

Acho importante dizer que com dedicação e amor pode se conseguir tudo na vida. E paz de espírito também, isso é fundamental para ser feliz. Se você estiver em paz com você mesmo, com Deus, tudo é possível, e o universo acaba conspirando a seu favor.

 

 

*Colaborou: Salvador Anselmi Neto, Dodô.

 

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    ATUALIZAÇÃO: 21/08/2026, às 12h36 (horário de Brasília) Victor Bernardo e sua esposa, Johnni, apresentam evolução no quadro de saúde após o grave acidente de carro sofrido na Califórnia, nos Estados Unidos. Os dois já passaram por cirurgias e, segundo Mike Townsend, manager do surfista, estão conscientes, de bom humor e otimistas. Victor sofreu uma fratura na perna e um ferimento grave acima do joelho. O brasileiro passou por uma nova cirurgia na quarta-feira. Inicialmente, os médicos instalaram uma estrutura externa para estabilizar a perna, mas o equipamento já foi retirado. Segundo Townsend, a evolução indica a possibilidade de uma recuperação mais rápida do que se imaginava inicialmente. Johnni também passou por uma cirurgia considerada bem-sucedida. Ela sofreu uma hemorragia interna no abdômen e fraturas na face em consequência do acidente. Os ferimentos foram tratados cirurgicamente. De acordo com Townsend, os dois permanecem positivos diante de tudo o que enfrentaram nos últimos dias. Até o momento, nenhum deles tem previsão de alta hospitalar. Abaixo, você confere a matéria publicada originalmente sobre o acidente: O guarujaense Victor Bernardo e a esposa, Johnni, permanecem hospitalizados depois de sofrerem um grave acidente de carro na Califórnia, nos Estados Unidos, na noite do último domingo (16). O veículo em que o casal estava se envolveu em uma colisão com um caminhão. Vitinho foi levado de helicóptero ao hospital. O surfista sofreu uma fratura na perna e precisará passar por cirurgia. Johnni foi transportada de ambulância e também permanece sob cuidados médicos. De acordo com as informações divulgadas até o momento, o quadro dela inspira mais atenção, mas não há risco de morte. As circunstâncias exatas da colisão e o local onde ela aconteceu não foram divulgados. O cineasta Logan Dulien, amigo do casal, afirmou que o acidente poderia ter sido fatal e que os dois deverão enfrentar um longo período de recuperação. A notícia mobilizou a comunidade internacional do surfe nas redes sociais. Mick Fanning, Coco Ho, Kanoa Igarashi, Raimana Van Bastolaer e Mikey February estão entre os nomes que manifestaram apoio ao casal. Natural do Guarujá (SP), Victor Bernardo, conhecido também como Vitinho, ganhou projeção ainda jovem no surfe brasileiro. Em 2013, aos 16 anos, conquistou o título brasileiro Pro Junior, em uma geração que também revelou nomes como Italo Ferreira e Caio Ibelli. Ao longo da carreira, disputou etapas do circuito de acesso à elite mundial e competições em diferentes países. Nos últimos anos, Victor passou a dedicar maior parte da carreira ao free surf e à produção de conteúdo ligado ao surfe. O brasileiro se estabeleceu na Califórnia e continuou diretamente ligado ao esporte. Victor nasceu em 8 de fevereiro de 1997 e tem a Praia do Tombo, no Guarujá, como sua onda favorita. Neste momento, toda a equipe do Waves deseja muita força a Victor e Johnni e torce por uma recuperação completa e tranquila do casal. Veja mais sobre Vitinho: Album Surf retrata perfeição Novo capítulo da Album Victor Bernardo inspirado no Havaí Victor Bernardo poderoso Victor Bernardo performático Sopa de peixe Victor Bernardo na estileira Papo com Victor Bernardo Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Waves (@waves.com.br)

    Surfista brasileiro Victor Bernardo e sua esposa Johnni são hospitalizados após colisão nos Estados Unidos. Atleta sofreu fratura na perna e precisa passar por cirurgia.

