Encantamento na Arte de Surfar

Felipe Zobaran reflete sobre o encantamento na arte de surfar e destaca o brilho de etapas como Teahupoo e Pipeline.

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WSL / Will H-S
Para Felipe Zobaran, Teahupoo – assim como Pipeline – é uma das etapas mais importantes do Tour.

Antes que você continue a ler este artigo, peço licença para esclarecer que trata-se de uma opinião que espera ser sustentada por algumas ideias. Se por qualquer razão o texto projetar nomes e situações não especificamente descritas, a responsabilidade é da intuição do leitor.

Não vejo o surf apenas como um esporte. O surf é também uma forma de arte, comparável à dança, por exemplo. Assim como os dançarinos se movem ao ritmo da música, os surfistas desenvolvem manobras de acordo com a forma e a velocidade das ondas. As ondas são como a música, as cores ou as palavras. Nelas o surfista/artista expressa intuição e inteligência para criar (man)obras de encantamento.

Existe, no entanto, uma diferença importante que, a meu ver, engrandece a arte de surfar. Enquanto a música é articulada pelo homem com uma intenção específica, as ondas são geradas pela força da natureza, fora do controle humano. Ainda que não haja alma viva por perto, as ondas quebram do mesmo jeito. Isso confere a elas um caráter primitivo, fascinante, imprevisível. A arte de surfar é essa interação intuitiva e subjetiva do surfista com a energia das ondas.

Sendo o surf uma forma de arte, sempre foi difícil encontrar uma fórmula universal de disputa competitiva entre surfistas. Como julgar superior uma certa maneira de surfar, um estilo? Vai que você gosta de um e eu, de outro? É uma questão filosófica mesmo. Arte é estética e os conceitos de belo e feio dependem de cultura, sentimentos e valores. A consequência disso é que o dilema de nomear os melhores surfistas do mundo raramente foi resolvido com matemática e unanimidade.

Durante os primeiros anos do surf competitivo, o melhor surfista na água era o sujeito que pegasse a maior da série e encaixasse manobras intuitivas em harmonia com a forma e a velocidade da onda. Esses valores, derivados da antiga cultura havaiana, têm origem na relação primal do homem com a natureza.

Quarenta anos atrás, os australianos consolidaram a dança em outro ritmo, batendo, rasgando, estraçalhando as ondas. Os próprios verbos dão uma ideia do impacto da transformação artística. Foi o ocaso de personagens históricos, mestres do estilo zen em ondas perigosas. Embora nunca esquecidos, esses ídolos ficaram para trás de uma hora para outra no cenário competitivo mundial.

Naquele momento e por muitos anos, a radicalização em favor da dança disruptiva diminuiu a importância das ondas nos campeonatos de surf. O resultado foi a proliferação de provas importantes em ondas de qualidade inferior. Nos anos 80, bastava haver uma merreca surfável para o campeonato acontecer. E tome batida, rasgada e cabeçada.

Surfistas de uma geração inteira do circuito mundial, incluindo alguns brasileiros, ganharam títulos em ondas irrisórias, sem ter noção de como enfrentar um triângulo pesado em Pipeline.

Com o tempo, esses critérios de avaliação se mostraram afastados da essência do surf, da interação intuitiva com as ondas mais desafiadoras, e insuficientes para criar e sustentar o reconhecimento pleno das habilidades dos competidores.

A revolução positiva aconteceu com a adoção do conceito “melhores surfistas nas melhores ondas”. Partindo do princípio de que os melhores surfistas já faziam parte do circuito, a novidade foi a volta do foco para a qualidade das ondas.

Muitos surfistas profissionais sofreram para se adaptar. Quem se especializara em desferir duzentas manobras numa merrequinha até encalhar na areia se viu de repente no outside de Grajagan sem a menor ideia de como escolher uma linha segura para sobreviver ao Speedies Bowl.

Hoje em dia, Grajagan e Cloudbreak não fazem mais parte do circuito. Infelizmente, porque são ondas que metem medo. Grandes surfistas confiam nas suas habilidades físicas e psicológicas para superar o medo. Essas tentativas humanas de superação, nem sempre bem sucedidas, levam o espetáculo a outra dimensão.

Sobraram Teahupoo e Pipeline. São, para mim, as ondas mais importantes do circuito mundial, com potencial de alto risco, que punem a hesitação e o medo. Mas recompensam a coragem com encantamento completo. Acho até que essas etapas deveriam valer mais pontos do que as outras. Aliás, este é um bom assunto para outra ocasião.

Os surfistas que, além de versáteis nos outros picos do circuito, forem capazes de dominar Teahupoo e Pipeline, serão os meus favoritos. É preciso que a obra-prima da arte de surfar seja algo parecido com um drop gigante, desgarrado, emendado numa virada no limite para dentro de um salão rodando.

Postulantes ao título de campeão mundial que têm dificuldades nesses dois picos deveriam procurar coaches ou psicólogos para ajudá-los a superar o medo. Não adianta ter no repertório manobras expressivas de autoria própria. Se faltarem intuição e coragem para se arriscar numa onda grande e pesada, o encantamento fica incompleto. Não importa o que diga o ranking da WSL no fim do ano.

“Respeitamos a liberdade editorial de todos os nossos colunistas. As ideias expressadas no texto acima nem sempre refletem a opinião do site Waves”.