Rei do surfe nos EUA

Conheça a história de George Freeth, responsável por introduzir o surfe nas praias da Califórnia (EUA).

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George Freeth nasceu em Oahu e foi um dos responsáveis por levar o surfe aos EUA.

Uma súbita tempestade atingia a baía de Santa Mônica naquele inverno de 1908. As rajadas de vento que invadiam a baía causavam grandes estragos em uma pequena frota de barcos de pesca. As embarcações estavam afundando com sua tripulação de pescadores japoneses. O barco de resgate não conseguiu sair em socorro, mas George Freeth, um exímio nadador e salva-vidas, conseguiu.

George Douglas Freeth Junior nasceu na ilha havaiana de Oahu, em 9 de novembro de 1883. Seu avô materno era William Lowthian Green, nascido em Londres. William era casado com Elizabeth “Lepeka” Kahalaunani, uma havaiana. A filha do casal, Elizabeth Kailikapuolono Green casou-se com o irlandês George Freeth, em 16 de dezembro de 1879. A união produziu seis filhos. George Freeth Junior era o terceiro.

A época mais esperada do jovem George eram as festividades típicas havaianas. O evento atraía um grande número de turistas e nativos da ilha. Era durante esses eventos que ele deixava sua marca. Embora fosse um grande nadador, George Freeth se tornou popular com suas habilidades no salto. Para o deleite dos espectadores e admiração dos concorrentes, ele realizava mergulhos “altos e sofisticados”. Entre os que testemunharam e admiraram as proezas aquáticas de George estava o jovem Duke Kahanamoku, que mais tarde se tornaria uma lenda na natação e no surfe, seu admirador e amigo ao longo da vida.

Freeth desfrutava de um excepcional sucesso nas piscinas, mas foi no oceano que se destacou. Nas águas quentes do mar das ilhas havaianas, Freeth passou grande parte de sua juventude. Foi também nessas águas que George atraiu a atenção do escritor de viagens e aventuras Alexander Hume Ford.

O escritor se estabeleceu em Oahu no início de 1907, depois de ter viajado pela Ásia e Sibéria. Chegando às ilhas, Ford foi trabalhar pesquisando e escrevendo sobre a sociedade havaiana. Um aspecto da cultura nativa que o fascinava era o surfe. Como a maioria das pessoas em todo o mundo, ele nunca tinha visto nada parecido. Ford quis aprender a praticar o esporte, banido em todo o Havaí por missionários cristãos da Nova Inglaterra.

As primeiras tentativas de Ford praticar o surfe falharam. No entanto, ele não desistiu. A persistência valeu a pena. Enquanto tentava ficar de pé em uma prancha, um jovem surfista notou sua situação e remou para ajudá-lo. Era George Freeth. Ford escreveu: “Um jovem hapahole (meio branco, meio nativo) teve pena de mim. Ele era o maior surfista das Ilhas. Aprendi em meia hora o segredo que eu tinha procurado por semanas”.

O encontro nas águas de Waikiki provou ser fortuito para ambos. A maneira educada e gentil do jovem havaiano combinava com a formação culta de Ford. Freeth era muito parecido com o autor: inquieto e de espírito aventureiro. Ford escreveria sobre as habilidades de Freeth e ficou tão tomado pelo esporte que ajudou a estabelecer o Outrigger Canoe e Surfboard Club em Waikiki Beach.

Freeth era respeitado e admirado pelos moradores locais em Waikiki Beach. Sua reputação era tal que funcionários do governo havaiano o escolheram para acompanhar uma delegação congressional dos Estados Unidos que estava visitando as Ilhas Havaianas. Freeth atuou tanto como anfitrião quanto como salva-vidas chefe da delegação. Também se juntou à expedição, que foi organizada para determinar se o Havaí poderia se qualificar para futuro estado norte-americano.

