Marcio Freire e a universidade do big surf

Baiano Marcio Freire vive há sete anos no Hawaii e é um dos big riders brasileiros mais casca-grossa do arquipélago.

 

Além de surfar, Freire também pratica canoa havaiana, integra o tradicional Hawaiian Canoe Club e também representa o Brasil na competições de remo nas ilhas.

 

Nessa entrevista ao correspondente Bruno Lemos, Freire conta de sua vida na ilha de Maui, onde mora depois de se encantar com as ondas e o astral.

 

Ele entende que até chegar ao estágio de big riders do tow-in é necessário todo um aprendizado em ondas grandes.

 

“Não posso terminar o colegial e ir direto para o doutrorado. Antes, tenho que passar por uma universidade e um mestrado”, diz o free-surfer. Isso quer dizer que na opinião dele, para atingir a condição de big rider completo o surfista tem que encarar Waimea e Mavericks, para então entrar em Jaws para despencar de ondas ainda maiores.

 

Fale um pouco de você, de como veio parar no Hawaii e o que fazia antes no Brasil?
Comecei a surfar aos 9 e hoje estou com 30 anos completos. Fui competidor na Bahia dos 11 anos aos 23, quando me mudei para o Hawaii.Naquele tempo, dediquei muito de mim ao surf competição, o que valeu dois títulos de vice-campeão baiano Júnior e campeao baiano Open. E cheguei a ser Top 5 da ABRASA (extinta Associação Brasileira de Surf Amador).

 

Fiquei bastante tempo como amador e só me profissionalizei no ano em que mudei para o Hawaii já com uma certa idade. Como eu não tinha apoio para estar presente a todos os eventos no Brasil – e na Bahia tinha uma quantidade muito grande de eventos amadores – era melhor continuar amador e manter um bom rítmo de competição.

Pra mim, foi até uma frustração não ter feito carreira como profissional. Por outro lado, isso me levou a colocar todo o meu focos no surf de onda grande, no Hawaii. E, em vez de seguir carreira de surf profissional, busquei me tornar um free surfer qualificado em todos os tipos de onda

O que me trouxe ao Hawaii foi o exemplo de uma geração forte do surf baiano, como Yuri Soledade, Danilo Couto e Kevin Kennedy, que já estavam morando aqui e eram meus grande amigos do surf.

Eu estudava biologia na Bahia e cheguei até a estagiar num hospital na área de microbiologia. Dedicava-me ao surf de competição e curtia a boa terra, o que hoje em dia me traz muita saudade.

 

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Por que decidiu ir para Maui em vez de Oahu? Como é o dia-a-dia na “Vale Island”?
Cheguei ao Hawaii por Oahu, onde pude reailizar um sonho. Surfei alguns meses e fui visitar meus amigos em Maui. Lá, minha ex-namorada conseguiu um trabalho numa academia de dança e, com a ajuda de meus amigos, consegui um trabalho e me encantei com alguns picos como Honolua Bay, Wind Mills e a vibe do lugar.

 

Mas não tem nada no mundo que se compare ao North Shore de Oahu. Por isso que toda temporada faço questão de me jogar nas ondas que são as verdadeiras bombas oceânicas.

 

No dia-a-dia trabalho com um amigo americano numa firma de jardinagem. É um trabalho que gosto de fazer e que me dá condição de pagar todas as minha contas e auto-patrocinar o surf e canoagem. Porém, nunca sobra nada pra salvar no final do mês.

Minha vida em Maui é bastante saudável. Pego ondas praticamente todos os dias, na boa companhia dos amigos Yuri, Kevin e Alfredo. E passo o verão todo treinando em canoas havaianas, representando o Hawaiian Canoe Club na temporada de velocidade e o time do Brasil nas corridas de longa distância locais e internacionais.

