Em sua época, o sul-africano campeão mundial de 1977, Shaun Tomsom, revolucionou a arte de entubar andando mais fundo que todos nos até então impossíveis canudos de Backdoor, no North Shore havaiano. Nesta matéria, ele revela que Kelly Slater é o melhor tube rider do planeta por uma razão simples: é o único que sabe surfar atrás da bola de espuma.
Apesar de todas as mudanças no esporte nos últimos 50 anos, uma manobra permanece como definitiva, como a sensação mais intensa no surf: o tubo. O tubo é a soma de forças complexas se relacionando. No tubo o surfista está equilibrado na beira da destruição em uma face convexa composta por milhares de toneladas de água, que se contorcem até a ondulação sucumbir para a hidrodinâmica, a força da gravidade e a mudança gradual no contorno da bancada. No tubo, a onda é lançada para frente, jogando sua crista até que o surfista fique completamente imerso numa cápsula de água, um lugar de isolamento e silêncio onde o tempo passa mais lentamente, gota por gota. Onde a sensação de velocidade é reduzida e a percepção torna-se mais aguçada. Para os surfistas, não há nada mais intenso do que estar profundo no tubo, no nosso mundo secreto, invisível da praia, escondidos por um estrondoso lençol d’água e uma explosão de espuma. O tubo é o lugar mais perigoso para se estar, um erro e a onda irá te arremessar diretamente ao fundo ou te trazer de volta com o lip para te derramar, como numa cachoeira, sobre a mesma bancada sobre a qual você surfava momentos antes. O tubo geralmente dura pouco, talvez três a quatro segundos. Mas sua sensação parece ser mais longa. Grandes tubos ficam na memória para sempre, como se tivessem acontecido ontem. Os tubos superlongos estão na zona dos dez segundos e depois disso, ninguém mais consegue contar; a experiência parece simplesmente não ter fim.
O primeiro cara a revelar esse mundo secreto foi um surfista que nunca nem ficou de pé na prancha. George Greenough era um tipo excêntrico-meio-cientista-maluco e o melhor kneeboarder de todos os tempos. Ele já entubava fundo em picos secretos no privado rancho Hollister, na Califórnia, décadas atrás. Ele desenvolveu pranchas de fibra de vidro com pequenas bóias nas bordas, que ele surfava de joelhos com uma câmera de filmagens gigante presa às costas. As imagens eram tão surreais e diferentes que a banda Pink Floyd as projetou como pano de fundo em alguns de seus shows. O público se movia e dançava embalados por haxixe, ácido e outros alucinógenos, enquanto as imagens do interior dos tubos surfados por Greenough apareciam na telona, como um slide show surreal.
Nos anos 60 e 70, Banzai Pipeline, no Hawaii, tornou-ser o epicentro do surf mundial, o Monte Everest dos tubos. Pipe já vinha sendo observada pelos surfistas há anos. Ela sempre foi considerada muito oca, muito rasa, muito difícil e perigosa para surfar – isso até o lendário longboarder Phil Edwards provar o contrário. Depois que Phil caiu na água e pegou umas ondas em um dia bem tranqüilo, o pico foi batizado Pipeline porque a onda parecia um tubo, e Banzai pela conotação suicida – e tudo mudou.
O primeiro surfista a realmente dominar Pipe o primeiro que surfou os tubos ao invés de fugir deles foi o californiano Butch Van Artsdalen. Em meados dos anos 60 ele surfou com coragem e estilo e foi o único da era do pranchão que completava tubos em Pipe com regularidade.
Nos anos 70, Gerry Lopez tornou-se o surfista mais famoso associado a Pipeline. Seu estilo relaxado e zen tornou-se o parâmetro de como entubar com maestria. Gerry nem se esforçava ele completava os drops mais atrasados e casualmente se colocava dentro do tubo com suas cavadas soul arch. Ele era cuspido no canal tubo após tubo, emergindo na nuvem de spray sempre com a maior compostura.
