Leitura de Onda

Sem Charles, um novo Gabriel

Na luta pelo tri mundial, Gabriel Medina abre o jogo em entrevista à coluna Leitura de Onda, do Waves.

Pela primeira vez na carreira, Gabriel Medina disputará as etapas do Championship Tour com um novo treinador.

“Pai, eu quero ser campeão mundial.” Entre o pedido de um garoto de 11 anos chamado Gabriel Medina, feito ao padrasto Charles Saldanha, e o início da perna australiana do circuito mundial, no pandêmico 2021, o mundo testemunhou uma das maiores parcerias técnicas da história do surfe.

De um lado, um pai-treinador obsessivo, dedicado e disciplinado; de outro, um filho-atleta com talento excepcional e espírito inquebrável em competições.

Neste curto intervalo de 16 anos, Charles ajudou Gabriel a ganhar a eternidade.

Foram dois campeonatos mundiais, 14 vitórias na elite, o mais novo (ao lado de Kelly Slater) a ser campeão do WCT, o mais novo a vencer prova no WQS, títulos em todas as categorias amadoras, o surfista com melhor série histórica recente em arenas distintas, como a piscina de ondas do Rancho e Pipeline, e muitas outras conquistas.

Charles cumpriu seu papel, como técnico e pai. Aquele menino de 11 anos, autor de sua própria profecia, agora é um dos atletas mais famosos e bem-sucedidos do Brasil. Aos 27 anos, recém-casado e em busca do tricampeonato mundial (meta declarada desde o primeiro título, em 2014), Gabriel anuncia novos voos, desta vez sem o pai.

“Vai ser um ano diferente para mim. É a primeira etapa que vou sem o Charlão. Ele me preparou esse tempo todo para um dia eu me tornar independente. Agora, ele terá esse mesmo trabalho (de treinador) com a Sophia (Medina, irmã de Gabriel). Inclusive, ele ficou treinando a So (apelido da irmã) no Brasil. Estou super animado e feliz por essa nova fase da minha vida”, disse o surfista, em entrevista exclusiva à coluna Leitura de Onda, do site Waves.

Na Austrália, o bicampeão terá um novo treinador, para reforçar o surfe em etapas normalmente difíceis para Gabriel, apesar do título na Gold Coast, em 2014 (prova que em 2021 não vai acontecer). Um novo nome deve surgir nos próximos dias.

“Vai ter um cara para me ajudar. Então, agora, é me preparar para essa perna australiana que sempre foi desafiadora para mim”, disse, para em seguida complementar, quando questionado sobre o nome do técnico. “Ainda não (tenho um nome), porque estou acertando isso até a próxima semana.”

Vice-campeão da etapa inaugural em Pipeline, Gabriel vive uma nova rotina, um pouco mais distante dos holofotes.

“Me senti uma pessoa normal, foi muito bom!”

Gabriel contou que a pandemia mudou o modo dele ver as coisas. Fez com que valorizasse mais pequenos e simples prazeres, como ficar em casa com sua mulher, Yasmin, numa rotina um pouco mais distante dos holofotes e de atenção da mídia.

“A pandemia foi horrível. Afetou muita gente do nosso país e do mundo, né? Tudo parou e muitas pessoas morreram. Triste! Mas, por outro lado, vivi algo que talvez eu tenha vivido a última vez com 11 anos: um tempo sem rotina, para ficar em casa, tocar violão, jogar um game, sem hora para dormir, sem hora para acordar. Confesso que me senti uma pessoa normal, foi muito bom”, disse.

A única viagem que ele e Yasmin fizeram, em 2020, foi para as Maldivas, no fim do ano, pouco antes de Pipeline, quando a pandemia parecia perto do fim. A nova onda pandêmica o assustou. “Não sei se um dia as coisas vão voltar ao normal.”

“Enquanto não conseguir o tri, não mudo o mindset”

Ainda que o mundo não volte ao normal em 2021, Gabriel quer sair da temporada com o terceiro título no bolso. Ele mantém as velhas metas, mas agora, talvez, com uma visão um pouco mais relativizada e madura das competições.

