A corrida pelo ouro

Empresas correm contra o relógio para construir a primeira piscina de ondas artificiais no Brasil.

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Divulgação
Ian Gouveia testa a potência da Wavegarden The Cove: tecnologia na mira de empresários brasileiros.

No fim do ano passado, as maiores empresas de ondas artificiais do mundo – Wavegarden e Kelly Slater Wave Co. – deram sinais de que podem desembarcar no mercado brasileiro em breve.

Enquanto a piscina desenvolvida por Kelly Slater ainda está em fase de estudos no País, a tecnologia da pioneira Wavegarden ganha força e deve pisar primeiro em solo brasileiro.

Há alguns meses, Fernando Odriozola, um dos sócios da Wavegarden, esteve em Garopaba (SC) para conhecer o projeto Surfland, comandado pelo empresário André Giesta.

Composto por um resort e um amplo condomínio de luxo, o Surfland receberá a versão 2.0 da Wavegarden, conhecida como The Cove, com ondas de até 2 metros e mais de 150 metros de extensão.

Projeto do Surfland “vazou” no WhatsApp com localização e tudo. Previsão de lançamento é para dezembro de 2019.

A operação da piscina ficará sob responsabilidade da Global Wave Parks (GWP), empresa especialista no ramo e que desenvolve este tipo de projeto ao redor do mundo.

Apesar do terreno comprado e o licenciamento ambiental já encaminhado, o Surfland ainda está em fase final de captação de recursos. Este tem sido o último obstáculo para empresas que sonham implementar uma piscina de onda no mercado brasileiro.

Por outro lado, a Wavegarden saiu satisfeita com o projeto no litoral catarinense e já assinou um contrato de exclusividade com o empreendimento para toda a região Sul do País.

Na entrevista abaixo, conversamos Giovanni Mancuso, ex-surfista profissional e sócio da Global Wave Parks no Brasil. Desde 2007 no mercado de ondas artificiais, Mancuso fala sobre o Surfland, a mecânica para tornar uma piscina de onda rentável e a possibilidade de o Brasil receber um modelo em breve.

Quando você começou a se envolver no mercado de ondas artificiais?

Foi em 2007, a convite de um amigo que nutria o sonho de montar um parque de ondas. Nosso parque não aconteceu, mas nos tornamos representantes da Wave Loch, que mais tarde viria a ser adquirida pela White Water. Desta compra, surgiu a empresa FlowRider e me tornei representante dela. Mais recentemente, em março de 2017, fui procurado pela brasileira Wave Factory, com a proposta de ajudá-los a comercializar os seus simuladores de surfe no mercado brasileiro.

Ryan Clapper
Giovanni Mancuso acumula o “know-how” do mercado de ondas artificiais desde 2007.

E qual é o seu trabalho na Global Wave Parks?

Ainda em 2013, por conta do trabalho com a venda de FlowRiders, conheci o inglês Ben Lonsdale, proprietário da GWP. Ele tinha um projeto chamado Surf Point, uma operação que previa loja de surfe, restaurante, palco para shows e FlowRider. Mas eu também me interessei pelo outro projeto da GWP, um projeto maior: montar parques de onda. Para tornar a história curta, ao longo destes quase cinco anos, unimos forças e conhecimentos e passamos a trabalhar juntos para tentar realizar este sonho, que na verdade é o sonho de todos os surfistas.

É viável construir uma piscina de ondas no Brasil?

Totalmente. Somos o país do surfe, movimentamos muito dinheiro relacionado a este mercado. Grandes empresas de fora do meio investem no nosso esporte por conta do apelo que ele exerce em todos os públicos. Temos grandes cidades que não possuem praia como principais centros consumidores de surfe – e com grande população de surfistas. A qualidade das ondas brasileiras também deixa a desejar, e o principal: temos carência de opções de lazer para a população. Se existe um país onde piscinas de onda são viáveis, este país é o Brasil.

Quais são os principais desafios?

É preciso reforçar que um parque de ondas inclui muito mais do que a piscina de ondas. Lojas, restaurante, bar, academia, shows, pista de skate, hotel e centro de eventos são apenas alguns exemplos de outras atividades que fazem parte de complexos planejados. Neste contexto, estamos falando de um público infinitamente mais amplo do que “surfistas”. Trata-se de algo similar à proposta das grandes arenas que existem no mundo, como LA Live ou The O2, para citar apenas dois exemplos. Uma fórmula comprovada e que dá muito certo quando bem administrada.

Projeto da Global Wave Parks: segundo Mancuso, a piscina de ondas sozinha não se paga. São necessárias opções de lazer ao redor como lojas, restaurante, pista de skate, dentre outras.

Já existem projetos em andamento? Por que ainda não saíram do papel?

São projetos complexos e que demoram muito pra sair do papel. São cansativos, desgastantes, muitas vezes frustrantes e consomem um pouco de dinheiro durante seu desenvolvimento. Tem que ter muita força de vontade para não desistir ao perceber o ceticismo das pessoas, encontrar portas fechadas e até lidar com imprevistos que podem botar tudo a perder.

