Italo Ferreira

Superação que vale ouro

Uma reflexão sobre a trajetória de Italo Ferreira e os impactos do ouro olímpico no esporte, por Bernardo Piquet.

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Dedicação e superação fazem de Italo Ferreira o primeiro campeão da história do surfe olímpico.

Na madrugada da terça-feira passada (27/07), o mundo acompanhou a conclusão da primeira participação do surfe como uma modalidade olímpica da história. O momento coroou com a medalha de ouro o surfista brasileiro Italo Ferreira.

O evento, muito provavelmente, foi a maior exposição global que o esporte teve em sua história. No Brasil, pode-se assumir que o impacto na divulgação do surfe foi ainda maior diante do triunfo (e, também, da polêmica) da seleção brasileira de surfe. E pensando no crescimento do esporte no Brasil, alguns motivos podem ser apontados para entender o Italo como um dono acertado para essa medalha.

A história de vida do Italo Ferreira é um clássico conto olímpico de talento, dedicação e superação. De origem humilde, começou a surfar em uma tampa de isopor que seu pai usava para preservar sua pesca – história repetida nas transmissões e reportagens. Por meio de um esforço descomunal de seus pais, conseguiu obter a primeira prancha de surfe para começar sua jornada de ouro.

Deve-se ter muito cuidado para não glamourizar, de forma alguma, as condições precárias em que os talentos brasileiros (e não apenas esportivos) são submetidos para desenvolver suas habilidades, ascender socialmente e gerar impacto na coletividade. Contudo, diante da realidade de pouco investimento, não dá para negar que a história dele gera empatia e acende uma chama de motivação e esperança em muitos e muitas jovens e famílias brasileiras.

Potiguar superou infância humilde.

Outro elemento importante é o fato de sua imagem estar associada a atributos acessíveis de um campeão: disciplina, foco, treinamento e profissionalismo. Inegável que para atingir os feitos esportivos que Italo já conquistou, talento é um componente necessário. Porém, quando esses outros atributos prevalecem na construção da imagem do agora ídolo nacional, a conquista olímpica não “só” acende a já mencionada chama, como também indica o caminho de como chegar lá.

Um terceiro ponto que vale destacar é sua origem nordestina. Se ser brasileiro lhe permite comunicar com todo o país, ser do Nordeste lhe conecta de forma muito íntima e especial com um público (bastante grande, diga-se de passagem) historicamente desassistido e destino de investimentos ainda menores do que a baixa média nacional (e, mais uma vez, vale dizer, não apenas no âmbito esportivo).

A conquista olímpica ilumina com mais intensidade essa região do país e seus talentos. Baía Formosa, por exemplo, a terra do campeão, confirma sua fertilidade na geração de talentos para o surfe. Foi lá que o Fabio Gouveia, para muitos um dos surfistas brasileiros mais importante de século passado, lapidou seu celebrado estilo, ainda é lá que nosso medalhista treina e é de lá também que uma nova safra de surfistas supertalentosos desponta aos olhos do público, com destaque para Matheus Jhones (8 anos de idade) e Arthur Villar (9).

Por fim, considerando que eram apenas dois brasileiros em cena, cabe ponderar o impacto de ter sido o Italo e não o Gabriel – o outro candidato nacional possível. Medina entrou nas Olimpíadas sendo, e ainda é, o grande nome do surfe brasileiro. Tem na sua biografia feitos históricos por ser o primeiro brasileiro campeão e bicampeão mundial de surfe. Sua notoriedade já extrapola em muito o universo do esporte. Ele é uma celebridade e transita bem entre elas.

Ao pendurar no pescoço do Italo a primeira medalha de ouro do Brasil nessa Olimpíada e do surfe na história do esporte, o surfe nacional revela ao grande público que sua força não está apenas nos ombros de um único talento – como é Gabriel. O Brasil tem uma verdadeira tropa de choque pronta para conquistar novos e mais territórios. Investimento nos talentos, vale dizer, será muito bem-vindo para que essa história continue sendo escrita.

Bernardo Piquet é advogado e empreendedor. Amante, praticante e observador do surfe.