    Teahupoo mostrou mais uma vez por que é uma das etapas mais aguardadas do Circuito Mundial. Tubos, notas altas, baterias apertadas e eliminações de alguns dos principais nomes da temporada marcaram a sétima parada do Championship Tour 2026, o Outerknown Tahiti Pro. Seth Moniz e Erin Brooks ficaram com os títulos. Para o Brasil, o grande destaque foi Italo Ferreira, que chegou às semifinais e deixou a Polinésia Francesa na liderança do ranking mundial. Primeira vitória de Seth Moniz Seth Moniz viveu em Teahupoo o maior momento de sua carreira no Championship Tour. Em sua sétima temporada na elite, o havaiano conquistou sua primeira vitória no CT ao derrotar Griffin Colapinto na decisão. A campanha foi construída desde o Round 1. No caminho até o título, Seth passou por Eimeo Czermak, Yago Dora, Barron Mamiya e Alan Cleland antes de encontrar Italo Ferreira nas semifinais. Depois de superar o brasileiro, derrotou Griffin na decisão. Na final, Seth venceu por 18,17 a 14,67, garantindo o primeiro troféu de sua carreira no CT. O resultado também provocou uma grande mudança em sua temporada: ele saltou 12 posições e chegou ao 19º lugar no ranking. Italo veste a lycra amarela Italo Ferreira chegou ao último dia de competição como principal esperança brasileira e avançou às semifinais ao derrotar Ethan Ewing nas quartas. O potiguar começou a bateria com um tubo para 5,33 e depois encontrou uma onda que rendeu 7,17. Na reta final, ainda conseguiu um 8,33 para fechar a disputa com 15,50 pontos contra 11,94 do australiano. Na semifinal contra Seth Moniz, Italo chegou a abrir boa vantagem. O brasileiro liderava por 12,50 a 5,50, mas o havaiano cresceu na parte final da bateria, recebeu 7,83 e 7,93 e virou o confronto. Seth avançou com 15,76 contra 13,83, enquanto Italo terminou a etapa na terceira colocação. Mesmo eliminado, o saldo do brasileiro foi importante na corrida pelo título mundial. Com os 6.085 pontos conquistados em Teahupoo, Italo chegou a 39.930 pontos e abriu 5.000 de vantagem sobre Leonardo Fioravanti, vice-líder. O Brasil ainda ocupa quatro das cinco primeiras posições do ranking: além de Italo na liderança, Yago Dora aparece em terceiro, Miguel Pupo em quarto e Gabriel Medina em quinto. Erin Brooks vira final e conquista o título No feminino, Erin Brooks protagonizou uma reação na decisão contra Anat Lelior. A israelense abriu vantagem e chegou à metade da bateria com duas ondas excelentes, 8,33 e 8,00. Brooks reagiu primeiro com um 8,27 e depois encontrou outro tubo para 8,93, assumindo a liderança. A canadense venceu por 17,20 a 16,33. Foi a primeira vitória de Erin como integrante fixa do Championship Tour. A canadense, de 19 anos, havia começado o Finals Day eliminando a atual campeã mundial e defensora do título da etapa, Molly Picklum, e depois passou por Isabella Nichols na semifinal. Com o resultado, Brooks subiu sete posições e chegou ao 11º lugar do ranking. Anat Lelior também deixou Teahupoo com o maior resultado de sua carreira. O vice-campeonato representou a primeira final de um surfista de Israel no Championship Tour. Slater desafia o tempo Aos 54 anos, Kelly Slater foi um dos grandes personagens da etapa. O 11 vezes campeão mundial eliminou Gabriel Medina em um dos confrontos mais aguardados do campeonato e fez isso com uma atuação que entrou para os destaques do ano. Slater somou 19,06 pontos na bateria, mostrando mais uma vez sua sintonia com Teahupoo. Sua campanha terminou nas oitavas de final, diante de Jack Robinson, mas não antes de o norte-americano voltar a deixar sua marca no campeonato onde construiu alguns dos maiores momentos de sua carreira. Brasileiros em Teahupoo Além da semifinal de Italo, João Chianca, Alejo Muniz e Miguel Pupo chegaram às oitavas de final. Miguel foi superado por Griffin Colapinto, enquanto Chumbinho e Alejo também se despediram nesta fase. Gabriel Medina havia sido eliminado anteriormente por Kelly Slater. No feminino, Luana Silva caiu no Round 2 diante da portuguesa Yolanda Hopkins. Próxima parada: Fiji Encerrado o Tahiti Pro, o Championship Tour permanece no Pacífico Sul. A próxima etapa será disputada em Cloudbreak, Fiji, com janela entre 25 de agosto e 4 de setembro. “A gente segue na disputa. É uma longa jornada e tenho que colocar o pezinho no chão para trabalhar campeonato a campeonato” Italo Ferreira, campeão mundial de 2019 Italo chega à próxima etapa com a lycra amarela, mas evita antecipar qualquer possibilidade de disputa pelo segundo título mundial. O brasileiro já definiu também seu próximo objetivo: conquistar pela primeira vez a etapa de Fiji. Ranking Mundial após 7 etapas 1 Italo Ferreira (BRA) — 39.930 pontos2 Leonardo Fioravanti (ITA) — 34.9303 Yago Dora (BRA) — 33.9504 Miguel Pupo (BRA) — 30.4505 Gabriel Medina (BRA) — 28.6106 Ethan Ewing (AUS) — 28.5757 George Pittar (AUS) — 26.7058 Griffin Colapinto (EUA) — 26.2909 Samuel Pupo (BRA) — 25.64010 Liam O’Brien (AUS) — 23.18515 João Chianca (BRA) — 19.04517 Filipe Toledo (BRA) — 18.15024 Alejo Muniz (BRA) — 13.96030 Mateus Herdy (BRA) — 10.240 Chaves de baterias Masculino Round 1 1 Ramzi Boukhiam (MAR) 8.17 x 3.93 Oscar Berry (AUS)2 Luke Thompson (AFS) 5.50 x 0.77 Matthew McGillivray (AFS)3 Seth Moniz (HAV) 14.50 x 14.17 Eimeo Czermak (TAH)4 Eli Hanneman (HAV) 4.53 x 16.23 Kelly Slater (EUA) Round 2 1 Kauli Vaast (FRA) 13.50 x 10.16 Crosby Colapinto (EUA)2 Samuel Pupo (BRA) 5.00 x 6.00 Alan Cleland (MEX)3 Yago Dora (BRA) 14.33 x 15.97 Seth Moniz (HAV)4 Marco Mignot (FRA) 7.84 x 9.07 Barron Mamiya (HAV)5 Filipe Toledo (BRA) 1.63 x 4.06 Connor O’Leary (JAP)6 Italo Ferreira (BRA) 9.17 x 1.87 Luke Thompson (AFS)7 Liam O’Brien (AUS) 9.33 x 7.83 Jake Marshall (EUA)8 Ethan Ewing (AUS) 14.17 x 12.33 Joel Vaughan (AUS)9 Leonardo Fioravanti (ITA) 13.50 x 15.67 Ramzi Boukhiam (MAR)10 Morgan Cibilic (AUS) 15.90 x 17.83 João Chianca (BRA)11 Kanoa Igarashi (JAP) 4.00 x 7.07 Alejo Muniz (BRA)12 George Pittar (AUS) 14.16 x 7.50 Cole Houshmand (EUA)13 Gabriel Medina (BRA) 16.10 x 19.06 Kelly Slater (EUA)14 Jack Robinson (AUS)