Temos alguns projetos em desenvolvimento no Brasil que devem levar alguns anos até que se inicie a construção. Envolve pesquisa, desenvolvimento, planejamento, busca por terreno, licenciamento ambiental, altos valores de investimento, enfim, é um processo lento e há muitas lacunas pelo caminho. Por isto, na GWP preferimos não divulgar nada sobre os projetos até termos certeza do início da construção.

No entanto, vale mencionar um que depois de ter sua apresentação para os investidores viralizada no WhatsApp se tornou de conhecimento público, o Surfland, no município de Garobapa. Trata-se de um projeto diferente, pois não será um parque de ondas e sim um grande complexo imobiliário, tendo como “motor” para sua viabilidade financeira, um resort comercializado no sistema fracionado, popularmente conhecido como time sharing.

Se os planos do criador deste empreendimento, André Giesta, tiverem 100% de sucesso, é possível que o acesso às ondas da Wavegarden previstas para rolarem no Surfland não sejam acessíveis para o público em geral. A ideia é que os proprietários das frações do resort ocupem 100% das horas disponíveis na piscina. Neste momento eles estão na reta final da captação financeira.

Legenda vídeo: A piscina de Kelly Slater é a mais perfeita, mas, com baixa frequência de onda, o modelo de negócio é viável?

Na sua opinião, quais são as melhores tecnologias e quais possuem o melhor custo-benefício?

É indiscutível que a onda do Kelly Slater é a melhor. Maior, mais perfeita e muito mais longa. No entanto, toda esta maravilha tem um preço: demanda uma área enorme e só gera 30 ondas por hora. Equação muito complicada de resolver, principalmente com esta baixa frequência de ondas. A onda nova da Wavegarden, apesar de não ter os 700 metros de extensão da onda do Kelly, gera incríveis 1.000 ondas por hora e é muito flexível: é possível programar via software dezenas de formações diferentes, como tubulares, slabs, paredes, etc. Ainda há a tecnologia conhecida como Perfect Swell, da American Wave Machines, a do Greg Webber e a Surf Lakes. Estas três últimas citadas ainda não foram vistas em escala natural, mas acredito que veremos todas ainda em 2018.

Mas é justamente quando de fala no custo-benefício que a Wavegarden ganha de todas as tecnologias existentes. O potencial de receita com esta tecnologia é significativamente maior e com menor investimento do que as outras existentes no mercado. Do meu ponto de vista, é indiscutível que neste momento a Wavegarden Cove representa o melhor custo-benefício.

Quais são os melhores locais para se construir uma piscina?

Quanto maior a população, poder aquisitivo e demanda por lazer, melhor. Portanto, geralmente as cidades grandes oferecem um mercado melhor para parques de surfe. Por outro lado, num modelo como o proposto pelo projeto Surfland, a escolha do local deve privilegiar “lugares de destino”, como é o caso do litoral sul de Santa Catarina, um dos principais destinos de surfe do Brasil.

Legenda vídeo: No final de 2017, a Brazilian Storm testou as ondas da Wavegarden The Cove.

Acredita que em breve teremos várias opções de piscinas no Brasil?

Aqui fala alguém que tem trabalhado neste mercado por mais de uma década: nunca estivemos tão perto. FlowRiders eram caros e envolviam uma logística absurda para serem importados para o Brasil. Piscinas de onda eram muito mais caras do que hoje e fechavam por não serem viáveis financeiramente (Ocean Dome) ou ofereciam uma qualidade ruim de ondas para o surfe (Disney, Kuala Lumpur, Abu Dhabi, Siam Park). Hoje temos FlowRiders 100% nacionais e com preço muito mais “palatável” e a tecnologia de ondas artificiais avançou ao ponto de finalmente podermos afirmar que conseguimos quantidade (frequência) e qualidade.

É necessário lembrar que o surfista brasileiro em geral já não é mais o rato de praia de outrora. Hoje somos CEOs, advogados, juízes, médicos, professores, engenheiros, atletas, pessoas de todos os cantos, todas as profissões e todas as camadas socioeconômicas. E dentro deste grupo há um mercado de pessoas dispostas a pagar por viagens internacionais em busca de ondas perfeitas que nem sempre se confirmam. Acredito que estes mesmos surfistas estariam dispostos a pagar para poder surfar ondas perfeitas em qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, em uma piscina perto de casa.

Por isso, acredito que entre três a cinco anos teremos algumas piscinas funcionando no Brasil, em diferentes modelos de negócio.

Um parque de ondas pode custar entre R$ 80 e R$ 100 milhões. População local, poder aquisitivo e demanda por lazer devem influenciar na hora de escolher o local.

Informações relevantes

Por Rodrigo Minghelli*

Quanto é preciso investir na construção de uma piscina de ondas?

