Leitura de Onda

A diferença está nos pés

Jamie O'Brien, Volcom Pro 2010, Pipeline, North Shore de Oahu, Hawaii

 

Jamie O’Brien durante o Volcom Pro 2010, Pipeline, North Shore de Oahu, Hawaii. Foto: Bruno Lemos.

Décadas antes de Bob Burnquist se notabilizar pelo switch stance no skate, um amigo, o Varella, já trocava de base nas ondas curtas do Leblon. Surfava direitas e esquerdas de frontside. Aquilo me intrigava – como um bom canhoto, sempre fui meio pateta em tudo o que tivesse que usar a perna direita. Certo dia, eu o vi surfando de costas para a onda:

– Esse negócio de base trocada não dá certo. Eu vou acabar não surfando bem de jeito algum.

O curioso é que, em esportes de prancha como o skate, o kitesurfe e o snowboard, o switch stance foi completamente incorporado. Diria que mais que isso: tornou-se obrigatório para performances além do nível intermediário.

Na história recente do surfe, muitos craques já inverteram seus pés na prancha: Buttons Kaluhiokalani, Larry Bertlemann e uma pá de outros cabras correram belas ondas de switch stance. Mas nenhum deles conseguiu transformar a técnica num movimento típico do esporte.

Mais recentemente, o freak Jamie O´Brien andou dando demonstrações de como entrar num túnel montado numa base e sair em outra. Manobra de circo, mas também não incorporada pelos acrobatas do WT. Ainda.

A sensação é a de que, no velho esporte polinésio, regulars e goofies não falam a mesma língua. Os dois mundos parecem não entender o surfe da mesma maneira. Tudo é diferente: manobras, arcos, linha executada na onda, posicionamento na prancha.

Dois ou três anos atrás, o amigo e excelente jornalista de surfe Alex Guaraná levantou a importante bola das diferenças entre os dois posicionamentos. Lembrou que regulars sempre dominaram o circuito mundial – desde o início da ASP, em 1976, em apenas oito temporadas os goofies levantaram o caneco. E não fosse a estupidez de Osama Bin Laden, o número de títulos provavelmente cairia para sete: CJ Hobgood ganhou em 2001 sem vencer sequer uma etapa, depois de o circuito ser interrompido pelo atentado de 11 de setembro.

Em tubos de costas para a onda, os regulars têm um domínio incontestável. Pelo menos uma dúzia de surfistas  – incluindo aí o próprio Adriano de Souza – já adianta e atrasa à vontade de backside dentro de canudos para a esquerda, muitas vezes sem a mão na borda.

Goofies, claro, também brilham em direitas tubulares. Mas mesmo os grandes especialistas sofrem para tirar tubos mais profundos e sair pela porta. A prancha parece ficar mais travada, o balanço que produz a aceleração na prancha aparenta ser reduzido. Guaraná aventou outra hipótese: a de as direitas quebrarem numa angulação diferente, que favoreceria a posição do regular. Sabemos que só a ciência pode comprovar essas suposições.

O curioso é que a vantagem muda de lado quando o assunto são manobras de backside. Longe dos tubos, goofies parecem executar uma linha mais apropriada de costas para a onda. As batidas são mais bonitas, os arcos mais redondos e o surfe mais natural que o backside do regular. Bobby Martinez é a prova contemporânea desse talento.  No passado, há outros indícios: o goofie Damien Hardman foi duas vezes campeão mundial com um frontside medíocre, mas as pauladas de backside o redimiram.

Talvez o switch stance um dia seja definitivamente incorporado ao surfe e, em Teahupoo, só ganhe dez o surfista que sumir com um pé na frente e reaparecer com outro, na baforada. Mas, até lá, declaro meu apoio à saudável e visível  diferença entre goofies e regulars. Melhor que um mundo de surfistas iguais.

 

 

Tulio Brandão é repórter de O Globo, colunista do site Waves e da Fluir e autor do blog Surfe Deluxe

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