Enquanto a turnê do Congresso continuava a percorrer toda a cadeia de ilhas, Ford decidiu permanecer em Waikiki. Foi em Oahu que ele fez talvez sua maior conexão em divulgar as ilhas e o surfe. Na noite de 29 de maio de 1907, Ford viu seu colega escritor de aventuras Jack London e sua esposa, Charmian, bebendo tranquilamente no saguão do Royal Hawaiian Hotel. O sulista caminhou até o casal e se apresentou. Na época, London era o escritor mais popular dos Estados Unidos. Para sua sorte, London estava ciente do trabalho de Ford e o convidou para jantar.

Durante o encontro, os dois homens discutiam suas várias incursões ao redor do mundo. Ford falou sobre seu projeto de documentar e reviver o antigo esporte havaiano. London ficou tão cativado com a descrição do colega que concordou em experimentar o surfe nas ondas da praia de Waikiki. Embora Ford tivesse evoluído no esporte, preferiu surfar as ondas menores “internas”.

No entanto, os dois homens assistiram George Freeth deslizando rapidamente uma grande onda. London estava encantado. Reunindo sua coragem, os novatos remaram para se juntar a Freeth. London mais tarde escreveu: “Sacudindo a água dos meus olhos quando saí de uma onda, olhei para a frente e vi, rasgando na parte de trás dela, de pé em sua prancha, descuidado, um jovem deus bronzeado”. Embora o jovem havaiano fosse modesto sobre suas habilidades no oceano, London o imortalizou para leitores em todo o mundo: “Ele é um Mercúrio. Seus calcanhares são alados […]”.

As exibições de George atraíam multidões no sul da Califórnia.

As façanhas de Freeth e os relatos de London em diversas publicações se espalharam pelos Estados Unidos. Enquanto Ford e London continuavam a desfrutar do Havaí, Freeth aceitou um convite para fazer uma viagem para a Califórnia. O objetivo era aumentar o turismo no Havaí a partir do continente.

Freeth embarcou no navio de passageiros Alameda, com destino a São Francisco, em 3 de julho de 1907. A saída de Freeth do Havaí foi notícia de primeira página no principal jornal da ilha, The Pacific Commercial Advertiser. Sob a bandeira “GEORGE FREETH OFF TO COAST – Will Illustrate Hawaiian Surfriding to People in California“, o artigo, acompanhado de um retrato de Freeth, detalhava as contribuições do jovem de 23 anos para reviver a outrora proibida prática do surfe.

Três semanas depois de deixar Honolulu, Freeth foi flagrado surfando nas ondas da comunidade de praias do sul da Califórnia, em Venice. Sua exibição atraiu grandes multidões de espectadores. Em 22 de julho de 1907, uma pequena notícia com a manchete “Os surfistas chamam a atenção” apareceu no jornal de Santa Mônica “The Daily Outlook”.

A chegada do jovem havaiano ao sul da Califórnia não poderia ter ocorrido em melhor hora. O estado americano estava passando por um grande crescimento econômico e populacional. Venice e Redondo Beach eram peças centrais de desenvolvimento imobiliário ao longo do seu litoral deslumbrante, impulsionado pelos visionários investidores Abbot Kinney e Henry Huntington.

Em 1907, ambas as cidades do resort estavam atraindo milhares de visitantes, apaixonados pelas praias. No entanto, o oceano convidativo poderia ser mortal para aqueles que tentassem nadar entre as ondas. Reconhecendo os perigos inerentes da costa, Kinney e Huntington construíram piscinas adjacentes às suas áreas de praia. Essas piscinas de água salgada quente se tornaram muito populares.

Embora as piscinas oferecessem recreação, o oceano era muito mais sedutor para alguns banhistas, especialmente para os mais jovens. Muitos potenciais compradores de propriedades costeiras temiam que a atração de nadar no oceano se mostrasse muito tentadora para seus filhos. No entanto, a aparição de George Freeth em julho de 1907 marcou o início da mudança.