 

No ano passado tive o prazer de representar o Brasil no mundial de remo, realizado em   Hilo Big Island. Tive um dos momentos mais emocionantes de minha vida, quando fui porta-bandeira da equipe brasileira com Yuri Soledade, Jeferson Nascimento, Guigo da Silva, Jorge Bochecha e o presidente da federação brasileira, o menor time do mundial.

 

Entramos num estádio entupido de gente e, enquanto a galera aplaudia e gritava pela primeira participação do Brasil no mundial desta modalidade de remo, eu balançava a bandeira do nosso país.

 

Eu olhava para a multidão, olhava para os meus amigos e não acreditava no que estava acontecendo. Nosso time era formado por seis pessoas e entrava para o desfile no estádio atrás da Austrália, que tinha uma equipe formada por cerca de 250 remadores.

 

No dia 9 de outubro foi realizada a última prova de longa distância da temporada. A corrida de canoas havaianas para atravessar o canal entre a ilha de Molokai e a de Oahu, a famosa Molokai Hoe.

 

Começamos a remar às 7:30 horas e concluímos a prova às 13:40. Terminamos em top 40, com mais cem canoas. Mandamos muito bem. A “crew” (tripulação) era formada pelos mais experientes – eu (BA), Yuri Soledade (BA), Guigo da Silva (BA), Francisco Prado (RJ), além de uma galera mais nova na modalidade, como Livio Menelau (PE), Eric Santana (SE), Gustavo (RS), Diego Panca (RS) e o comando do veterano waterman Johnny Mc, um dos técnicos do Hawaiian Canoe Club.

 

A prova foi bastante difícil pelas condições do canal pela forte correnteza que encontramos ao encostar na ilha de Oahu. Concluimos a corrida bem e pela segunda vez o Brasil marcou presenca na mais difícil prova nesta modalidade do remo.
 

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Qual tipo de onda mais gosta e onde surfou as melhores ondas de sua vida?
 
Eu gosto de qualquer tipo de onda. Ondas minúsculas, de 1 pe, para eu surfar com minha gunzeira 10’4” me divertindo bastante. Onda pequena pra quebrar na vala. Ondas médias e manobráveis pra soltar energia com manobras explosivas.

 

E, claro, ondas tubulares e grandes, pra pegar na remada. Eu não sou aquele tipo de surfista que olha pro mar e que, por estar pequeno ou com um pouco de vento, deixa de cair.

 

Faço questão de estar sempre praticando em qualquer condição. Pra pegar 25 pés de onda remando tem que treinar desde as marolinhas. E sempre mantendo contato com o oceano.

 

As melhores ondas que já surfei em minha vida foram muitas. Porém tem aqueles dias especiais como Maverick’s, 17 de dezembro de 2003, com 18 a 20 pés, quando passei umas seis horas no pico.

 

Waimea Bay, 25 de novembro de 2000, com 20 a 25 pés, as maiores ondas de minha vida. Durante a primeira temporada em Maui, Honolua bay tinha uns 8 pés sólidos com muita gente. Mesmo assim consegui pegar uns do nove melhores tubos da vida.

 

E recentemente neste outono, Ma’alaea Harbor quebrou como nunca tinha quebrado antes e especulam que esse foi o melhor dia do pico nos últimos vinte anos. Fiquei muito feliz de ter dado duas caídas naquele dia épico. Só saí da água depois de ter me ralado todo na bancada. Mesmo assim o sorriso estava o tempo todo no rosto.

 

Você também pratica tow-in? Já surfou ou pretende surfar Jaws? Como descreve aquela onda e aquele lugar?
 
Vários amigos perguntam por que eu, morando em Maui e tendo amigos como Alfredo Villas Boas, Yuri Soledade e Danilo Couto, ainda não tinha entrado nessa modalidade. Ai eu respondo: eu não posso terminar o colegial e ir direto para o doutrorado. Antes, tenho que passar por uma universidade e um mestrado.