– Em torno de R$ 50 milhões. Já um complexo com a infraestrutura adequada para um projeto deste porte é necessário considerar de R$ 80 a 100 milhões.

Investimento de alto risco? Cinco motivos por que ainda não temos piscinas de ondas no Brasil.

1) Piscinas de ondas com boa qualidade para o surfe ainda são uma novidade. Em 2012, a Wavegarden mostrou uma piscina com ondas de meio metro. Em 2015, lançou uma com ondas de 1 metro. Em 2016, Kelly Slater mostrou sua onda para o mundo. Em 2017, a Wavegarden mostrou uma tecnologia nova, com ondas melhores e mais frequentes. O mercado ainda é novo, mas já amadureceu o suficiente para que se tenha waveparks comercialmente viáveis.

2) O modelo de negócio necessário para que uma piscina de onda seja viável não se trata de simplesmente construir uma piscina e cobrar a hora de surfe. A piscina funciona como uma âncora em uma operação muito maior. Esta operação é necessária para maximizar o retorno no modelo. Além disso, é necessário entender de construção, de estruturação financeira, de operação de grandes complexos, modelagem de precificação e de como funcionam sinergias entre elementos diversos num parque. São poucas pessoas e empresas no mundo com este tipo de expertise.

Empresários Andre Giesta e Fernando Odriozola assinam contrato para a construção da Wavegarden no Sul do País.

3) Demanda uma grande área com localização nobre em locais com grande densidade populacional, uma combinação muito difícil de ser encontrada. Normalmente, as áreas disponíveis nos grandes centros são muito afastadas e de difícil acesso. E as poucas disponíveis que se classificam como “ideais”, custam muito caro e acabam por tornar o projeto quase inviável.

4) Licenças ambientais: normalmente impactam qualquer obra de grande porte e são processos morosos. Se acrescentarmos que estamos falando de um projeto inédito, complica um pouquinho mais.

5) Investimento de alto risco num negócio que não existe no Brasil. Por mais que as planilhas financeiras comprovem que trata-se de um negócio rentável e com retorno muito atraente, não existe nenhum case no Brasil e isto afasta os investidores mais conservadores. Na verdade, parques de ondas são raros no mundo.

“Num cenário como este, é necessário muito arrojo do investidor. Enquanto o investidor americano demonstra apetite para ser o primeiro a arriscar em projetos inovadores, no Brasil, frequentemente, os investidores preferem não ser os primeiros. Além disso, o cenário político-econômico dos últimos anos complicou muito este tipo de desenvolvimento”, diz Giovanni Mancuso.

Surf Ranch quando ainda estava em construção: lançamento da Kelly Slater Wave Co. acelerou a “corrida pelo ouro”.

Tempo estimado para a construção de uma piscina.

Com muito dinheiro é possível construir uma piscina como Abu Dhabi em seis meses, mas o tempo normal é entre 1 a 2,5 anos para poder finalizar uma obra.

Meio ambiente

Um dos problemas que as empresas têm enfrentado no decorrer dos anos nas tentativas de instalar tais projetos são as licenças ambientais, já que as áreas a serem utilizadas são acima de 70 mil metros quadrados (falamos aqui da piscina e do complexo esportivo e de atendimento ao público que se constroem junto), tamanho de 10 a 15 campos de futebol oficiais.

Piscinas artificiais pelo mundo

EUA

– Doney Park’s Wildwater Kindow (Pensilvânia), inaugurada em 1985.
Disney Typhonn Lagoon (Flórida), inaugurada em 1989.
Surf Ranch (Califórnia), inaugurada em 2015.
NLand (Texas), inaugurada em 2016.

Japão

Seagaia Ocean Dome, inaugurada em 1993, fechada desde 2007.

Ocean Dome, no Japão, foi um das piscinas pioneiras e já recebeu até etapa do WCT, mas está fechada “para manutenção” desde 2007.

Emirados Árabes

Wadi Adventure (Abu Dhabi), inaugurada em 2011.

Reino Unido

Snowdonia, inaugurada em 2015.

Espanha

Siam Park (Ilhas Canárias), inaugurada em 2012.
Wave Garden Cove (País Basco), inaugurada em 2017.

Outras tecnologias

FlowRider

Existem ainda as ondas estáticas espalhadas por vários lugares do mundo, que necessitam de pequenos espaços para serem instaladas. Durante muitos anos, a Wave Loch foi a única empresa fabricante dos FlowRiders, como são conhecidos os simuladores de ondas. Mais tarde, a White Water comprou a tecnologia e criou a empresa chamda FlowRider.

Legenda vídeo: Piscinas estáticas são opções para eventos ou lugares como shoppings centers e aeroportos.

Com a patente se tornando de domínio público como ocorre em todos os setores, a Wave Factory desenvolveu simuladores similares aos do FlowRider e desde o ano passado comercializa versões fixas e uma opção móvel para aluguel em eventos no Brasil.

*Rodrigo Minghelli é empresário e desenvolve projetos ligados à Global Wave Parks na região Sudeste.