O surfe é mais do que um esporte. É uma forma de conexão direta com o oceano, em que cada onda traz sinais das transformações que a crise climática está impondo às zonas costeiras e todo maretório brasileiro.
Desde 2024, o Instituto Ecosurf realiza a pesquisa Raio-X Ecosurf, um levantamento nacional que busca compreender como surfistas e esportistas do mar percebem as mudanças no clima, a poluição plástica e os impactos ambientais frequentes que afetam a vida marinha e a prática do surfe em todo o litoral brasileiro.
Mais do que uma coleta de dados, o Raio-X Ecosurf é uma iniciativa de análise perceptiva e observação crítica, que transforma as experiências vividas na água em evidências concretas sobre os efeitos da crise ambiental nos ecossistemas de surfe.
Com mais de 500 respostas válidas, vindas de 19 estados e mais de 90 municípios, a pesquisa forma um retrato inédito da cultura do surfe brasileiro e do seu potencial como força de mobilização social e ambiental.
A ação integra a campanha independente do Ecosurf, #SurfNaCOP30, que levará os resultados à COP 30 — Conferência do Clima da ONU, a ser realizada em novembro de 2025, em Belém (PA).
O objetivo é apresentar a pesquisa em painéis durante o evento e entregar um manifesto representando a voz dos surfistas, como observadores privilegiados do oceano, para ecoar dentro das negociações globais sobre o futuro do clima e dos mares.
Quem são os surfistas do Raio-X Ecosurf
O levantamento — estruturado em 40 perguntas de múltipla escolha e abertas — reúne um público diverso de surfistas, remadores, mergulhadores e admiradores do mar. O perfil traçado mostra que a comunidade do surfe é formada majoritariamente por adultos jovens, escolarizados e ambientalmente atentos.
Dos participantes
· 72% se identificam como homens, 26% como mulheres e 2% como outros gêneros;
· 68% possuem ensino superior completo ou pós-graduação;
· 58% surfam há mais de 10 anos;
· e 64% afirmam surfar semanal ou mensalmente.
Segundo o cofundador do Instituto Ecosurf, João Malavolta, “quem surfa sente antes de todos que o mar e os ambientes de surfe mudaram. Essas vivências cotidianas são valiosas para compreender a influência dos eventos climáticos extremos e mudanças socioambientais no cotidiano de quem vive à beira-mar e construir políticas públicas que realmente considerem a realidade das zonas costeiras e seus povos”.
Percepções sobre o clima e o Oceano
Mais de 90% dos surfistas acreditam que o oceano e as condições de surfe estão sendo afetados pelas mudanças climáticas. Entre os impactos mais percebidos estão o aquecimento da água (79%), a erosão e o estreitamento das praias (63%) e o aumento da frequência de ressacas (51%).
Estes relatos corroboram estudos recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023), que apontam os ecossistemas costeiros como os mais vulneráveis à crise climática global.
Poluição plástica e degradação costeira
A poluição plástica é outro problema amplamente observado pelos participantes.
Cerca de 87% relatam ver resíduos plásticos frequentemente ou sempre nas praias, e 74% já encontraram animais marinhos mortos ou encalhados. A maioria atribui a origem do problema ao lixo produzido nas cidades e transportados pela drenagem urbana aos ambientes costeiros e ao descarte inadequado de lixo nas praias pelos frequentadores e comerciantes.
Essas percepções confirmam os dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, 2022), que estima que mais de 80% do lixo marinho têm origem terrestre e são compostos majoritariamente por plásticos descartáveis.
Engajamento e consciência ambiental
Apesar das preocupações, a pesquisa revela uma comunidade parcialmente engajada.
Oitenta e um por cento dos participantes afirmam ter adotado práticas mais sustentáveis, como reduzir o uso de descartáveis e participar de limpezas de praia. Além disso, 93% declaram estar dispostos a se envolver mais ativamente em ações de defesa do oceano.
Por outro lado, 62% ainda desconhecem o conceito de “Ecossistemas de Surf”, evidenciando a importância de ampliar iniciativas de educação oceânica e de fortalecimento da cultura do mar como campo de aprendizagem e ação coletiva.
As vozes do mar: cápsula do tempo
Na parte final do formulário, a chamada “Cápsula do Tempo” convidou os participantes a deixarem mensagens para 2050. Entre as centenas de respostas, emergem sentimentos de pertencimento, indignação e esperança.
Muitos expressam tristeza ao ver o “mar doente”, enquanto outros transformam suas palavras em compromisso com o futuro: “Sem oceano saudável, não há ondas. E sem onda, não há futuro.” — Participante da pesquisa Raio-X Ecosurf
O surfe como sensor ecológico
Para o Instituto Ecosurf, o levantamento confirma que o surfe é um verdadeiro sensor social e ecológico.
A comunidade surfística observa e vivencia as transformações do oceano em tempo real — um tipo de conhecimento empírico e perceptivo que pode orientar decisões políticas e inspirar ações coletivas de mitigação e adaptação à crise climática.
“O Raio-X Ecosurf demonstra o valor do surfe como plataforma de mobilização e comunicação ambiental. Ao transformar experiências individuais em evidências coletivas, conseguimos conectar esporte, observação crítica e cidadania em uma mesma maré de propósito”, explica João Malavolta.
Pesquisa aberta até 31 de outubro
O Raio-X Ecosurf permanece aberto para participação até 31 de outubro de 2025.
As respostas continuarão sendo incorporadas ao dashboard interativo público da Ecosurf, que apresenta análises, gráficos e comparativos regionais atualizados em tempo real.
O relatório final e as informações processadas serão incorporados ao Painel Interativo: Raio-X Ecosurf, no início do mês de novembro.
Surfistas, praticantes de esportes aquáticos e admiradores do mar podem participar acessando o formulário disponível no site Surf Na Cop.
Sobre o Instituto Ecosurf – O Instituto Ecosurf é uma organização brasileira com mais de 25 anos de atuação dedicada à defesa do oceano, à proteção dos ecossistemas de surfe e à promoção da cultura do surfe sustentável.
Desde sua criação, a Ecosurf tem articulado ações de engajamento, regeneração ambiental, educação oceânica e advocacy, sendo reconhecida nacional e internacionalmente por transformar o amor pelo mar em ação concreta pela sustentabilidade.
Clique aqui para acessar o site Ecosurf.












