Planeta Água, planeta surf

Toda forma de vida tem sua origem no mar. O ser humano, por exemplo, tem 70% de sua composição corpórea na forma líquida. E observe bem que algumas de nossas secreções, como suor e lágrima, têm uma dose considerável de sal. Possivelmente um resquício de nossa origem. O lugar onde vivemos, o planeta Terra, tem a absoluta maioria de sua composição no formato líquido. Chamá-lo de planeta Água não seria nenhuma aberração. Por certo, estaríamos bem mais próximos de nossa realidade. Desde o princípio, portanto, o homem habituou-se a viver no meio líquido. Mesmo antes de vir ao mundo, passamos cerca de nove meses em uma bolsa, cercados pelo líquido aminiótico. Ainda no período em que vivíamos em cavernas, por certo, já buscávamos um contato maior com o mar. Inicialmente, talvez guiados por uma necessidade de sobrevivência. Depois, encarando-o como um complemento de nossas vidas. Possivelmente o que se supõe ser a chamada consciência cósmica possa explicar e justificar determinadas ações dos seres humanos. Como se estivéssemos unidos por um cordão umbilical invisível, estamos sempre ligados às nossas origens. Mais cedo ou mais tarde, estamos indo ao seu encontro. A fascinação que o mar exerce sobre as pessoas em todas as partes do mundo talvez seja explicada por essa ligação uterina. Um fascínio que, desde os tempos mais remotos, tem nos levado em busca de novos e maiores desafios. Primeiro, o homem brincou à beira d’água. Depois, ousou ir mais além, mas percebeu que para continuar interagindo com o mar teria de dispor de um mínimo de infra-estrutura para se manter sobre a água, já que submerso, nem pensar. Afinal, o aqualong só viria a ser inventado alguns milhões de anos mais tarde. Percebendo que a madeira não afundava, ele fez do tronco mais grosso que encontrou o seu barco. Ainda não era o ideal, mas aos poucos sua inteligência permitiu a transformação do cepo em algo melhor ajustado para os seus propósitos. O homem obtinha assim mais uma vitória dentro de um processo de aprendizado que tem se mantido ativo até os dias de hoje. Compelido pelas necessidade de buscar novos espaços e fontes alternativas de sobrevivência, além de ser instado por sua própria natureza humana a saciar sua curiosidade e inquietação latentes, o homem procurou de todas as formas encontrar meios que lhe permitissem percorrer distâncias cada vez maiores sobre as águas do oceano. Sem dispor de computadores, GPS, satélite e toda a parafernália que caracteriza a navegação dos tempos modernos, o navegador do princípio dos tempos aguçou os sentidos e, perfeitamente sintonizado com a natureza, soube fazer a leitura dos elementos – condições de maré, direção dos ventos, fases da Lua, formato das nuvens, trajetória do Sol e disposição de outros astros no firmamento – para vencer os obstáculos e transpor os oceanos. Povos da Antigüidade, em diferentes partes do planeta, marcaram efetiva presença no mar. Culturas e civilizações que tinham como característica básica a perfeita integração com a Mãe Natureza não encontraram dificuldades em encarar o mar. Embora antropólogos e arqueólogos ortodoxos insistam em refutar a idéia de que antigas civilizações sul-americanas fossem capazes de atirar-se ao mar, navegando por milhares de milhas pelo Oceano Pacífico, estudos e expedições levadas a efeito dentro do que se convencionou chamar de arqueologia de experimento ou arqueologia experimental provam exatamente o contrário. Culturas e civilizações que habitaram a costa peruana antes mesmo do apogeu do império Inca dispunham dos meios para desenvolver uma navegação de longo curso, em mar aberto. Não apenas guiados por uma força que poderíamos definir como cósmica – inexplicável por excelência, mas incrivelmente forte a ponto de exercer uma atração irresistível – mas norteados ainda pela influência de povos vindos de pontos distantes do planeta, povos como os moches e chimus, ao norte, paracas, nazcas e tiahuanacos, ao sul, por certo, levaram seus costumes e tradições para a Ilha de Páscoa e possivelmente um pouco mais além. O sucesso das viagens pelo Oceano Pacífico feitas tanto pelo antropólogo norueguês Thor Heyerdahl quanto pelo arqueólogo norte-americano Gene Savoy, a bordo de barcos construídos segundo os mesmos moldes adotados pelas civilizações pré-colombianas, e ainda importantes descobertas em sítios arqueológicos espalhados por toda a costa do Peru evidenciam a presença de pré-colombianos entre os grandes navegadores da Antigüidade. Reivindicação peruana – Em outubro de 1996, durante as disputas do I World Surfing Games (Jogos Mundiais de Surf), em Huntington Beach, na Califórnia (EUA), sob a chancela da International Surfing Association (ISA), uma das entidades responsáveis pela prática do surf no mundo, a delegação peruana presente às disputas tinha um objetivo a mais que as demais participantes do evento. Longe de buscar as primeiras colocações, que acabariam ficando com três das chamadas potências do surf mundial ( Estados Unidos, Austrália e Brasil), os peruanos queriam que a ISA aprovasse, ao final do seu congresso, a moção que reconhecia o Peru como verdadeiro berço do surf. Com base em estudos arqueológicos e antropológicos, os peruanos defendiam sua tese, desfilando uma série de evidências que os levavam a crer no engano daqueles que atribuíam às ilhas polinésias o ponto de partida para uma prática que hoje, ao final do século XX, espalhou-se por todo o planeta. Onde quer que haja um mínimo de condição de mar (marolas, que sejam), haverá sempre um beach boy, um waterman deslizando sobre as ondas, recorrendo ao uso de pranchas que, segundo os peruanos, surgiram a partir do perfil hidrodinâmico de pequenas embarcações originárias das regiões andinas. Em Huntington, porém, depois de muita discussão, não se chegou a um denominador comum. Os havaianos, respaldados em relatos de seus antepassados, que passam de geração a geração, numa tradição de longa data, rechaçaram a tese peruana e os delegados presentes ao congresso não se sentiram em condições de analisar a moção proposta pelos peruanos. Um dos representante do Reino Unido lembrou, após horas de debates infrutíferos, que qualquer que fosse a decisão tomada, não se teria a certeza de tratar-se de uma “verdade absoluta”. Afinal, tanto a