Pouco depois um novo jogo apareceu no universo dos tubos. Um grupo de jovens australianos e sul-africanos vieram para Pipe com vontade de sobra para mostrar uma nova era em performance. A tradicional hierarquia de Pipe dominada por Lopez e seus subordinados Rory Russel e Jackie Dunn era toda de goofy footers. A nova galera do Hemisfério Sul – Rabbit Bartholomew, Mark Richards, Michael Tomson e eu – era toda de regulars. Tínhamos que surfar Pipe de backside – um tremendo desafio. Então decidimos ir para a direita em Pipe na até então insurfada Backdoor. Para completar os profundos cilindros da direita tivemos que incorporar a técnica que usávamos nas longas direitas que tínhamos em casa. Na época eu tinha uma prancha revolucionária com uma curva de fundo absurda que me permitia dropar atrasado e surfar mais fundo do que qualquer pessoa havia conseguido anteriormente manobrando e mudando de direção dentro do tubo. Era um contraste dramático da técnica tradicional onde os surfistas apenas ficavam parados sobre a prancha.
Nos últimos anos o nível da performance avançou dramaticamente. Pranchas ficaram mais curtas, estreitas, finas e com concaves que permitem ao surfista dropar impossivelmente atrasado e encaixar no tubo por trás do pico, com uma aceleração muito maior. Os surfistas agora surfam regularmente na “foam ball”, a bola de espuma dentro do tubo. Quando uma onda quebra, a espuma branca é empurrada para a praia, mas ao mesmo tempo para dentro da onda, subindo na parede e formando uma bola de espuma que sempre foi tido como o lugar mais fundo dentro do tubo, o lugar mais fundo onde qualquer pessoa poderia surfar. A foam ball é um lugar especial, a prancha está no limite do seu controle, porque você está surfando sobre uma mistura de água e ar.
O lip está se lançando sobre você, criando um teto de água que parece estar se movendo em câmera lenta e a saída, o túnel de luz que brilha à frente, parece se mover mais próximo ou mais distante dependendo da sua velocidade. Mas as linhas desenhadas nos tubos atualmente não são diferentes das que eu desenvolvi na minha double concave monoquilha em 1977. A diferença é que os surfistas estão com mais velocidade dentro do tubo. Mesmo assim, pouco mudou na performance nas últimas duas décadas quando o assunto é tubo. Pelo menos era isso que eu pensava. Agora, depois de conversar com o rei, parece que ele sabe algo que eu não sabia.
Kelly Slater, o maior surfista de todos os tempos, elevou a técnica de entubar à novas alturas. Sua confiança extrema, equilíbrio de pantera, centro de gravidade baixo e um entendimento sublime de todas as nuances de água em movimento, permitem que ele complete tubos antes considerados impossíveis.
Há alguns anos, ele conversou comigo sobre um local dentro do tubo, um vazio pouco explorado. Logo atrás da foam ball é o lugar máximo, a trincheira onde o lip aterrisa, um refúgio claro em meio ao caos. É difícil surfar atrás da foam ball e se estabilizar nesse pequeno espaço. Mas quando você consegue, você entra nesse trilho e parece que você está em piloto automático e não tem que fazer muito, a onda vai empurrá-lo na sua própria velocidade. Parece que tem uma corda no bico da prancha puxando você.
Como todos os atletas super talentosos, ele surfa aparentemente sem esforço e talvez o segredo de seu sucesso é que sua mente processa situações radicais da mesma forma relaxada. Kelly não pensa demais, ele deixa apenas que seus instintos dominem sua ação.
Ele falou de um dos melhores tubos já vistos em uma competição, uma única onda surfada em Teahupoo, no Tahiti, em 2005 que acabou colocando-o no caminho para seu sétimo título mundial. “Aquela onda em Teahupoo no ano retrasado foi estranha. Eu não tenho outra maneira de explicar. Eu senti a onda e fluí com ela. Eu não pensei, foi tudo instinto, sem questionamentos. Meu surf dentro do tubo é uma reação imediata aos elementos, sem pensar no que está realmente acontecendo. Quando estou dentro do tubo faço o que me parece certo, o que é necessário para encaixar na parte certa da onda”.
É confortante saber que neste mundo complexo de hoje, onde estamos sempre pensando, analisando e calculando, existe um lugar onde você possa deixar seus instintos dominarem, onde você pode reagir ao invés de planejar. É um raro refúgio onde estamos verdadeiramente desconectados da confusão do mundo, dos nossos celulares e computadores. É gratificante saber que para nós, surfistas, o tubo é um lugar de liberdade verdadeira. No nosso mundo não estamos presos a regras artificiais, números e horários. Em um lugar onde as sensações são mais aguçadas, o imediatismo da vida é colocado em foco, e tudo que importa é alcançar a luz à frente, enclausurada por um túnel de água em movimento, tentando escapar com todas as forças, mas ao mesmo tempo perpetuando o momento, numa tentativa de prolongar cada instante do nosso desconhecido e privado universo.
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