O sultão da velocidade

Australiano Terry Fitzgerald inaugura série sobre surfistas que revolucionaram o esporte.

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Terry Fitzgerald em Sunset, 1975: gênio com a prancha no pé e a plaina na mão.

O surf sem dúvida é um dos esportes mais fascinantes que, além de nos proporcionar centenas de sensações e reações únicas, tem uma história muito rica.

Para podermos entender melhor o atual momento, suas pranchas e a tão falada performance progressiva, precisamos conhecer o passado, não de forma saudosista, mas entendendo o quão incrível foram os caminhos percorridos até chegarmos nos dias de hoje.

A partir de agora começo a escrever uma série sobre surfistas que tiverem e ainda têm uma importância e influência muito grande no estilo, forma de surfar, equipamentos e comportamento.

Escolhi começar por um dos surfistas que sempre admirei, Mr. Terry Fitzgerald, um dos gênios com a prancha no pé e a plaina na mão.

Nascido em 1950 na Austrália, Terry cresceu no subúrbio de Sydney jogando rugby. Em 1964 começou a surfar na praia de Maroubra. Poucos anos depois sua família mudou para o norte de Sidney, perto das praias de Narrabeen, onde logo adotou como seu pico preferido, tornando-se um herói local.

Com pinturas inovadoras, Terry revolucionou o mercado australiano de pranchas.

Em 1969 Terry mudou-se para Queensland, onde começou a fazer parte do Kirra Boardriders Club, que era sem dúvida o local em que o surf australiano estava despontando. A sede não oficial do clube era a fábrica de pranchas Joe Larkin’s Surfboards, local onde grandes shapers como Bob McTavish e surfistas como Peter Townend e Michael Peterson faziam suas pranchas. Lá Terry começou a se aprofundar não só como excelente surfista, mas também como shaper.

Em 1970 voltou para Sidney e fundou sua própria marca de pranchas, a Hot Buttered (HB). Na época, estas pranchas revolucionaram o mercado australiano nos shapes e com incríveis pinturas feitas pelo seu parceiro de fábrica, o artista Martyn Worthington.

No ano de 1971 Fitzgerald fez sua primeira viagem ao Havaí, onde destacou-se desde as primeiras sessões em Sunset, Rocky Point e Velzyland – performance que podemos conferir no filme Morning of the Earth, filmado entre 1970 e 71. Nesta viagem, ele conheceu um dos magos do shape da época, Dick Brewer, que o convidou para passar uma temporada na sua casa em Maui. Lá teve a chance de ter aulas de shape e designs com Dick, que o ajudou a se aprimorar – e muito.

“O Brasil não ficou de fora de seus roteiros de viagens, ele esteve em Ubatuba em meados dos anos 70 com os donos da fábrica de pranchas Aqua, exibindo um filme de surf em 16mm, no qual era o protagonista”, conta meu grande amigo e parceiro de surf do Guarujá, o fotógrafo Bruno Alves.

Terry sempre foi um dos surfistas preferidos dos produtores de filmes por estar sempre disponível à interminável busca por novas ondas e aprimorar mais seus shapes e performance. Ele aparece em mais de 25 filmes ao longo de sua carreira.

Apesar de ser eternamente um surfista com muita alma, como todo bom australiano, tinha um instinto de competidor aflorado, que fez com que tivesse uma carreira vitoriosa nas competições. Venceu campeonatos muito importantes na época, como Bells de 1972 e Lightning Bolt, em V-Land, no ano de 1975. Neste mesmo ano ele sagrou-se campeão australiano, além de vencer o primeiro campeonato mundial em Bali com condições incríveis no ano de 1980, o OM Bali Pro.

Ainda 1975, em uma viagem para Jeffreys Bay com ondas épicas, reza a lenda (por tudo que já vi e li, acredito que realmente aconteceu) que Terry remou começando em Magna Tubes e surfou bem além de Impossibles, o que significa uma distancia de quase 1 quilômetro ma mesma onda. Mas não só a distancia impressionou, mas sim a velocidade com que surfou e manobrou as ondas daquela sessão, algo tão impressionante que lhe rendeu o titulo de “Sultan of Speed” (sultão da velocidade), eternizado pela história.

Terry sem dúvida mudava a forma de surfar naquele momento, trazendo para a realidade no meio dos anos 70 um surf de muita velocidade e estilo. Claro que tudo isso foi possível ajudado pelas pranchas que shapeou e usou na época, desenhadas para um surf veloz de manobras radicais. Aqui as medidas de duas das mais usadas: 7’5 x 19 x 2 3/4 pin wing e 6’9 x 19 1/2 x 2 3/4 round swallow wing (estes dados sobre as pranchas foram fornecidos pelo próprio Terry via meu grande amigo Guga, da HB Brasil).

Fitzgerald e o quiver para Pipeline nos anos 1970.

Na época muitos surfistas se fascinaram pela revolucionária performance em J-Bay. Anos depois, alguns surfistas conseguiram reeditar a mesma distância e velocidade, que só foi possível graças a performance acima descrita. Dois destes surfistas foram o brasileiro Picuruta Salazar e o australiano Simon Anderson que, em 1984, repetiram o feito em diferentes dias na mesma semana, surfando a onda com muita velocidade e por uma distância muito parecida com a surfada por Terry nos anos 70.

Surfistas como Joel Parkinson, Mick Fanning e Filipe Toledo, dentre outros, também entram para o seleto grupo a redesenhar o surf em J-Bay com uma velocidade e manobras surreais.

Dono de um surf muito polido, estilo único e de uma expressão corporal mágica, Terry sempre foi muito respeitado peor surfistas do mundo inteiro. Ele teve forte influência no surf de grandes nomes como Simon Anderson, Derek Hynd, Vetea David, Simon Law, seus filhos Kye e Joe Fitzgerald, e muitos outros, deixando um legado que será referência para surfistas e shapers.

Em 1995 recebeu mais do que merecida homenagem, entrando para o seleto grupo de surfistas do The Australian Hall of Fame. Vale a pena conferir os filmes em que Terry aparece tais como Fantasy, Soul, Morning of the Earth e muitos outros.

© WSL / Cestari
Sultan reclama das pequenas ondas durante Mundial Master em 2011 do Arpoador.

Gostaria de deixar aqui meu modesto conselho aos jovens surfistas que dão valor ao estilo, e não só as manobras: apreciem e se aprofundem nos surfistas das gerações dos anos 70 e 80, vocês com certeza encontrarão o meio termo entre alta performance e estilo, o que eu acredito que será o próximo estágio do surf, uma vez que nos dias atuais são poucas as referencias de estilo em que podemos nos espelhar!

Terry, o nosso muito obrigado por tudo que você fez e faz pelo surf. Thanks Mate!

“Respeitamos a liberdade editorial de todos os nossos colunistas. As ideias expressadas no texto acima nem sempre refletem a opinião do site Waves”.

Kemel Addas Neto
Designer de moda, fotógrafo e artista plástico há mais de 35 anos, fez parte do primeiro staff da revista Fluir e atualmente é o curador de arte da The Board Trader Show. Surfa há mais de 40 anos, possui uma forte conexão com a Califórnia (EUA), com diversas temporadas na bagagem, e é dono do maior acervo de filmes de surfe do Brasil.