    Seth Moniz conquista primeira vitória no CT, Erin Brooks vence entre as mulheres e Italo Ferreira deixa o Taiti na liderança do ranking após chegar às semifinais do Outerknown Tahiti Pro 2026.

    A próxima chamada o Outerknown Tahiti Pro 2026 acontece nesta segunda-feira (10) às 14h (de Brasília). Depois de mais de um mês de paralisação desde o Rio Pro, em Saquarema, o Championship Tour da WSL retorna para uma das ondas mais desafiadoras do planeta: Teahupoo, no Taiti. Clique aqui para assistir ao vivo no site da WSL Clique aqui para saber tudo sobre a etapa de Teahupoo A janela de competição acontece entre os dias 8 e 18 de agosto. Uma das solicitações mais frequentes desde o lançamento da nova plataforma foi o retorno dos comentários e debates em tempo real durante as etapas do Circuito Mundial. Por isso, o Waves volta a abrir o espaço para a comunidade acompanhar, comentar e trocar opiniões ao longo das baterias. Durante muitos anos, esse encontro entre surfistas fez parte da cobertura dos eventos no Waves. Agora, a tradição retorna renovada, mantendo o que sempre foi mais importante: a participação da comunidade. Feito de surfista para surfista, o Waves acredita que acompanhar uma etapa vai muito além de assistir às baterias. É também comentar o que acontece nas entrelinhas, discutir as notas, defender seus favoritos e trocar ideias com outros apaixonados por surfe. Ranking Mundial após 7 etapas 1 Italo Ferreira (BRA) — 39.930 pontos2 Leonardo Fioravanti (ITA) — 34.9303 Yago Dora (BRA) — 33.9504 Miguel Pupo (BRA) — 30.4505 Gabriel Medina (BRA) — 28.6106 Ethan Ewing (AUS) — 28.5757 George Pittar (AUS) — 26.7058 Griffin Colapinto (EUA) — 26.2909 Samuel Pupo (BRA) — 25.64010 Liam O’Brien (AUS) — 23.18515 João Chianca (BRA) — 19.04517 Filipe Toledo (BRA) — 18.15024 Alejo Muniz (BRA) — 13.96030 Mateus Herdy (BRA) — 10.240 Chaves de baterias Masculino Round 1 1 Ramzi Boukhiam (MAR) 8.17 x 3.93 Oscar Berry (AUS)2 Luke Thompson (AFS) 5.50 x 0.77 Matthew McGillivray (AFS)3 Seth Moniz (HAV) 14.50 x 14.17 Eimeo Czermak (TAH)4 Eli Hanneman (HAV) 4.53 x 16.23 Kelly Slater (EUA) Round 2 1 Kauli Vaast (FRA) 13.50 x 10.16 Crosby Colapinto (EUA)2 Samuel Pupo (BRA) 5.00 x 6.00 Alan Cleland (MEX)3 Yago Dora (BRA) 14.33 x 15.97 Seth Moniz (HAV)4 Marco Mignot (FRA) 7.84 x 9.07 Barron Mamiya (HAV)5 Filipe Toledo (BRA) 1.63 x 4.06 Connor O’Leary (JAP)6 Italo Ferreira (BRA) 9.17 x 1.87 Luke Thompson (AFS)7 Liam O’Brien (AUS) 9.33 x 7.83 Jake Marshall (EUA)8 Ethan Ewing (AUS) 14.17 x 12.33 Joel Vaughan (AUS)9 Leonardo Fioravanti (ITA) 13.50 x 15.67 Ramzi Boukhiam (MAR)10 