A história de Musgão

Lucas Honorato resgata a história do pioneiro do kneeboard no Brasil, Paulo Barreto "Musgão".

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Paulo Barreto “Musgão” é um dos pioneiros do kneeboard no Brasil.

O kneeboarder Paulo Barreto, conhecido “Musgão”, nasceu em 1954, em Santos (SP). Seu interesse pelo surfe surgiu em 1966, incentivado pelo irmão Luiz Ricardo e por amigos da vizinhança.

Dentre seus amigos, havia um que se chamava Agustin, o “Cubano”. Ele usava uma prancha de isopor Planonda para surfar como “bellyboard”. Como o fundo era muito redondo e a parte de cima era plana, ele inverteu a prancha, usando o bico como tail, e começou a surfar deitado, como se fosse um bodyboard.

Depois de aproximadamente um ano de surfe com as bellyboards, Cubano e Luiz Ricardo optaram por surfar em pé. Enquanto isso, Musgão seguiu na direção do surfe de joelho.

Musgão teve seu primeiro contato com o kneeboard quando viu uma matéria sobre o lendário George Greenough em uma revista no apartamento do amigo Ronaldo “Gui”. O local sempre tinha bastante gente, na maioria ligados à música.

Foto que marca o início da Orca Surfboards em Santos.

George Greenough foi um surfista influente nas décadas de 1960 e 1970, conhecido por seus projetos e trabalhos em filmes, design de pranchas, desenvolvimento de quilhas e outras invenções. A principal aparição de Greenough e sua criação foi no clássico Endless Sumer. Neste filme, ele aparece surfando uma onda interminável na Califórnia.

As contribuições de Greenough ao desenvolvimento das pranchas resultaram em uma onda de novos avanços na tecnologia para o surfe. Em 1961, ele criou uma prancha em forma de colher, a famosa “Spoon Board”. Em 1966, criou a segunda prancha, apelidada de “Velo”. George revolucionou o surfe com sua prancha de design visionário no mundo do surfe moderno, sendo considerado uma lenda e um ícone.

Foram necessárias quatro páginas da matéria sobre George Greenough para Musgão ficar deslumbrado com o kneeboard. O texto veio acompanhado de um grande estímulo para que ele iniciasse na modalidade. Nesta época, Ronaldo, vendo o interesse do amigo em querer surfar com uma prancha de joelho, resolveu fazer uma prancha.

A animação era grande, principalmente por ser a primeira prancha da vida. Embora sem muito sucesso nas tentativas iniciais, dada a inexperiência e a falta de conhecimento do surfista, Musgão ficou muito grato pela atitude do amigo.

40 anos do 1º Santista de Surfe:

Em 1967, Agustin e Musgão resolveram fazer duas pranchas, e usaram a área de serviço do apartamento de Musgão como fábrica. Assim que começaram a shapear, Agustin logo percebeu que Musgão não iria longe como shaper, e acabou assumindo a missão de confeccionar as pranchas.

Com a segunda prancha de surfe na vida, após vários tombos, Musgão começou a se encontrar. Ele evoluiu e, dali em diante, a paixão pelo surfe de joelho nunca mais o deixou.

Em 1968, Agustin, que ainda se encontrava bem motivado para fazer pranchas ao lado do amigo Edson de Almeida (Edinho), passou a utilizar um espaço cedido pelo pai de Edinho nos fundos do Cabinário Toscana.

Foi daí então que surgiu a Orca Surfboards. Logo, toda a turma da Zona do Agrião começou a surfar com as pranchas da nova fábrica.

Primeira foto de Musgão surfando, tirada pelo amigo Ricardo Blanco (Ricardinho), em 1979.

Campeonato de 1970

Foi em 1970 que Musgão participou do primeiro campeonato de surfe realizado em Santos, litoral de São Paulo. O evento foi organizado pelos amigos Carlos Roberto Alencastro “Lobinho”, Fernando Miranda e Tonico Alves.

O encontro também teve ajuda dos juízes do evento, Durval Citero Filho (in memoriam), Marcelo Guimarães “Pardal”, Miguel Sealy “Alemão”, Silvio Daige (in memoriam), Toninho Campos e Zizzi Passareli, sendo Marcelo e Miguel os fundadores do 1º Surf Club do Brasil, o “Big Kahuna”, em 1969. O evento foi patrocinado pela Prefeitura de Santos.

Apenas três surfistas participaram da categoria Kneeboard: Carlos Eduardo Cristiniano, José Gois (in memoriam) e Paulo Musgão. Este campeonato foi marcado como o primeiro campeonato de surfe com a categoria Kneeboard do Brasil.

