The Performers, a mudança

Kemel Addas Neto narra a história do filme The Performers, um divisor de águas no início dos anos 80.

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Gary “Kong” Elkerton e seu power surf bem acima da média nos anos 80.

Sempre falo que a melhor coisa que temos para manter nossas mentes salgadas são os filmes de surfe! Não importa realmente se você mora em cidades praianas ou em lugares como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. A verdade é que os surfistas que possuem o hábito de assistir aos filmes de surfe estão sempre se sentindo na praia e ainda ficam um pouquinho mais “pilhados”. Reparem!

Os filmes de surfe nos aproximam das ondas e, se combinados a uma boa trilha sonora, nos levam longe, bem longe… O texto de hoje é sobre um filme que marcou uma geração dentro e fora da água, além de ter mudado a forma de se produzir os longas de surfe na época. Estou falando de um dos maiores clássicos, The Performers, de 1983.

The Performers trouxe à moda da época calções inovadores, com os primeiros boardshorts stretchs (com tecido que estica). Na minha opinião, a Quiksilver era a marca mais surfe do Planeta, com uma equipe de muito respeito nesta época, e que até nos dias de hoje é lembrada por todos os surfistas como uma das maiores equipes de todos os tempos! Ela era dirigida por dois dos melhores gestores da história da indústria do surfe mundial: Bob McKnight e Bruce Raymond.

Com um refinado DNA salgado, Bruce foi quem criou o roteiro e dirigiu o filme, lançado logo após o movimento “Bustin Down the Door”, que aconteceu no Havaí e criou certo tipo de elo entre havaianos e australianos, facilitando a montagem desta famosa equipe de 1983/84.

A equipe era constituída pelos seguintes surfistas (em ordem de aparição no filme): James “Chappy” Jennings (AUS), Wes Laine (EUA), Willy Morris (EUA), Mickey Neilsen (HAV), Bryce Ellis (AUS), Gary “Kong” Elkerton (AUS), Richard Cram (AUS), Marvin Foster (HAV) e Wayne “Rabbit” Bartholomew (AUS).

The Performers foi filmado na temporada havaiana de 1983, ano em que houve um boicote por parte de todos os surfistas da extinta IPS (International Professional Surfers), a atual WSL, trazendo àquela temporada um surfe de alma e a volta da essência dos anos 70, mas claro, sempre em alta performance e com um swell atrás do outro!

É um filme com um estilo e conceito único. Cada surfista tinha uma ficha técnica com nome completo, local de residência e o quiver de pranchas usada naquela temporada havaiana.

A sensação que ainda tenho, quando assisto a este filme, é de que o surfe naquele momento representava tudo queríamos ser e viver. Era uma equipe unida, com surfistas de personalidades bem distintas, mas com a paixão pelo verdadeiro surfe e um estilo de vida diferente de tudo, que nenhum outro esporte poderia nos proporcionar. Talvez um dos filmes que mais transmita o verdadeiro espírito de liberdade e alegria do surfe.

Logo na abertura, já recebemos um impacto alucinado ao escutar a banda inglesa Pink Floyd tocando “Another Brick in the Wall”, com cenas de um álbum de fotos mostrando toda a família Quiksilver e os melhores surfistas da época. Você já começa a se revirar todo no sofá, pois o som hipnotiza e já te conecta diretamente para dentro do filme.

O primeiro a cair na água é o jovem e promissor australiano Chappy Jennings, já em um Pipe de responsa. Na sequência vem o surfista da Virginia, Wes Laine, e o ótimo californiano Willy Morris. Os dois simplesmente levam suas performances para outro patamar.

Depois ainda aparecem Mickey Neilsen, Brice Ellis e Richard Cram, todos em uma conexão absurda com as ondas. Momentos inesquecíveis aos olhos de quem assiste ao filme pela primeira vez.

Mas, na minha opinião, o maior destaque fica para o australiano Gary “Kong”, que simplesmente destruiu todas as ondas, fazendo jus ao apelido. Gary surfa com muito power, bem acima da média para a época. Para se ter uma ideia, o único surfista que fazia frente ali era o australiano Tom Carroll. Arrisco dizer que “power por power”, hoje em dia ele faria muitos estragos, podem acreditar.

O Havaí foi e sempre será um sonho para qualquer surfista, mesmo que você já tenha ido para lá dezenas de vezes. Quando você faz um filme todo no Havaí, com um time de surfistas do calibre destes caras, o resultado será no mínimo inesquecível.

Trilha sonora Com bandas como INXS, John Cougar, Simple Minds e Pink Floyd, o filme está completo. Podem ter certeza, a maioria dos surfistas da minha geração (fim dos anos 70) escutou estas bandas pela primeira vez ao assistir The Performers.

Já para a molecada que fala que esses filmes são “coisa de velho”, meu conselho é: assista e aprenda mais sobre a história que trouxe o surfe até os dias de hoje.

Viva o surfe! Aloha!

Kemel Addas Neto
Designer de moda, fotógrafo e artista plástico há mais de 35 anos, fez parte do primeiro staff da revista Fluir e atualmente é o curador de arte da The Board Trader Show. Surfa há mais de 40 anos, possui uma forte conexão com a Califórnia (EUA), com diversas temporadas na bagagem, e é dono do maior acervo de filmes de surfe do Brasil.