Leitura de Onda

Máquina de carne e osso

Colunista Tulio Brandão destaca fatores positivos da campanha de Filipe Toledo durante campanha do bicampeonato obtido em Trestles, Califórnia.

Filipe Toledo é bicampeão em Trestles, Califórnia, para alegria de uns e tristeza de alguns setores do mainstream.

Filipe Toledo confirmou, em Trestles, pelo segundo ano consecutivo, a condição de máquina mortal de surfe de alta performance. Zero surpresa, para desespero do grande público que amanheceu de vermelho por Griffin Colapinto e, também, me arrisco a dizer, para tristeza de parte do mainstream que ansiava por outro campeão.

Não teve jeito: os jornais em San Clemente rodaram no domingo sem a manchete esperada, mas quem esteve nas pedras de Lowers no sábado pôde testemunhar, sem qualquer exagero, um inesquecível espetáculo de surfe. Primeiro, dos desafiantes ao título, especialmente Ethan Ewing, e depois, claro, do maior naquela arena, o novo bicampeão mundial de surfe.

(E se o San Clemente Times tiver realmente um editor tenaz, perceberá que o troféu ficou na cidade e que o melhor surfe do mundo é um bem a ser celebrado por todos.)

Não há, hoje, um único surfista que esteja perto de Filipe se considerarmos a seguinte combinação de filtros: critério de julgamento da temporada, arenas escolhidas para a disputa (com notada prevalência de direitas manobráveis) e finais decididas no parque de diversões de Trestles.

Filipe é também o mais letal finalista do WCT. Seu índice de vitórias em baterias decisivas supera os 70% (70,83% incluindo finais em piscina e WSL Finals). Não há, pelo menos desde a criação da WSL, um surfista com número significativo de finais que pelo menos chegue perto deste percentual. “Eu me sinto invencível”, costuma dizer.

Filipe Toledo em finais desde 2015

2015 – 3 finais e 3 vitórias
2017 – 2 finais e 2 vitórias
2018 – 3 finais, 2 vitórias e 1 derrota
2019 – 3 finais, 1 vitória e 2 derrotas
2021 – 3 finais, 2 vitórias e 1 derrota
2022 – 6 finais, 3 vitórias e 3 derrotas
2023 – 4 finais, 4 vitórias

De suas declarações em entrevistas, é possível também intuir o caminho que leva Filipe às vitórias: o prazer de entrar numa bateria (que definitivamente não é compartilhado por todos os seus adversários), a certeza inabalável de sua capacidade técnica e uma noção bastante ampliada de tática competitiva. Junto a isso, Filipe tem uma fortaleza mental bastante sólida, costurada por laços familiares profundos.

Antes do fim, Filipe é um feliz pai de dois filhos: um dia talvez sejamos capazes de medir, de modo objetivo, o impacto da explosão de amor gerada pela paternidade.

Essa máquina de surfe paradoxalmente tão humana não teve medo de expor, em momentos distintos, sua dificuldade com ondas de consequência sobre fundos rasos de coral e, ainda, um período difícil em que se aproximou da depressão.

A novidade é que, assim, um herói de carne e osso, ele estranhamente pode ficar ainda mais perto de novas conquistas. Ganha quem consegue dialogar com as falhas.

O próximo – e, talvez, mais importante – desafio a ser superado pelo agora bicampeão é, por certo, Teahupoo nos Jogos Olímpicos. O time 77, com a liderança do vencedor Luiz Carlos Pinga, já deve ter uma estratégia desenhada para preparar Filipe até lá.

Ethan Ewing surpreende com recuperação de fratura das vértebras e chega às finais em Trestles.

O drible em Ethan

Ethan Ewing era a peça que faltava a um grande dia. Recuperado de sua fratura das vértebras L3 e L4 (provavelmente lesões menos complexas, do ponto de vista de compressão, tração e desvio, porque permitiram uma recuperação muito rápida), ele estava a caminho de construir uma quase milagrosa história de recuperação. Preciso, veloz e potente, Ethan só patinava na falta de variação de suas manobras e no abuso do uso do fundo da prancha em alguns movimentos.