Morgan Cibilic (AUS) 15.90 x 17.83 João Chianca (BRA)11 Kanoa Igarashi (JAP) 4.00 x 7.07 Alejo Muniz (BRA)12 George Pittar (AUS) 14.16 x 7.50 Cole Houshmand (EUA)13 Gabriel Medina (BRA) 16.10 x 19.06 Kelly Slater (EUA)14 Jack Robinson (AUS) 18.20 x 17.40 Callum Robson (AUS)15 Griffin Colapinto (EUA) 19.60 x 8.50 Rio Waida (IND)16 Miguel Pupo (BRA) 13.50 x 1.94 Mateus Herdy (BRA) Round 3 1 Kauli Vaast (FRA) 12.00 x 12.34 Alan Cleland (MEX)2 Seth Moniz (HAV) 12.10 x 9.04 Barron Mamiya (HAV)3 Connor O’Leary (JAP) 10.33 x 11.66 Italo Ferreira (BRA)4 Liam O’Brien (AUS) 6.66 x 7.67 Ethan Ewing (AUS)5 Ramzi Boukhiam (MAR) 14.00 x 9.10 João Chianca (BRA)6 Alejo Muniz (BRA) 2.10 x 13.66 George Pittar (AUS)7 Kelly Slater (EUA) 8.46 x 15.00 Jack Robinson (AUS)8 Griffin Colapinto (EUA) 16.67 x 15.17 Miguel Pupo (BRA) Quartas de final 1 Alan Cleland (MEX) 1.50 x 13.66 Seth Moniz (HAV)2 Italo Ferreira (BRA) 15.50 x 11.94 Ethan Ewing (AUS)3 Ramzi Boukhiam (MAR) 17.74 x 8.84 George Pittar (AUS)4 Jack Robinson (AUS) 11.50 x 11.83 Griffin Colapinto (EUA) Semifinais 1 Seth Moniz (HAV) 15.76 x 13.83 Italo Ferreira (BRA)2 Ramzi Boukhiam (MAR) 8.37 x 15.40 Griffin Colapinto (EUA) Final 1 Seth Moniz (HAV) 18.17 x 14.67 Griffin Colapinto (EUA) Feminino Round 1 1 Sally Fitzgibbons (AUS) 1.67 x 4.16 Anat Lelior (ISR)2 Tya Zebrowski (FRA) 2.00 x 6.90 Erin Brooks (CAN)3 Isabella Nichols (AUS) 8.77 x 7.13 Vahine Fierro (FRA)4 Stephanie Gilmore (AUS) 3.90 x 4.73 Yolanda Hopkins (POR)5 Alyssa Spencer (EUA) 5.00 x 1.93 Bella Kenworthy (EUA)6 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 4.44 x 6.00 Brisa Hennessy (CRC)7 Nadia Erostarbe (ESP) 8.67 x 4.66 Francisca Veselko (POR)8 Tyler Wright (AUS) 4.57 x 5.34 Kelia Gallina (TAH) Round 2 1 Caroline Moore (HAV) 8.90 x 11.83 Erin Brooks (CAN)2 Molly Picklum (AUS) 9.50 x 3.56 Alyssa Spencer (EUA)3 Sawyer Lindblad (EUA) 6.67 x 7.16 Isabella Nichols (AUS)4 Lakey Peterson (EUA) 4.73 x 4.90 Nadia Erostarbe (ESP)5 Gabriela Bryan (HAV) 1.46 x 12.73 Anat Lelior (ISR)6 Caroline Marks (EUA) 5.50 x 8.27 Kelia Gallina (TAH)7 Luana Silva (BRA) 3.97 x 10.17 Yolanda Hopkins (POR)8 Caity Simmers (EUA) 13.50 x 1.33 Brisa Hennessy (CRC) Quartas de final 1 Erin Brooks (CAN) 13.50 x 3.27 Molly Picklum (AUS)2 Isabella Nichols (AUS) 7.83 x 7.26 Nadia Erostarbe (ESP)3 Anat Lelior (ISR) 9.50 x 6.53 Kelia Gallina (TAH)4 Yolanda Hopkins (POR) 12.33 x 6.90 Caity Simmers (EUA) Semifinais 1 Erin Brooks (CAN) 15.10 x 11.17 Isabella Nichols (AUS)2 Anat Lelior (ISR) 12.50 x 3.43 Yolanda Hopkins (POR) Final 1 Erin Brooks (CAN) 17.20 x 16.33 Anat Lelior (ISR))