Musgão sagrou-se campeão e o evento marcou o início das competições nacionais do surfe de joelho. “No inicio não existia cordinha e nem roupa de borracha para surfar, fazíamos cordinha de látex e amarrávamos na perna. Ainda entravamos na água fria usando uma camisa normal para surfar”, conta Musgão.

Em 1995, no tubo de Puerto Escondido, México, usando uma prancha de Armando Jaguary.

Pranchas

O kneeboarder teve mais algumas pranchas da Orca Surfboards e de outros shapers como Paschoal (in memoriam) e Delton, da Star Model. Atualmente, Delton fabrica as pranchas da Classic Surfboards, em São Vicente.

Musgão teve também boas pranchas do Beto (Rip Wave) e de Homero, que conhecia a fundo a parte hidrodinâmica. Não foi à toa que Musgão teve mais de seis pranchas com outlines diferentes e que funcionavam muito bem nas ondas. Ele se orgulha de ter possuído na época, uma das melhores pranchas de sua vida, uma Homero Surf Team.

Mas foi o shaper chamado Armando Jaguary, que Musgão veio a conhecer através do querido amigo Sergio Ujvari, a pessoa que se tornaria um grande amigo em sua vida. Armando sempre foi um gigante de bondade, não sabia dizer “não”, e tinha muita facilidade em adaptar-se a novos desafios. As kneeboards que ele fez para Musgão são um exemplo claro disso.

“Era um artesão de mão cheia. Se fosse falar sobre todas as provas de amizade e generosidade que ele me deu, certamente daria para escrever um livro. Tive o privilégio de conhecer uma pessoa muito simples e generosa”, conta Musgão.

Certa vez, Armando estava passando alguns conhecimentos de shape para outro rapaz de nome Rafael, hoje conhecido como Shaper Rafinha. Ele pediu uma prancha quebrada de Musgão para usar como referência, e depois de uns dias pediu que fosse pegá-la.

Para total surpresa de Musgão, Armando não só havia consertado a prancha, que já se encontrava amarelada pelo tempo, como também fez uma pintura nova respeitando o contorno de um desenho antigo e até a seda da prancha.

Campeonato Brasileiro de Kneeboard em Itaúna, 1992. Da esquerda para a direita: Marcelo Julian, William Grutter, Musgão e Sérgio Peixe.

Campeonato de Itaúna

O kneeboarder participou de muitos campeonatos municipais e estaduais com relativo sucesso. Quando o trabalho permitia, ele participava de alguns brasileiros durante o ano, eventualmente tirando pódio.

Musgão também disputou campeonatos ao lado de Sérgio Peixe, Marcelo Julian e William Grutter, kneeboarders brasileiros de renome mundial na modalidade.

O campeonato que ocorreu em Itaúna (RJ), em 1992, foi o melhor da carreira de Musgão, conforme ele relata. William Grutter sagrou-se campeão brasileiro com uma diferença considerável em relação ao segundo lugar, Marcelo Julian. Musgão ficou em terceiro lugar.

Afastamento das ondas

No início dos anos 2000, Musgão passou por algumas barreiras em sua vida. Seu pai não vinha bem de saúde após um transplante renal, necessitando de cuidados, e em 2004 veio a falecer. Foi uma época na qual seu ritmo de surfe diminuiu. Musgão acabou se afastando das ondas, mas não da água.

Ele passou a praticar natação nas horas vagas e participou de maratonas aquáticas de 2004 até 2012. Em 2009, em um exame de rotina, foi surpreendido por um câncer no rim. No início foi um golpe duro, mas com o passar do tempo, isso acabou se transformando em uma experiência de aprendizado e amadurecimento.

Musgão em 2018, no Quebra-Mar de Santos.

Depois de dois meses de recuperação, Musgão voltou a trabalhar. Em quatro meses voltou a nadar aos poucos e no oitavo mês já estava de volta às maratonas. Em 2012, Paulo Musgão deixou as maratonas por conta da idade avançada, mas o surfista continuou competindo eventualmente em piscinas até 2015.

Atualmente, aos 66 anos, o surfista encontrou na natação e na yoga a combinação perfeita para manter o condicionamento físico e flexibilidade. O kneeboard também vem lhe acompanhando, tornando-o cada vez mais forte e revigorado para deslizar sobre as ondas paulistas.

Administrador da página @kneeboardsurfbrasil, Lucas Honorato tem 27 anos e é um apaixonado pelo surfe de joelho. Ele é um dos principais atletas do Brasil da atualidade e vai disputar o campeonato mundial de 2022 em Portugal.