Seis meses depois de sua chegada à Califórnia, Freeth se deslocava entre as duas comunidades litorâneas à bordo da Ferrovia Elétrica do Pacífico de Huntington. Em Redondo, empregado de Huntington, Freeth surfava duas vezes por dia sob a propaganda “A Maravilha Havaiana”. Ao longo da praia de Venice, Freeth fazia exposições de surfe e trabalhava com os salva-vidas para Kinney. Ele ensinou aos seus futuros salva-vidas as mais recentes técnicas e tratamentos em primeiros socorros médicos.

Em julho de 1913, Duke Kahanamoku visitou George Freeth. Um ano antes, Duke havia chocado o mundo esportivo com seu tempo recorde nos 100 metros livre e, a partir disso, atraiu um enorme número de seguidores. Para o deleite da multidão, Kahanamoku e Freeth, juntamente com vários outros havaianos visitantes, saíram para surfar. Quando os repórteres mais tarde pediram ao campeão olímpico para discutir suas experiências em Estocolmo em 1912, Kahanamoku reclamou que os Estados Unidos teriam dominado os eventos olímpicos de mergulho se seu companheiro havaiano, George Freeth, tivesse sido autorizado a competir. Duke classificou Freeth como o melhor mergulhador do mundo.

De outubro de 1913 a fevereiro de 1915, Freeth foi o chefe de natação no prestigiado Clube Atlético de Los Angeles. O clube tinha entre seus membros muitos dos líderes, empresariais poderosos e influentes de Los Angeles, entre eles, seus antigos empregadores, Abbot Kinney e Henry Huntington. A chegada de George ao LAAC foi o ponto de virada para o clube, que desenvolveu grandes profissionais de natação do país sob sua direção. Sua lista eventualmente incluiu os medalhistas de ouro olímpicos de natação Johnny Weismueller e seu companheiro havaiano Clarence “Buster” Crabbe, ambos mais tarde atuaram nos filmes Tarzan.

Freeth também era salva-vidas e complementava a renda trabalhando como instrutor de natação.

Em 1915, o Clube de Remo de San Diego se aproximou de Freeth para que assumisse o comando de seu programa de natação, em expansão. Assim como o LAAC em Los Angeles, o Clube de Remo incluía políticos locais e líderes cívicos. Freeth aceitou a oferta e se mudou para o sul.

Durante os meses de verão, ele complementou sua renda trabalhando como instrutor de natação e supervisor de piscina na Ilha Coronado, adjacente ao famoso Hotel Del Coronado. Ele também fez performances de mergulho, que foram elogiadas pela mídia local. Apesar de sua grande reputação, ele lutava financeiramente. Sua posição piorou consideravelmente quando, em 14 de setembro de 1916, o conselho do Clube de Remo, cancelou seu contrato devido à escassez de fundos.

Diante do aprofundamento das dificuldades financeiras durante os meses de inverno, Freeth trabalhou na Companhia de Bicicletas e Armas de San Diego, propriedade de um simpático membro do Clube de Remo. O trabalho de Freeth na loja de artigos esportivos foi uma decepção para ele. Toda a sua vida tinha sido no mar. Como vendedor, perdeu grande parte do status que tinha desfrutado trabalhando nas praias de Venice e Redondo.

Enquanto continuava seu trabalho de vendas, Freeth testemunhou o crescente impacto da Primeira Guerra Mundial na cidade de San Diego. Na primavera de 1918, o Exército dos EUA iniciou um programa para alistar e treinar um milhão de militares. Bases militares em toda a área foram preenchidas. Os recém-chegados, quando receberam licença, visitaram as praias da região. À medida que o tempo melhorou, milhares de militares se encontravam tomando sol ao longo da costa local.

