Lelot facilita vida dos aspirantes a shaper

Henry, Lelot, Kit, Shape
Shapers paulistas se unem em cooperativa

Carlos, Boer
Fisiologia do Caldo

Todos nós, surfistas, já passamos pela experiência desagradável de “levar um belo caldo”. A sensação de “falta de ar” nos remete a idéia de que naquele momento de angústia nosso oxigênio (O2) está acabando. Entretanto, a sensação de falta de ar que sentimos durante um caldo ou simplesmente durante uma suspensão voluntária de nossa respiração, não é proveniente do decréscimo do oxigênio em nosso organismo, ao invés disso, esta sensação é primariamente produzida pelo acúmulo do gás carbônico (CO2) em nosso sangue. Ora, isso quer dizer que a medida em que nos debatemos embaixo da água e utilizamos nosso O2, produzimos CO2, e é esse mesmo CO2, que estimulará uma área em nosso cérebro, (conhecida pelo nome de Bulbo), a emitir os primeiros sintomas da falta de ar: ficamos com “vontade” de respirar, e se não o fizermos logo, nossos músculos respiratórios começarão a contrair-se involuntáriamente até que abriremos a boca e repiraremos de forma reflexa, o que pode causar um afogamento. Como o CO2 em excesso é tóxico, o nosso organismo sente necessidade de eleminá-lo antes mesmo de renovar o O2 em nossos pulmões. Logo, a famosa sensação de “falta de ar” não é produzida pela diminuição do O2 no organismo, mas pela produção e não eliminação do CO2 paralelamente produzido. E em que essas informações podem ajudar aos surfistas interessados em dropar a maior da série ? É interessante saber que a sensação de falta de ar aparece muito antes do nosso estoque de O2 realmente chegar ao fim. Via de regra, aos primeiros sintomas de falta de ar, ainda temos em nosso sangue uma quantidade de oxigênio suficiente para ao menos 1 minuto de submersão. O conhecimento teórico desses fatores do controle respiratório, associados a alguns exercícios práticos que em breve estaremos descrevendo, pode melhorar muito a capacidade de submersão do surfista, o que aumentará sua auto confiança para se arriscar com mais segurança em uns “drops mais insanos”. Por hora ficam os seguintes conselhos: A) Tenha consciência de que os primeiros sintomas de falta de ar são facilmente controlados caso você não entre em pânico. É tudo uma questão de treino. B) A ordem durante o caldo é: Solte o corpo ! Não contraia seus músculos ! Deixe a turbulência passar e economize seu O2, pois procedendo desta forma, você não produzirá muito CO2, e dessa forma prorrogará seu tempo de apnéia. C) A informação acima não deve ser sempre seguida ao pé da letra. Em algumas situações como por exemplo uma “vaca” em Puerto Escondido, é fundamental que você enrijeça seus músculos para se proteger do primeiro impacto da onda, pois nessas situações, se você soltar o seu corpo quando o lip está vindo ao seu encontro, pode não morrer afogado, mas será partido ao meio com facilidade. Logo, aqui a regra é; enrijeça ao primeiro impacto e depois deixe-se levar…
Perdido no Hawaii