 

Depois que surfei vários Waimea, o maior de todos de até 25 pés no swell dos dias 25 e 26 de novembro de 2002, achei que já estaria pronto pra iniciar essa modalidade de tow-in. Mas refleti direito e cheguei à conclusão de que, antes de surfar Jaws, teria de surfar Maverick’s.

 

Essa sim seria pra completar o meu mestrado no surf de onda grande. Parti pra lá e passei uma temporada, onde pude surfar três grandes swells, nos dias 17/12/2003 (15 a 20 pés); 9 e 10/01/2004 (15 a 18 pés) e 18/01/2004 (15 a 18 pés).

 

Aí, sim, depois de tantas experiências, me vi pronto para comecar a prática do tow-in e nesta temporada vou realmente tentar me dedicar ao tow – in.

 

Já encomendei algumas uma pranchas com Jeff Timpone, considerado um dos melhores e também vou encomendar outras com Matt Kinochira. Yuri Soledade, me garantiu que vai me puxar em algumas bombas durante a temporada.

 

Além de ser meu amigo do surf das antigas, é um surfista que atualmente tem muita experiência na modalidade e faz a maior questão de passar todo o conhecimento na parte de reboque, resgate etc.

 

Outros amigos Danilo Couto e Alfredo Villas Boas também vão me ajudar, para quem sabe, um dia, eu vir a ser um bom surfista de tow-in. Por morar em Maui há cerca de sete anos, os locais estão acostumados a me ver no dia-a-dia e no free surf.

 

Então, acredito tenho mais chances de não ser embarreirado e, quem sabe, ter acesso às boas das séries.

 

A onda de Jaws é a mais animal que existe no mundo. Um tubo pra direita estupidamente grande, inacreditável, e uma esquerda gigante, sem explicaões. Só estando lá pra ver aquele absurdo, aquela monstruosidade da natureza. As minhas expectativas são grandes para inciar esse doutorado.

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E esse verão, conseguiu surfar algumas ondas?
Tivemos alguns swells, mas pequenos, marolas. Mesmo assim, as marolas são muito perfeitas, quebrando sem vento nas bancadas de coral.

 

No fim do verão entrou um dos maiores swells já vistos nos últimos vinte anos e uma das melhores ondas do mundo reviveu, Ma’alaea Harbour.

Foi o mesmo swell gigante que entrou no Tahiti e chegou na direção certa para esta direita que só quebra raramente e é considerada umas das mais rápidas do mundo.

 

O mar tinha ondas de 6 a 8 pes sólidos. Acredito ter visto duas séries de 10 pés e tava crowd com surfistas das outras ilhas: Pancho Sullivan, Myles Padaca, Joel Centeio, Dustin Barca, os veteranos Michel Ho e James Jones, todos os Maui Boys.

 

Deu pra pegar várias ondas, pois caí de manhã cedinho na maior hora do mar com Yuri Soledade e Alfredo Villas Boas. Foi uma das melhores sessões da minha vida. Por sorte consegui surfar algumas das melhores e maiores ondas que entraram naquele dia. Um swell destes não vai acontecer tão cedo. Quem pegou, pegou…
 

Quais as metas e objetivos para esta temporada?
Sem dúvida o foco no tow-in, surfar grandes tubos que o Hawaii proporciona, continuar treinando surf performance em ondas pequenas e médias, com muitas manobras e, se Deus quiser, sobrar um dinheiro para pagar minha passagens para San Francisco, no intuito de surfar Mavericks remando, pois ainda estou com duas gunzeiras lá me esperando. A saudade do pico fica cada vez maior.

 

Sem patrocínio, às vezes, fica impossível fazer tudo que tenho em mente em nivel de big surf, então é preciso contar com investimento.
 
Quais principais características um surfista deve ter para pegar ondas grandes no Hawaii?
 
Respeito ao oceano e convívio diário, surfando, nadando, remando etc. Tudo isso, relacionado aos esportes do mar, ou seja, para ser um waterman. Atitude, coragem determinação, foco e ser paciente para esperar os grandes swells.
 
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