    Confira ao vivo o Outerknown Tahiti Pro 2026 e participe dos comentários e debates no nosso fórum, durante as etapas da WSL.

    Etapa Natal chegou ao fim neste domingo nas areias da Praia de Miami com vitórias de Daniella Rosas e Douglas Silva. Com status QS 4.000 da World Surf League (WSL), a etapa é válida tanto para o ranking sul-americano 2026/27 da WSL South America quanto para o Circuito BB na temporada. O domingo começou com as Quartas de Final masculina, seguidas pelas Semifinais nos dois naipes, e na sequência foi a vez da grande decisão em ambas as categorias, com aumento de tempo para 35 minutos por confronto para dar mais tranquilidade aos competidores na escolha das ondas no litoral potiguar. Douglas Silva desbanca líder do ranking para celebrar a vitória Em um duelo entre Santa Catarina e Pernambuco, Douglas Silva (BRA) conquistou sua primeira vitória no Circuito Banco do Brasil de Surfe, superando o catarinense Luan Wood (BRA), líder do ranking do QS sul-americano e do Circuito BB, embalado pelo título da etapa de Imbituba. Em uma final eletrizante na Praia de Miami, Douglas começou forte e abriu a disputa com uma onda 8,50, e Luan respondeu logo na sequência, marcando 8,07 pontos ao trabalhar muito bem as manobras de base-lip. Luan precisava de 7,14 pontos para virar o resultado e ainda teve uma última oportunidade quando os dois surfistas conseguiram pegar ondas a menos de 30 segundos do fim, mas o  catarinense recebeu 6,50 e não conseguiu a virada, confirmando Douglas Silva como grande campeão da etapa de Natal. “Primeiramente, agradecer a Deus por esse momento. Estou muito feliz, estava me sentindo bem desde o começo do evento. Estava leve. Quero agradecer a todos pela torcida, aos meus patrocinadores que acreditam no meu sonho e no meu futuro, ao meu coach Alan… Aproveitar pra dar um feliz Dia dos Pais pra todo mundo. Muito feliz de sair com a primeira vitória no Circuito BB. Seguir firme e forte trabalhando, o trabalho não para”, celebra o campeão, que completa: “Eu sempre falo pra todo mundo que nossa vida é ganha nos mínimos detalhes e é algo que eu tenho trabalhado bastante com meu coach. Estamos ajudando muito isso. 1% melhor a cada dia. Deus colocou pessoas boas na minha vida e está dando certo. A gente trabalha todos os dias para que dê certo e a gente está colhendo os resultados“. Trajetória impecável começa nas semifinais As semifinais masculinas do Circuito Banco do Brasil de Surfe – Etapa Natal colocaram frente a frente dois dos surfistas que mais se destacaram no evento. Douglas Silva eliminou o campeão da etapa de 2025, Israel Junior (BRA), por 16,84 a 12,67 pontos, deixando o potiguar em combinação. O duelo foi marcado pelo confronto entre dois aerialistas: Israel ainda arriscou mais um superman, repetindo o feito das quartas, mas foi Douglas quem construiu a vitória com um surfe de borda muito forte, tanto de backside quanto de frontside, garantindo duas notas de critério excelente (8,67 e 8,17).  Em grande fase, Douglas chegou à decisão com uma campanha praticamente perfeita em Natal. Antes da final, Dodô já mostrava confiança em suas declarações:  “Eu tô muito leve, muito tranquilo. Eu realmente vim aqui pra sair com o título, estou muito focado nessa etapa (…) Essa é minha meta“. Na semifinal anterior, Luan Wood confirmou o favoritismo e superou Rafael Barbosa (BRA) por 14,70 a 13,67, garantindo vaga na decisão. Luan chegou a Natal na liderança do ranking depois das duas primeiras etapas e vinha de uma sequência consistente: no sábado, venceu suas duas baterias, incluindo uma onda 7,67 que foi decisiva para avançar às quartas. Rafael também chegou forte, ocupando posição de destaque no ranking e tendo como antecedente recente um duelo apertado contra Luan. A vitória colocou Luan na final contra Douglas, em um confronto que reúne o líder do QS sul-americano e o atleta que chega embalado por um dos melhores momentos da temporada. Peruana supera Maria Eduarda Cesar e conquista o título  A final feminina do Circuito Banco do Brasil de Surfe – Etapa Natal colocou frente a frente experiência e nova geração. De um lado, Maria Eduarda Cesar (BRA), uma das promessas do surfe brasileiro com apenas 18 anos, disputando a primeira final de sua carreira no Circuito BB. Do outro, a peruana Daniella Rosas (PER), atleta olímpica, tricampeã sul-americana da WSL e atual campeã do circuito Banco do Brasil, que chegou à segunda final em duas etapas disputadas em 2026. Em 2025, Daniella foi ainda campeã em São Sebastião e em Imbituba. Em uma decisão de 30 minutos, Dani venceu por 9,07 a 9,84 pontos, administrando bem a escolha das ondas e a prioridade nos minutos finais. Duda apostou principalmente nas direitas em frente ao palanque, mas a peruana foi mais eficiente na leitura do mar. O resultado reforça a consistência de Daniella em eventos no Brasil.  “Estou super agradecida. Poder ganhar aqui é super especial. Venho de uma sequência não muito boa no Challenger, mas estou feliz de poder ganhar aqui. Em Imbituba não foi meu grande dia (na final contra a Sophia Medina), e aqui fiquei o mais tranquila possível e ajustei meus erros. Estou feliz e agradecida”, celebra a campeã, que projeta os próximos passos:  “Agora vou pra casa, porque faz muito tempo que não vou pra lá. Saio para a Espanha, depois volto para o Brasil para a etapa do Espírito Santo… Tenho bons resultados no Brasil e quero manter isso constante. Estou totalmente focada nos Challengers. Esse ano me sinto muito melhor, estou super feliz em todos os sentidos. Agradecida de estar aqui, de ganhar aqui. A verdade é que estou muito feliz”, finaliza Dani.  Atleta BB, Tainá Hinckel (BRA) e Alexia Monteiro (BRA) encerraram suas participações na semifinal, terminando o evento em terceiro lugar no geral.  Resultados Circuito Banco do Brasil de Surfe em Etapa Natal Masculino Quartas de final 1 Luan Wood (BRA) 11.60 x 8.70 Wesley Leite (BRA)2 Rafael Barbosa (BRA) 13.50 x 12.23 Gabriel Klaussner (BRA)3 Israel Junior (BRA) 14.00 x 12.03 Ryan Kainalo (BRA)4 Douglas Silva (BRA) 15.10 x

    Pernambucano Douglas Silva conquista primeira vitória no Circuito Banco do Brasil, e peruana Daniella Rosas vence no feminino na etapa de Natal, disputada na Praia de Miami (RN).