Filipe, à espera do desafiante, percebeu a lacuna da repetição das manobras e, na primeira bateria da final, usou seu variado arsenal combinado de borda e manobras áreas para se diferenciar do australiano. Nas duas séries mais importantes da bateria, os surfistas confrontaram de modo direto suas técnicas. Filipe venceu com um 9 e um 8,93, com mais velocidade, variedade e inovação. Deu certo, embora os juízes tenham achatado perigosamente a diferença de pontos entre as ondas.

(A diminuta diferença no placar é um alerta para o critério de julgamento de 2024, ano que completará uma década de amplo domínio da tempestade brasileira.)

Na segunda e derradeira bateria, os inventores desta desastrosa fórmula do WSL Finals entenderam definitivamente por que, no surfe, a janela de evento deve ser maior que um dia. O maral entrou, como previsto em todos os modelos, e bagunçou completamente o line-up de Trestles.

Se a entidade tinha a expectativa de chamar o público leigo para o surfe com este formato, os inacreditáveis quase 20 minutos que os surfistas demoraram para pegar a primeira onda e, depois disso, a má qualidade das paredes surfadas enterraram definitivamente os planos dos marqueteiros de plantão.

Quando a disputa foi iniciada de verdade, a coisa de 15 minutos do fim, Filipe usou o profundo conhecimento do pico na escolha de ondas e se descolou de Ethan com um 7,5 e um 6,77. Ethan ainda teve tempo de fazer o mais bem avaliado 7,67 do ano, mas não achou outra onda à altura.

O australiano, disse o próprio Filipe em uma entrevista pós-título, teria chances de vitória apenas se encontrasse séries com paredes sólidas. Filipe pegou a prioridade, mas sabia que, naquelas condições de mar, seria muito difícil mesmo que a bateria mais importante do ano fosse agraciada com ondas de qualidade.

A derrota não tira um milímetro do mérito de Ethan, que nesta final surfou como nunca na vida. A performance avassaladora nos confrontos com João Chianca e Griffin Colapinto revela um surfista maduro, que já entendeu a minúcia da construção de suas notas. Ele é fundamental, à medida que recupera e revitaliza, com uma sendo estético único, os fundamentos mais sagrados do surfe.

Dito isso, a WSL precisa, pelo bem da evolução do esporte, ampliar a rigidez no julgamento em relação a algumas das lacunas do australiano. A já mencionada falta de variedade, por exemplo, ficou claramente estampada num dia em que ele foi obrigado a competir em quatro baterias na mesma onda, num espaço curto de tempo. Na segunda bateria da final, seus laybacks e arcos já soavam como mais do mesmo.

É preciso, ainda, ter mais rigor (não só com Ethan) com manobras que abusam do uso do fundo de prancha na elite. O australiano é um magistral surfista de borda, quando consegue a angulação e a velocidade necessárias ao movimento. No entanto, não é incomum vê-lo soltar a rabeta no meio da parede em situações menos confortáveis.

E, antes do fim, o surfe dos melhores do mundo precisa estar conectado ao lip. É a cartilha fundamental da dificuldade imposta ao esporte. E Ethan, neste quesito, ainda tem muito a provar: o gênio dos arcos na face mais gentil da onda explora menos do que devia (e com menos contundência) as zonas mais críticas.

Torcida não ganha jogo. Máxima do futebol também se aplica ao surfe, no caso da derrota de Griffin Colapinto para Ethan Ewing.

“Griff for Champ”

Griffin Colapinto transformou San Clemente num mar vermelho. A cor é possivelmente uma alusão à cor dos times da High School local. A homenagem foi linda, preciso dizer. É legal ver um surfista abraçado desta forma intensa por toda a comunidade. Colapinto certamente merece o carinho – além de grande surfista, aparentemente é um ser humano de qualidade. Na noite da comemoração do título do Filipe, ele foi visto na pista de dança com a camisa de Seleção Brasileira abraçado ao time de Toledo.

