Anos 1970

A prancha que partiu

Edinho Leite resgata as memórias de um verão dos anos 1970, quando as pranchas ainda deixavam (muito) a desejar.

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José Carlos Bezerra, Julio José Bezerra Jr., eu e Paulo Pantel com o que havia de melhor, ou, simplesmente, com o que era possível para nós: santistas, surfistas e felizes.

Esta foto me fez lembrar muita coisa boa. Não sou saudosista, postei esta imagem, de 73/74, porque ela traz algumas curiosidades e verdades.

Para começar, na foto não há leash, cordinha ou como queiram chamar. A prancha partida, minha, era uma Longa, assim como a da ponta esquerda. A imagem não é tão ruim, os logos é que eram mal feitos. As duas eram de “isopor” (EPS) e resina epóxi, materiais redescobertos no século atual.

O Longarina, shaper de São Vicente, apesar de toda a sua experiência e de ter roído muito poliuretano e EPS para produzir boas pranchas, não é rico, mas continua fazendo pranchas.

Naquela época, essas eram pranchas pequenas e modernas, do quiver de uma só. Tente andar com algo parecido hoje e você verá como é bom ter nascido nos anos 90. Essas monoquilhas, por melhor que fossem construídas, perdiam a quilha com mais facilidade do que toda aquela base de fibra poderia te fazer imaginar. Veja que a Longa da esquerda, assim como a Vanderbilt amarela (não da para ver, acreditem em mim), tiveram suas quilhas recolocadas.

Eram pranchas fortes. Só que, muitas vezes, “deslaminavam”. A fibra desgrudava da espuma e fazia um colchão de ar. Uma beleza, especialmente porque o glass trincava e enchia a bolha de água! A Champion, na ponta direita, era recoberta com sete fibras no deck (em S) e pesava uma tonelada.

O modelo dessa Champion Surfboards tinha um dome deck onde só com muita habilidade você se equilibrava ali, de tão absurdamente pronunciado. Era uma aberração, assim como o fundo abaulado, quase um “Vee”, no bico para lá de envergado. O interessante é constatar que são pranchas de uma era em que tudo estava mudando e vários conceitos conviviam nas praias. Eram bons? Não, mas tudo era novo e nos mostrava novos caminhos.

Reparem os calções. Floridos, feitos com nylon de guarda chuva que minha mãe costurava. Secavam rápido, não caiam, só que comiam sua carne até a alma de tanto que assavam. Tudo bem, estávamos felizes porque pareciam com os calções gringos. Aliás, já já chegaremos novamente a esse comprimento de calção.

Sim, na minha cabeça inocente, aquela era a melhor prancha do mundo. Na minha ignorância, eu surfaria com ela para o resto da vida. Partiu. Coisa que eu nunca havia visto acontecer com uma prancha até então.

Pranchas, se você não fosse abastado, eram coisas difíceis de conseguir. Aquela Vanderbilt veio de Ubatuba, trazida, digamos, sem permissão, por não conhecidos do próprio Ricardo Vanderbilt.

Meu pai quis fazer um clique engraçado para a posteridade e pediu que eu fizesse um ar de desolado naquela manhã em Juquehy. Não precisei me esforçar.