Fenômeno em Tramandaí

Ciclone-bomba movimenta blocos oceânicos de até 3 mil anos no litoral norte gaúcho.

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Dulcineia Cardoso / GaúchaZH
Blocos foram registrados na manhã da última sexta-feira (3) em Nova Tramandaí.

No lugar de areia, centenas de blocos não consolidados de tamanhos diversos surgiram na beira da praia de Nova Tramandaí (RS) depois da passagem do ciclone-bomba pela região. Outros pontos do litoral gaúcho, como a praia do Hermenegildo e o Farol da Conceição, ambos no extremo sul, também ficaram cobertos pelas placas.

Segundo o oceanólogo Lauro Calliari, do Núcleo de Oceanografia Geológica da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), esse fenômeno costuma ocorrer em lugares onde a erosão marinha está mais acentuada, como as praias citadas.

Calliari relata que, há cerca de até 3 mil anos, quando o nível do mar era mais baixo foram se formando lagoas e pântanos na costa, onde se depositaram materiais finos como lama e argila. Com o passar do tempo, esses depósitos lagunares foram compactando o material, formando rochas sedimentares não consolidadas, que acabaram sendo cobertas por areia.

O avanço do mar, porém, começou a descobrir esses depósitos mais antigos, que costumam estar da zona de rebentação a até 10 quilômetros da costa, numa profundidade que chega a 10 metros.

“Podem ter vindo do mar, devido a ação das ondas, que tirou a areia e erodiu esse depósito, lançando da praia. E pode ter sido a ação de movimentação das ondas na própria faixa de areia, que também contém esses depósitos”, explica o especialista em depoimento ao site da GaúchaZH.

Calliari salienta que o material é um tipo de rocha não consolidada, cuja ação das ondas pode quebrar. Como cada vez mais os ciclones têm se intensificado na costa, a movimentação do depósito é cada vez maior. No ciclone-bomba, exemplifica o oceanólogo, as ondas de até seis metros de altura podem ter feito um estrago ainda maior.

“Ondas potentes podem erodir blocos gigantescos, exercendo ação sobre o fundo do oceano em até 40 metros de profundidade”,  comenta.

Segundo o oceanólogo Antônio Matos, da Secretaria de Meio Ambiente de Tramandaí, não há motivos para recolhimento do material porque ele faz parte daquele local. “Não é contaminante e, se não houver um outro ciclone-bomba, o mar irá repondo a areia retirada durante a ressaca. Isso deve levar até dois meses. É a dinâmica do ambiente. Não é preciso interferir na natureza “, esclarece.

Hot spot erosivo

Além dos blocos milenares, a erosão por conta de fenômenos naturais — como ciclones no oceano — também vem causando alterações profundas na costa gaúcha. É o caso do Farol da Conceição, em São José do Norte, a 70 quilômetros ao norte de Rio Grande, que está no que os oceanólogos chamam de hot spot erosivo, um ponto de erosão intensa na costa do Rio Grande do Sul.

“Ciclones extratropicais e ciclones-bomba geram ventos fortes, que geram ondas poderosas com grande energia. A pressão baixa, o vento forte e a arrebentação das ondas acabam fazendo subir o nível do mar que vai erodindo a zona costeira”, esclarece Calliari.

O Laboratório de Oceanografia Geológica da Furg vem, desde 1996, de forma sistemática, monitorando o local, inclusive usando drone. Segundo os pesquisadores, a taxa de redução da linha de praia atinge 4,37 metros ao ano. É como se o Farol da Conceição tivesse “andado” 68 metros em direção ao mar, de 1996 até 2018.

Em 1993, o farol antigo acabou caindo. Cinco anos depois, foi a vez da casa do faroleiro. Há 10 anos, o farol estava a cerca de 30 metros da linha da praia. Agora, está prestes a ser engolido pelo oceano.

Fonte GaúchaZH