“Minha vontade é a mesma. Enquanto eu não conseguir o tri, não vou mudar meu mindset, de querer ganhar e conquistar meu objetivo. Em ano de pandemia ou não, teria o mesmo peso. É claro que seria melhor se fosse numa situação normal, com torcida na praia, mas não reclamaria se fosse num ano tão diferente. Este é meu foco”, afirmou, para em seguida ponderar. “Depois desse último ano de mudanças, tanto na minha vida pessoal como no mundo, sem competições, eu pensei em outras questões, inclusive em dar valor ao que a gente tem e nas pequenas coisas da vida. A gente não sabe até quando estará aqui. Tem que aproveitar ao máximo, nos mínimos detalhes.”

Top brasileiro ao lado de John John Florence no pódio do Billabong Pipe Masters.

“Kelly é sem explicação”

Em Pipeline, etapa de abertura da temporada que aconteceu no fim do ano passado, o mundo do surfe viu um Gabriel mais calculado, sem excessos. Sem fazer muito barulho, o brasileiro chegou à final e, por pouco, não sai do tubo que provavelmente lhe daria a vitória sobre o rival, John John Florence, o melhor surfista da etapa:

“Todos estavam acordando (da pandemia), né? Não parecia campeonato. Cada bateria que eu passava era como free surf, não tinha gente na praia. Muito estranho! Mas fiquei feliz de ter começado bem. Sobre o John John, é sempre difícil competir com ele. O cara estava surfando muito, mas eu quase o peguei na final… foi por pouco.”

Em Pipeline, Gabriel ficou muito impressionado com mais uma demonstração de longevidade técnica de Kelly Slater, que completou 49 anos em fevereiro deste ano. “Foi quem mais me surpreendeu na etapa. O cara, com a idade que tem, ainda surfa aquilo… ele é sem explicação. Pega muito e não tem limites”, disse o brasileiro.

“Vai ser punk ficar sem surfar por duas semanas”

A rotina de treinos e a preparação de equipamentos para a sequência da temporada, na Austrália, estão em dia: “Tenho treinado e surfado. Fiquei duas semanas, agora, na Califórnia. Quando estava em Maresias, tinha a mesma rotina. Sobre as pranchas, sigo com o Cabianca, com as mesmas medidas, porque mantive o mesmo peso, então não tem muito o que mexer! Mas o Johnny sempre aparece com algo novo para testar…”

O próximo desafio, bem antes de a sirene da primeira bateria tocar na Austrália, será atravessar a quarentena obrigatória imposta pelo governo local a todos os atletas da elite da WSL. “Vai ser punk ficar sem surfar por duas semanas, ainda mais pouco antes das competições. Mas este é o novo mundo, sejamos bem-vindos. Fiz uma quarentena no México, a caminho do Havaí, e foi de boa. Esperamos em Puerto Escondido, podendo surfar! (risos). Na Austrália, não será possível”, disse o local de Maresias, que contraiu covid-19 no começo de março do ano passado, bem no início da pandemia.

Gabriel mantém críticas abertas ao novo formato do Circuito Mundial.

“E se, no dia decisivo de Trestles, o líder contrair o vírus?”

Das três novidades da perna australiana do WCT, Gabriel diz não conhecer a onda de Newcasttle nem a misteriosa Rottnest Island. “Parecem ser etapas boas, de performance! Não tenho muita ideia da onda. É a primeira vez, né? Vai ser legal.”

Sobre a decisão do circuito mundial, prevista para uma final em Trestles com os cinco melhores surfistas da temporada, Gabriel mantém as críticas públicas que têm feito ao novo formato. “Trestles é uma onda fraca. A gente merecia disputar o título em uma onda de verdade. Quem conhece, sabe que se trata de um pico de direita manobrável. Favorece muito os regulares. Também acho injusto o formato. Imagina o Lewis Hamilton ganhar oito corridas no ano e ter que esperar por outros quatro adversários para competir numa pista ‘loteria’, em que qualquer um pode vencer? A temporada até ali não valeria nada, acho injusto. E ainda tem a Covid-19: e se, no dia decisivo, na finalíssima, o líder do ranking contrair o vírus? Como fica?”

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