    A Defesa Civil mantém alertas para ventos fortes nesta sexta-feira (7) em áreas do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, com rajadas que podem chegar a 100 km/h no litoral paulista. A situação já provocou ventos de 97,2 km/h em Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, durante a noite de quinta-feira (6). Clique aqui para ver a previsão das ondas em SP Clique aqui para ver a previsão das ondas no RJ No estado de São Paulo, a previsão é de alerta vermelho nesta sexta e no sábado (8), com destaque para o litoral, a faixa leste e regiões de serra. A Defesa Civil chegou a enviar alertas severos aos celulares da população do litoral sul e da Baixada Santista até Bertioga. A força do vento já pôde ser sentida em diferentes pontos da costa paulista. Além dos 97,2 km/h registrados em Itanhaém na noite de quinta, os ventos chegaram a 90 km/h em Mongaguá no período noturno. Na manhã desta sexta, Caraguatatuba registrou rajadas de 49,3 km/h. Também houve registros de 37,6 km/h em Santos, 36,7 km/h em Cananéia, 31,2 km/h em Mongaguá e 31,1 km/h em Ilhabela. A Baixada Santista está entre as regiões com previsão de ventos fortes e maior risco no estado. Bertioga, Caraguatatuba, São Sebastião e Ubatuba suspenderam as aulas da rede pública nesta sexta-feira. Segundo a Defesa Civil, a ventania pode provocar queda de árvores e placas, destelhamentos, interrupções no fornecimento de energia, dificuldades no tráfego, impactos em aeroportos e agitação marítima. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Agência SP (@agenciaspoficial) Rio de Janeiro também recebe alerta No Rio de Janeiro, a Defesa Civil estadual também emitiu um alerta severo para ventos e chuva forte na manhã desta sexta-feira. A mensagem enviada aos celulares alertou para vento forte nas próximas horas e orientou a população a evitar deslocamentos. A cidade do Rio entrou em Estágio 2 ainda na noite de quinta-feira, diante da previsão de intensificação dos ventos entre quinta e domingo (9). As aulas das redes municipal e estadual foram suspensas nesta sexta por precaução. As condições para um vendaval se intensificaram com a combinação entre um ciclone e uma frente fria, e os ventos podem passar dos 90 km/h na Região Metropolitana do Rio. Para esta sexta, a previsão indica rajadas fortes, entre 52 e 76 km/h, e muito fortes, acima de 76 km/h, a partir da manhã. Atenção redobrada no litoral A ventania está associada à chegada de um ciclone extratropical à região Sul do país e exige atenção especial de quem está no litoral. Além dos ventos fortes, há previsão de ressaca. No estado de São Paulo, nove das 16 regiões administrativas estão em alerta vermelho, incluindo Santos e o Vale do Paraíba e litoral norte. Além dos riscos provocados pelo vento em terra, a Defesa Civil paulista inclui a agitação marítima entre os possíveis impactos das condições meteorológicas. O cenário reforça a necessidade de atenção de quem pretende frequentar praias ou realizar atividades no mar durante o período de maior intensidade dos ventos. No domingo (9), a previsão para São Paulo passa para alerta amarelo, com as rajadas se deslocando gradualmente em direção ao Rio de Janeiro. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Corpo de Bombeiros Militar/ RJ (@corpodebombeiros_rj)

    Litoral paulista está entre as áreas de maior atenção nesta sexta-feira (7), enquanto Rio de Janeiro também recebe alerta para ventos fortes. Rajadas já chegaram a 97,2 km/h em Itanhaém.