No primeiro fim de semana de maio de 1918, San Diego, envolto por uma onda de calor da primavera, recebeu milhares de pessoas em suas praias, sem a mínima proteção de salva-vidas. No primeiro domingo, fortes correntes marítimas apareceram na costa lotada de Ocean Beach. Na vista de milhares de espectadores, vários banhistas foram arrastados. Cansados, eles começaram a gritar por ajuda. Sem um corpo profissional de salva vidas, as vítimas se afogaram. Sob o risco de suas próprias vidas, vários militares se lançaram ao mar para ajudar, apenas para sofrer o mesmo destino trágico. Quando o desastre aconteceu, treze homens perderam suas vidas.

Os promotores de Ocean Beach estavam bem cientes dos perigos inerentes ao seu resort. Temendo a ruína financeira, no entanto, continuaram a divulgar a pequena cidade e suas comodidades recreativas. Os publicitários também anunciaram que novas medidas de salvamento estavam sendo implementadas para proporcionar total segurança ao público. Entre as mudanças feitas estava a contratação de George Freeth como salva-vidas da área.

Agora, empregado dos proprietários do resort, Freeth prestou serviços de salva-vidas e voltou a demonstrar suas habilidades de surfe para as multidões de visitantes que lotavam as areias e o calçadão da região. No verão de 1918, Freeth estava no topo de sua forma. Sob seus olhos atentos e dos salva-vidas que ele comandou, nenhum banhista se afogou.

Enquanto Freeth guiava sua equipe durante uma temporada de verão de sucesso, oficiais militares locais enfrentaram uma severa escassez de moradias na base. Com o país totalmente envolvido na Primeira Guerra Mundial, San Diego continuou a ser um dos principais centros de treinamento para novos recrutas. Também se tornou um grande centro convalescente para veteranos feridos no conflito. Quando várias bases se encheram além da capacidade, os comandantes foram forçados a abrigar pessoal de serviço em prédios públicos locais. Nessas condições superlotadas, a disseminação de doenças infecciosas tornou-se cada vez mais comum, especialmente de uma nova cepa mortal de gripe.

A epidemia de Gripe Espanhola de 1918 foi a pior da história dos Estados Unidos. Matou mais americanos em um único ano do que as mortes combinadas dos Estados Unidos em duas guerras mundiais. Globalmente, matou mais de 20 milhões de pessoas. A doença era particularmente mortal para os militares americanos. San Diego foi especialmente atingida por causa da grande concentração de militares.

O vírus também se espalhou rapidamente fora das bases militares. Três semanas antes do Natal, funcionários do Departamento de Saúde impuseram uma quarentena em toda a cidade. Contudo, apesar da quarentena e do uso generalizado de máscaras, a crise não diminuiu. Em uma cruel reviravolta do destino, o vírus atingiu aqueles em seu auge da vida. Em 15 de janeiro de 1919, Freeth, de 35 anos, contraiu a doença. Em excelente forma antes do início da doença, ele resistiu aos primeiros ataques do vírus.

Apesar disso, no final da noite de 7 de abril de 1919, Freeth morreu.

O Rei do Surfe espalhou o esporte pela costa californiana, mas ele era acima de tudo, um humanista. Seu apreço pela vida humana ficou marcado pela coragem daquele inesquecível inverno de 1908.

Naquela tempestade de dezembro de 1908, George Freeth passou mais de duas horas nas águas geladas e resgatou sete homens. Sofrendo de hipotermia, o nadador ainda saiu em auxílio dos três últimos náufragos que se desesperavam. Ele manteve os pescadores respirando até ser finalmente resgatado pela equipe de voluntários que ele mesmo treinou. Todos sobreviveram.

Por sua bravura, ele recebeu a “Medalha de Ouro do Corpo de Salvamento dos Estados Unidos. A vila japonesa de pescadores nas proximidades mudou seu nome para Port Freeth, em gratidão.

Seu legado pode ser visto em todas as praias em que um salva-vidas está sentado em uma torre, com uma prancha de resgate nas proximidades.

Texto traduzido e adaptado do texto “George Freeth: King of the Surfers and California’s Forgotten Hero”, de Arthur C. Verge.

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