Demorou, mas chegou! Aos 34 anos pisei nas ilhas pela primeira vez! 25 anos surfando é tempo suficiente para alimentar o imaginário de qualquer surfista que se preze, com relação à mística do famoso arquipélago. Embora eu tenha algumas temporadas de Peru, México e EUA, esperei com muita ansiedade este dia chegar, pois o surfe é o motor de minha vida. Sei que não vim ao mundo somente a passeio, e como todo bom brasileiro que se preze, tive que batalhar bastante para adquirir alguma autonomia e estabilidade na vida… mas… chegou a hora de viajar pelo mundo de forma rotineira… pendurando no bico, de preferência dentro dos barrels… e o primeiro lugar escolhido para inaugurar esta nova fase foi o Hawaii. # Rumei para lá completamente só. Eu e minha tonelada de bagagem, 999 quilos de pranchas e 1 quilo de cuecas, bermudas e escova de dente. Que puta roubada! Cinco longboards enormes amontoados em uma capa de prancha muito, mas muito maior que o sarcófago de todos os faraós juntos! Só vendo pra acreditar na minha ingenuidade, ao pensar que com o meu físico de jogador de baralhos eu conseguiria dar conta daquela maldição longboardiana. A viagem foi tranquila… Hawaii via Canadá. Saída às 23 horas, somente uma hora para a virada do milênio. Depois de sei lá quanto tempo… 10, 12 horas talvez, aterrizamos em Toronto – Canadá. # O imbecil que vos fala trajava bermuda, chinelo havaiano e camiseta regata. A adrenalina e a emoção eram tantas, que esqueci que eu estava a apenas umas poucas quadras do pólo norte. Juro pra vocês, que quando eu abri a porta do aeroporto para dar uma espiadinha lá fora… BUUUOOOMMMM !!!! Foi como um direto de direita do Tyson, bem no focinho! 20! eu disse 20 graus abaixo de zero! E o besta aqui fantasiado de polinésio calorento, quase peladão na terra do Papai Noel. Dei meia volta meio cambaleante e procurei meio sem jeito um pedaço de chão bem fofo para passar as próximas 10 horas esperando a conexão para as ilhas… 10 longas… longas horas! # Finalmente pousei nas ilhas às 23 horas do dia 2 de janeiro, e ao ouvir as palavras do comandante meus olhos se encheram de lágrimas! Não dá pra segurar! É uma puta emoção para qualquer surfista na terra. Caralho! Eu estava no Hawaii e ia colocar meu surfe realmente à prova. Medo, adrenalina e um “go for it” se misturavam num coquetel interessante. A hora da verdade se aproximava. E outro pesadelo também. Só saí do aeroporto às 00:00 horas devido a alguns embaços polinésios e para minha surpresa… 30 graus positivos… E o estúpido que vos fala agora trajava um modelito esquimó! Como foi difícil arrastar aquele sarcófago, que pesava 999 quilos, pelas ruas do Hawaii. Eu puxava o trambolho por 10 metros, parava e reclamava 20. # Eu suava como um gambá e não tinha um mísero plantador de abacaxi para me dar uma mãozinha. Sem poder me conter, as lágrimas voltaram novamente… mas desta vez era de puro ódio. Eu queria matar qualquer um que se aproximasse de mim… podia ser até o Jonny Boy Gomes! Cheguei no North Shore às 7 da manhã e me alojei na casa do Fast Eddie, somente o dono da ilha… Manda prender, manda soltar… se arrepende e manda prender novamente… e sabe quem me arrumou a boiada… Picuruta é claro! Quando eu cheguei na casa do Fast, falei que eu era amigo do Picuruta, e ele caiu na gargalhada… olhou para mim e perguntou. But… are you sure that Picuruta has a friend? (Mas… você tem certeza que o Picuruta tem um amigo?) # E é assim nas ilhas como em qualquer outro lugar do mundo… Picuruta planta o terror e semeia o pânico até entre os Black trunks mais casca grossa. Bem… mas vamos às ondas. Segundo a lenda, este foi o inverno mais constante dos últimos 15 anos, o Hawaii parecia uma máquina de ondas. No início é meio complicado fazer a transição Brasil – Hawaii. O Power é intenso… a força das ondas é descomunal, e… o surfe é “ligado” o tempo todo. Surfei todos os picos possíveis neste mês que fiquei por lá. No Hawaii existem ondas por todos os lugares… Entretanto, se você for arriscar as caídas nos picos mais famosos, esteja disposto a pagar o preço da disputa ferrenha entre o crowd… e que crowd. # Teve um dia que cheguei a contar 152 cabeças entre Off The Wall e Pipeline. Quem conhece sabe do mísero line up que existe entre esses dois picos. Lá você se preocupa em não vacar de cabeça no coral, em não rabear, em não ser rabeado, em não atropelar o muro de bodyboarders que se posicionam no inside… Acrescente a isso o fato de estar surfando de longboard uma das ondas mais pesadas do planeta e o pesadelo esta completo. Pipeline me consumiu 20 horas de line up e quatro ondas surfadas. 2 vacas históricas e horrorosas, uma rabeada medonha e o tubo da vida. Ponto final. # Mas existiram momentos bem legais em Sunset Point (para mim a onda mais sinistra, ameaçadora, traiçoeira e alucinante de minha vida). Ao surfar Waimea 15 pés de longboard, minha prancha balançava mais que caminhão de bóia fria… Leftover, Velzyland, Rock Point, Laniakea, Backyards, e muitos, muitos outros são picos alucinantes. Tubos inesquecíveis, caldos sequelantes, finais de tarde que me levavam a afirmar que nós necessitamos de muito pouco para sermos verdadeiramente felizes… MUITO POUCO! # Como sou um surfista professor, no período em que estive no Hawaii, fui a inúmeros centros de estudos, mochos e livrarias. Me interessa a cultura polinésia como um todo. Os havaianos são gentis e simpáticos. Um povo cordial que lutou para resgatar o seu passado, destruído por um bando de colonizadores mesquinhos. No processo de resgate da cultura polinésia esta o projeto Hokule’a, que a partir da década de 70 resgatou do povo havaiano