Promessas para 2006

Pedro Henrique, Op Pro 2005, Haleiwa, North Shore, Hawaii

Aussie Mark Occhilupo, um dos mais carismáticos e talentosos surfistas da história do surf profissional, é um dos atletas que se despedem do WCT. Foto: ASP World Tour / Tostee.

Entramos na reta final de 2005. No momento em que escrevo, está em curso em Sunset Beach a última prova do WQS.

 

Depois dela, a temporada é fechada com chave-de-ouro na temível bancada de Pipeline, onde ocorre a etapa final do WCT.

 

Em ambas as divisões do circuito mundial, os rankings já estão praticamente definidos. Pequenas mudanças ainda podem ocorrer, mas não há mais ocasião para alterações substanciais.

 

Partindo dessa premissa, inicio aqui uma rápida e despretensiosa análise das competições internacionais realizadas na temporada, afirmando que ela foi magnífica para nosso esporte.

 

Ao mesmo tempo, uma nova safra de jovens atletas, entre eles o carioca Pedro Henrique, promete fazer barulho no circuito mundial em 2006. Foto: Bruno Lemos / Lemosimage.com.
Inicialmente, destaco a recente alteração nas regras de julgamento promovida pela ASP, que operou um verdadeiro saneamento na lista dos atletas que entram na elite mundial em 2006.

 

No sistema atual de avaliação, valoriza-se extraordinariamente a audácia do surfista na realização das manobras, idéia que pode ser traduzida na seguinte afirmação: quanto mais arriscado o movimento, maior a nota.

 

Diante da nova realidade, grandes ícones das gerações dos anos 80 e 90, como Mark Occhilupo, Sunny Garcia, Shane Beschen e Luke Egan, que em anos anteriores disputavam títulos mundiais e eram nomes certos entre os top-16, mostraram enormes dificuldades para superar o surfe audacioso das gerações mais novas.

 

De fato, alguns deles, diante do desgaste de anos disputando o circuito mundial e até de certo desânimo, já tinham anunciado que iriam aposentar as pranchas, mas certamente esperavam um fechamento à altura de suas campanhas anteriores.

 

À primeira vista, a perda pela saída desses ícones parece insuperável. E realmente é difícil digeri-la. Mas o surfe é uma atividade dinâmica e, portanto, acreditem: ninguém ficará órfão.

 

Surfistas como Andy e Bruce Irons, Cory Lopez, Mick Fanning, Taj Burrow, Nathan Hedge, Damien e CJ Hobgood, Trent Munro e Joel Parkinson, entre outros, cada vez mais se consolidam como a verdadeira elite dos top-45.

 

Já há alguns anos são exatamente esses os nomes que se alternam nas primeiras colocações do ranking da divisão principal do surfe mundial. Daqui uma década, a exemplo de Occy, Sunny e companhia, alguns deles certamente estarão no rol dos melhores surfistas de todos os tempos.

 

Porém, embora a renovação na elite seja um acontecimento permanente, na atual temporada ela se deu de forma absolutamente contundente, mostrando que certos paradigmas caíram por terra e que mudou substancialmente a forma de surfar.

 

Além da consagração dos jovens acima citados como líderes do WCT nos próximos anos, um grupo enorme de novas caras ingressará na primeira divisão via WQS, operando a maior renovação já vista no circuito desde a criação, pela ASP, do sistema de primeira e segunda divisões.

 

Percebam que, com exceção de Kelly Slater, Vitor Ribas e Jake Paterson, todos os demais top-16 entraram no tour no final dos anos 90 ou no início desta década. Todos, indistintamente, têm menos de 30 anos ? a maioria, inclusive, está até um pouco distante dessa idade.

 

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Aos 33 anos, Kelly Slater conquista sétimo título mundial com sobras e mostra que ainda tem muita lenha para queimar no mundial – e muita coisa para ensinar aos mais jovens. Foto: Ricardo Mega.
Porém, como quase toda regra tem sua exceção, o veterano Kelly Slater ? e houve quem, até o início do ano, o considerasse carta fora do baralho ? teve uma temporada espetacular, reafirmando o que a maioria de nós já sabia, mas alguns pareciam ignorar: ele ainda é superior a qualquer adversário.

 

 

Totalmente adaptado aos novos critérios de julgamento ? não é exagero dizer, inclusive, que o floridiano foi um dos grandes responsáveis para que tais regras chegassem ao formato atual ? deu um verdadeiro show, triunfando sobre seu maior adversário, o havaiano Andy Irons, ainda em águas brasileiras, onde conquistou a incrível marca de sete títulos mundiais.

 

 

Campeão do WQS, Adriano Mineirinho é apontado na imprensa internacional como o maior talento surgido desde o australiano Mick Fanning. Foto: Caio Guedes / Solto.
Mas o melhor do ano não foi propriamente o título do americano, e sim o impressionante desempenho que ele atingiu nos eventos em Teahupoo e Fiji. Nos meus anos de espectador de circuito mundial, jamais assisti a uma performance tão sólida, seja em free surf ou competição.

 

A mesma regra vale para o WQS. A nova geração domina a lista de promovidos à elite de 2006, o que me parece um resultado claro da alteração na forma de se avaliar a atuação do surfista.

 

Entre os top-15 da divisão de acesso, tirando o experimentado sul-africano Greg Emslie e o havaiano Pancho Sullivan, a juventude reina absoluta, o que demonstra que estamos vivenciando um momento de inevitável troca de guarda.

 

Entre as novidades já garantidas estão os velozes e modernos australianos Adrian Bunchan e Shaun Cansdell, o estiloso sul-africano David Weare, o festejado norte-americano Bobby Martinez, o consistente francês Mikael Picon, o havaiano Roy Powers ? dono de um frontside bem potente ? o rápido e imprevisível carioca Pedro Henrique e, obviamente, o fenômeno Adriano de Souza.

 

O rol de promovidos à elite é composto, primordialmente, de novatos. Tirando o sul-africano Greg Emslie e os brasileiros Paulo Moura, Raoni Monteiro e Yuri Sodré ? estes três, apesar de experimentados no tour, ainda podem ser considerados da nova geração ? os demais classificados são todos estreantes.

 

Também me chamou atenção um acontecimento que para os desavisados gerou absoluta surpresa: o título de Adriano de Souza. O guarujaense, desde os tempos de amador é uma máquina de vencer.

 

Foi campeão em todas as categorias de base de que participou. E, no período mais difícil da carreira de um atleta, a transição do amadorismo para o mundo profissional, rapidamente mostrou que era mais maduro que os demais, conquistando belas vitórias e inúmeros pódios.

 

No presente ano, o primeiro em que enfrenta integralmente o WQS, Adriano teve uma atuação irretocável, fazendo algumas semifinais no estrangeiro e, inclusive, vencendo dois importantes eventos ? um deles o inédito 7 estrelas na França.

 

Com o título do circuito, o prodígio, que ultimamente tem sido elogiado por toda a mídia especializada e até pelos campeões mundiais Andy Irons e Kelly Slater, entra no WCT não apenas como uma ?nova cara?, mas na condição de nova sensação do surfe mundial. Há até quem diga, na imprensa internacional, que se trata do maior talento surgido desde o australiano Mick Fanning.

 

Com toda essa juventude buscando um lugar ao sol no olimpo do surfe mundial, fica uma certeza: no ano que vem teremos mais um show de performances inovadoras e nós, meros espectadores, seremos brindados com uma temporada eletrizante.

 

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