    O Circuito Banco do Brasil de Surfe retorna ao Rio Grande do Norte para mais uma etapa da temporada de 2026. Entre os dias 7 e 9 de agosto, a Praia de Miami, em Natal, recebe pela terceira vez uma das principais etapas do calendário da WSL South America, válida pelo Qualifying Series (QS) 4.000. E, entre os principais nomes da competição, um atleta chega cercado de expectativa: o potiguar Mateus Sena, campeão da etapa em 2024 e um dos favoritos para repetir o feito diante da torcida. Em cinco anos, o Circuito Banco do Brasil de Surfe consolidou-se como a principal plataforma de desenvolvimento do surfe profissional sul-americano. Já foram 21 etapas realizadas, mais de duas mil inscrições e mais de 700 atletas únicos, de 15 nacionalidades, reforçando a importância da competição para a formação de novos talentos. “Cada etapa do Circuito Banco do Brasil de Surfe representa muito mais do que uma competição. É uma oportunidade de fortalecer o surfe brasileiro, criar caminhos para a nova geração de atletas e aproximar ainda mais o esporte das comunidades onde ele nasceu e se desenvolveu. Natal reúne todos esses elementos o que faz elevar a expectativa de realizar mais um grande evento e seguir consolidando o circuito como a principal plataforma de desenvolvimento do surfe profissional na América do Sul”, evidencia Ivan Martinho, presidente da WSL América Latina. O Rio Grande do Norte tem tradição na modalidade, revelando nomes como Italo Ferreira, campeão olímpico e mundial da WSL, Jadson André, que permaneceu por 13 temporadas na elite do Championship Tour, além de atletas como Joca Junior, Marcelo Nunes, Danilo Costa, Aldemir Calunga, Alan Jhones e Israel Junior. Agora, Mateus Sena busca escrever mais um capítulo dessa história. Foi justamente na Praia de Miami que o surfista viveu um dos momentos mais marcantes da carreira. Em 2024, conquistou o título da etapa e também da temporada do Circuito Banco do Brasil de Surfe. Na decisão, arrancou uma nota 8.50 na última onda, a menos de dois minutos do fim da bateria, para virar sobre Adauto Sena e levantar o troféu diante da praia lotada. “A conquista de 2024 foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira. Foi o primeiro título sul-americano da história do Rio Grande do Norte em um evento desse porte, e isso torna essa vitória ainda mais especial. Guardo lembranças muito boas daquele dia, com minha família, meus amigos e todas as pessoas que me viram crescer acompanhando da praia. Tudo isso me dá ainda mais confiança, porque sei que já consegui uma vez e agora vou em busca de repetir esse resultado”, destaca Mateus. No ano seguinte, a tradição foi mantida com mais um título potiguar, desta vez conquistado por Israel Junior. Agora, em 2026, os dois surfistas entram na disputa com a chance de se tornarem os primeiros bicampeões da etapa de Natal. Competindo novamente diante da família, dos amigos e da torcida local, Mateus afirma chegar mais preparado para lidar com a responsabilidade de correr em casa. “Depois de já ter vencido uma etapa, chego mais leve, focado e tranquilo, sabendo que o trabalho foi feito. Me preparei da melhor forma, cuidando da alimentação, treinando o corpo e a mente, dentro e fora da água, e isso me dá muita confiança. Poder contar com minha família, meus amigos e com as pessoas que me viram crescer, na praia onde tudo começou, torna esse momento ainda mais especial. Espero poder retribuir todo esse apoio com um grande resultado”, afirma. Além do aspecto esportivo, o surfista destaca o impacto que a realização de uma etapa da WSL pode gerar para o estado e para os jovens atletas da região. “É muito importante para o desenvolvimento do surfe no Rio Grande do Norte. O estado tem ondas de qualidade e muitos surfistas talentosos que ainda não estão no radar do cenário nacional e internacional. Um evento desse porte cria oportunidades para que esses atletas mostrem seu potencial. Além disso, o histórico recente mostra a força do surfe potiguar, com títulos conquistados em 2024 e 2025 por atletas da casa. Espero que este ano a gente possa manter essa tradição”.

    Campeão do circuito em 2024 na Praia de Miami, natalense Mateus Sena volta a competir em casa em busca de manter a hegemonia potiguar em etapa do Circuito Banco do Brasil.

    O surfe contemporâneo, com sua indústria bilionária e recente status olímpico, muitas vezes ofusca uma verdade histórica profunda: suas raízes não são ocidentais, tampouco puramente recreativas. É exatamente essa lacuna cultural que o jornalista e antropólogo Luciano Meneghello busca preencher em seu novo livro, Surfe e Ancestralidade. A obra chega ao mercado como um relato histórico e um manifesto literário que promete transformar a maneira como a comunidade esportiva enxerga o oceano e a própria prancha. Em 2020, ele lançou seu primeiro livro, Raiz (revisado e ampliado em 2025), uma obra que narrou a saga dos polinésios que, há 3.500 anos, desbravaram 22,5 milhões de km² no Pacífico guiados apenas pelas estrelas, aves e ondas. Foi dessa cultura umbilicalmente ligada à natureza que nasceram esportes como a canoagem polinésia, o stand up paddle e o surfe. Inquieto com o apagamento das origens indígenas do surfe no Havaí pré-colonial, o autor tomou uma decisão corajosa: voltou aos bancos universitários para cursar Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O resultado foi uma monografia aprovada com nota máxima unânime, que agora ganha vida nas páginas de Surfe e Ancestralidade. A decolonização das águas O ponto central da obra está na desconstrução do estereótipo do surfe como uma atividade de lazer desfrutada por uma juventude branca de classe média. Meneghello nos convida a entender o heʻe nalu, a milenar prática havaiana de deslizar sobre as ondas, com sua própria cosmologia, integrada a uma relação de poder e conexão com o meio ambiente. Com uma narrativa envolvente, o autor detalha como operam os processos de apropriação cultural e a subsequente “turistificação” promovida pela indústria. A obra propõe uma decolonização do olhar sobre as águas, oferecendo ao leitor, seja ele um surfista profissional ou de fim de semana, um novo nível de respeito pelo esporte. Fruto de anos de pesquisa e imersão etnográfica nas ilhas de O’ahu e Maui, o livro revela como o povo nativo (Kānaka Maoli) passou a utilizar as zonas de surfe (po‘ina nalu) como territórios de soberania em resposta aos processos coloniais que mudaram drasticamente a realidade das ilhas havaianas. O autor traça uma linha do tempo fascinante que vai das sofisticadas pranchas ancestrais de madeira até as tensões políticas modernas, culminando no poderoso “Renascimento Havaiano” e na épica jornada da canoa Hōkūleʻa. Surfe e Ancestralidade transporta o surfe de uma técnica esportiva, que movimenta hoje um mercado bilionário, para uma “epistemologia da paisagem marinha”. Ele oferece aos praticantes a oportunidade de reconectar o ser humano ao fluxo do meio ambiente, em um processo capaz de “pacificar o branco” apontando caminhos para uma vida mais presente e conectada com o mundo real. Como adquirir a obra Surfe e Ancestralidade está sendo lançado diretamente pelo autor. Os interessados em adquirir o livro e acompanhar os bastidores dessa pesquisa podem entrar em contato e realizar a compra através do perfil oficial no Instagram: @surfeeancestralidade.