A abordagem dos responsáveis pela campanha, no entanto, foi arriscada demais e um tanto ingênua. Ninguém morre de véspera, assim como ninguém ganha de véspera. Construíram, com enormes faixas em que se lia “Griff World Champion” (Griff Campeão Mundial) uma ideia de título antes mesmo da disputa entre o californiano e o terceiro colocado. Pressionaram demais o garoto e os próprios juízes.

A própria WSL, como já dito na última coluna, embarcou nesta cilada ao tentar sugerir uma final provável entre Colapinto e Filipe.

E, no caminho da final, havia Ethan. Ainda mais importante, no caminho do título, se vencesse o australiano, Griff teria que superar o melhor surfista do mundo naquelas condições, Filipe.

Dentro d’água, contra Ethan, o californiano surfou bem, mas sem aquela pitada de risco que, em momentos decisivos e com o título mundial em jogo, é necessária à vitória. Imaginaram que seu excelente surfe e a pressão da torcida vermelha fossem suficientes. Faltou combinar com o australiano.

De todo modo, Griff abre 2024 como um forte candidato ao título, seja lá que formato apresentarem para a temporada. Não há mais nada a ser provado, em termos técnicos ou competitivos. E esta é uma grande notícia para ele.

João Chianca garante merecido quarto lugar depois de vencer aussie Jack Robinson.

João sem medo

João Chianca merece muitos aplausos. Alcançou o palco principal do esporte, num ano em que John John Florence e Gabriel Medina, mesmo dentro do circuito por toda a temporada, ficaram de fora. Aproveitou cada milímetro de suas virtudes e, de forma merecida, manteve seu quarto posto garantido ao vencer o confronto com o australiano Jack Robinson.

O brasileiro fez uma leitura muito inteligente da temporada. Explorou no limite as ondas em que, de alguma forma, seria competitivo. Ciente do poder de seus adversários, atacou algumas de suas fragilidades e, para 2024, seguirá costurando eventuais pontas soltas. João é uma pedra preciosa bruta com uma vantagem importante: ele está disposto ao sacrifício da evolução.

O ataque à onda em sua melhor nota na bateria contra Robinson, desprendido e sem medo, revela que ele sabe o que é preciso para seguir vencendo no WCT.

Robinson confirmou o que já esperávamos: naquela arena, ele não tem surfe para disputar título mundial. Mas chega em 2024 sólido para possíveis novos formatos.

Título feminino fica com Caroline Marks, surfista da Flórida.

Carissa x Marks

Belíssimo o título da Caroline Marks, saindo de trás, em mais uma jornada surpreendente no WSL Finals feminino. A americana é um sopro de talento goofy numa categoria inteiramente dominada por regulares.

Nas ondas iniciais da primeira final com Carissa Moore, ficou claro que Marks não perderia jamais o título naquelas condições de mar. Elas poderiam entrar 10 vezes na água – a floridiana provavelmente venceria todas. Foi uma vitória, portanto, repleta de méritos pela performance na decisão.

A derrota de Carissa Moore – a segunda consecutiva como líder do circuito – é uma tragédia esportiva de difícil recuperação. A havaiana não fez um ano particularmente brilhante, mas seu espírito competitivo, sua concentração e sua capacidade técnica de se adaptar a diferentes condições ao longo de toda a temporada a levaram pelo segundo ano seguido ao topo do ranking após 10 etapas. Não premiar este esforço é um tiro no pé do esporte – induz o surfista à ideia confortável de apenas estar entre os 5 do mundo até o fim do ano, e não a caçar a liderança a qualquer custo.

O exemplo de Moore serve para encerrar o texto com um apelo pelo final da WSL Finals e pelo corte de meio de temporada. O surfe, sim, é capaz de ser entretenimento em disputa de pontos corridos. O problema, afinal, jamais foi o formato, e sim a gestão da WSL. Que 2024 venha com novidades reais, e não com invenções marqueteiras.

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