    Antropólogo Luciano Meneghello propõe releitura das origens do surfe, resgatando a cultura polinésia e questionando a visão ocidental que transformou a prática em esporte e indústria.

    No início da década de 1980, Paulo Bittencourt, o Biteka, decidiu seguir rumo ao Oceano Pacífico. O objetivo era simples e, ao mesmo tempo, imenso: encontrar grandes ondas da maneira que seu orçamento permitia. Mais do que chegar ao Peru e ao Equador, queria viver cada quilômetro daquela aventura. A viagem começou na histórica Estação da Luz, em São Paulo, seguindo de trem até Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Dali atravessou a fronteira a pé até Puerto Quijarro, na Bolívia, onde embarcou no lendário Trem da Morte. Levava duas pranchas especialmente construídas pelo mestre Oracio Cocada para enfrentar as ondas do Pacífico: uma 7’2″ e uma 5’11” biquilha em EPS, ambas com inovadoras longarinas de madeira de cinco centímetros, produzidas com madeira cuidadosamente selecionada na Mata Atlântica. Na mochila cabia apenas o indispensável. Entre poucas roupas estavam sua faixa de Taekwondo, um nunchaku e os ensinamentos do mestre Taney Campos. Para Biteka, surfe e artes marciais sempre caminharam lado a lado, uma ligação que ele hoje reconhece também na forte presença do jiu-jitsu entre surfistas de todo o mundo. O Trem da Morte seguia lentamente por cerca de 600 quilômetros até Santa Cruz de la Sierra. Os bancos eram de ripas de madeira e, a cada parada, embarcavam indígenas, comerciantes, famílias, galinhas e mercadorias. O vagão ia ficando cada vez mais cheio. Em alguns momentos, mães colocavam seus filhos pequenos em seu colo para descansar durante a viagem. Antes mesmo de alcançar o mar, a aventura já se revelava nas pessoas encontradas pelo caminho. Depois de alguns dias de descanso e de treinos em uma academia de Taekwondo, seguiu de ônibus para Cochabamba. As pranchas viajavam amarradas sobre o bagageiro enquanto a antiga Rota 7 serpenteava pelas montanhas, desfiladeiros e curvas da Cordilheira dos Andes. Dois dias depois, partiu para La Paz. Na subida da Cordilheira, a locomotiva parecia lutar contra a montanha. A velocidade diminuía enquanto a altitude retirava o oxigênio de passageiros e motor. O soroche – mal das montanhas – aproximava desconhecidos, que dividiam remédios, conselhos e solidariedade. Ali compreendeu por que aquela ferrovia carregava um nome tão marcante. Em La Paz, impressionaram a resistência do povo andino, os carregadores transportando enormes volumes pelas ladeiras, os tecidos coloridos e a delicada arte em prata. Antes de deixar o litoral brasileiro, havia separado algumas conchas das praias pela beleza de suas formas. Trocá-las por pequenas peças de prata tornou-se uma das lembranças mais especiais da viagem e uma inesperada aproximação entre duas culturas ligadas pelo mar. A viagem prosseguiu margeando o Lago Titicaca. Os Caballitos de Totora, construídos com junco, pareciam ligar a história dos povos andinos às primeiras formas de deslizar sobre as águas do Pacífico. Ao cruzar a fronteira entre Bolívia e Peru, retirou as pranchas da capa para explicar às autoridades o que era o surfe. Olhou ao redor e, sem perceber, as lágrimas começaram a cair. Eram lágrimas de alegria. Depois de tantos quilômetros percorridos, o Oceano Pacífico finalmente estava ao seu alcance. A partir dali começava outra grande aventura: Punta Hermosa, Punta Rocas, Chicama, Máncora, Montañita e Galápagos. Histórias que ficarão para outro capítulo. Ao recordar essa jornada, Biteka ajuda a preservar a memória de um tempo em que viajar era aceitar o desconhecido, aprender com diferentes culturas e descobrir que, muitas vezes, o caminho era tão importante quanto o destino. Uma época que convida a refletir sobre a verdadeira essência do surfe: a aventura, o respeito à natureza e a busca constante pela evolução. Paulo Bittencourt (Biteka), nascido em Santos (SP), é surfista desde a década de 1970. Aos 65 anos continua surfando, filmando e produzindo documentários independentes sobre as culturas do surfe. Acompanhe as publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

    Conheça a história de Paulo Bittencourt, o Biteka, que cruzou a América do Sul rumo ao Pacífico em uma jornada que se tornou um marco de aventura, resiliência e paixão pelo surfe.