Fera destemida

Dono de performances espetaculares em Teahupoo, Caio Ibelli fala sobre a brilhante campanha no Tahiti Pro e a luta para conseguir um patrocinador principal.

0
Caio Ibelli esbanja disposição nos canudos de Teahupoo e chega às quartas com muita propriedade.

Quando os tubos de Teahupoo passaram a proporcionar um verdadeiro espetáculo no Tahiti Pro, um seleto grupo de Tops se distanciou dos demais companheiros de Tour, mostrando um nível de surfe extremamente diferenciado na rasa bancada polinésia.

Dentro desse grupo, apenas um atleta não possuía uma logomarca no bico da prancha. Era o brasileiro Caio Ibelli, de 25 anos.

No ano passado, Ibelli enfrentou uma lesão no pé que o deixou fora de 8 etapas do Tour. O atleta ainda virou o ano sem um patrocinador principal e fora do Championship Tour 2019, já que a WSL elegeu os campeões mundiais Kelly Slater e John John Florence para as vagas de lesionados deste ano.

Como consolo, Caio Ibelli passou a ser o primeiro alternate do Tour, pulando na frente de outros atletas como o português Frederico Morais.

Depois de superar uma fratura no pé em 2018 e virar o ano sem patrocinador principal, Ibelli volta a colher os frutos da sua dedicação.

A maré começou a virar no início deste ano. Ibelli recebeu o convite para participar das etapas em Bali e Margaret River, além de substituir o compatriota Adriano de Souza em Snapper Rocks e Bells Beach.

Já garantido em quatro eventos, e podendo disputar o restante do Tour se mostrasse serviço nessas etapas, o brasileiro ganhou tranquilidade para começar a temporada, apesar da falta de um patrocinador principal.

Os três primeiros resultados foram abaixo do esperado, mas, em Margaret River, a história mudou. Com uma disposição incrível, tanto nos canudos de The Box, como nas volumosas paredes do Main Break, Ibelli roubou a cena e chegou às semifinais, derrubando nomes como Gabriel Medina e Kelly Slater até cair diante de John John Florence em um duelo muito acirrado.

Quando as ondas dão as caras, o brasileiro cresce de produção. Em Margaret River, Ibelli foi terceiro colocado.

Apesar do retorno de Adriano de Souza em Saquarema (RJ), Ibelli passou a ganhar novas chances com as lesões de Leo Fioravanti e Mikey Wright, se garantindo de vez nas demais etapas depois da contusão de John John Florence.

Em Saquarema e Jeffreys Bay, Caio Ibelli voltou a perder na terceira fase e terminou em 17º lugar. Sedento por outro resultado expressivo, o brasileiro foi com tudo para Teahupoo e deu um verdadeiro show nos canudos polinésios, vencendo duelos emocionantes contra Conner Coffin e Jack Freestone.

Nesta entrevista, o Top fala sobre a brilhante campanha na prova, a falta de um patrocinador principal, a apetite por tubos e a preparação para a próxima etapa no Surf Ranch.

Caio Ibelli, Teahupoo, Taiti@mattwalch
Assim que perdeu no US Open, o Top se mandou para Teahupoo e passou uma semana treinando nas bombas taitianas.

Chegar com antecedência a Teahupoo foi muito importante pra você? No que isso influenciou em sua campanha?

Durante o US Open eu notei que ia entrar um swell de 10 a 12 pés, e como nunca tinha visto um mar grande assim em Teahupoo, decidi comprar a passagem de última hora e sair nesse mesmo dia, um sábado. Perdi minha bateria às 11 da manhã, cheguei em casa às 14h e comprei a passagem, embarquei às 23h. Foi uma correria muito grande, mas sabia que seria uma das melhores experiências da minha vida.

Fui para o Taiti e passei uma das melhores semanas da minha vida. Pegamos dois dias de 4 a 6 pés, dois dias de 6 a 8 e dois acima de 10 pés. Acho que todo esse treino que tive chegando antes, sem crowd, só com os locais, me deu a maior base para o campeonato.

Em todas as vezes que fui para o Taiti, tava aquele mar de 3 a 4 pés, mexido, manobrável, e nunca tava aquele Teahupoo de verdade. Sempre amei o Taiti, sempre falei que era uma das minhas etapas favoritas, mas nunca havia conseguido um bom resultado lá, então quis mudar isso. Fui lá treinar uma semana, e quando voltei na semana seguinte, já para o campeonato, estava me sentindo muito mais à vontade no mar. Já conhecia muito melhor o pico – onde entrava melhor a série de sul e onde era o west bowl – e acho que isso me deu a maior base. Não tem fórmula mágica. Se você quiser ser bom em algum lugar, você tem que passar um tempo lá.

Aproveitar cada momento nos túneis de Teahupoo era um dos objetivos de Ibelli na viagem.

Você costuma crescer de produção à medida em que as ondas pesam. De onde vem esse go for it? Quando sentiu que tinha aptidão por ondas mais pesadas?

Sempre gostei de onda grande. Alias, não de onda grande, né? Quem gosta de onda grande é o Lucas Chumbo (risos). Não gosto de Nazaré e nem quero ir lá (risos). Estou brincando… um dia, talvez… Passei muito tempo no Havaí, já vi muitos dias de ondas pesadas, e acho que nesses dias, para você ficar confortável, você tem que confiar em seu equipamento, confiar em si mesmo e saber onde estão os seus limites.

Naquela condição de Teahupoo, o meu quiver de pranchas estava muito bom. Confiava nas minhas pranchas e sabia que poderia fazer o que fiz – se dropasse atrasado, sabia que ela poderia desgarrar e voltar. Eu podia confiar no meu equipamento. Quando você confia, você já tira uma coisa da cabeça. Você só precisa da atitude de ir e pegar.

Quando o mar sobe, eu me sinto muito confortável, pois sei que tem gente que tem medo. Ali era a minha hora de brilhar, era a minha hora de chegar e fazer o que eu sei e que gosto de fazer. Quando vi que o mar aumentou, fiquei amarradão e tentei pegar o maior número possível de ondas durante o evento, para aproveitar aquela situação com poucos caras na água, prioridade, etc.

Tinha tanta onda… era muita oportunidade para você pegar o tubo da vida ou várias ondas boas. Muitas séries passavam sozinhas, inclusive as menores, que rodam bastante também. Não faltava oportunidade, era mais o quanto você queria ir naquela onda. Estava amarradão e queria pegar várias.

Foi um dos melhores eventos pra mim. Foram três notas 9 no mesmo dia, duas numa mesma bateria. Nunca havia feito isso antes.

Ibelli em Margaret River, Austrália, palco da sua melhor campanha em 2019 até o momento.

O fato de você ter entrado no Tour como alternate, de última hora, e só ter a confirmação de que disputaria o restante da temporada quando o circuito já estava em andamento, atrapalhou sua preparação em alguma coisa?

Acho que não. Quando vi que alguns atletas se contundiram, eu já sabia que teria a vaga. O que mudou mesmo este ano foi, pelo fato de eu não ter um patrocínio, por as coisas estarem mais difíceis do que antes, agora eu acho que tudo o que eu faço tem um carinho a mais.

Quando você está ganhando dinheiro pra fazer o que ama, para viajar e tudo mais, às vezes você deixa passar oportunidades.

Agora, eu vou para cada lugar do Tour e tento aproveitar o máximo o que eu posso. Acho que estou me preparando até melhor do que era antes.

A falta de uma logomarca no bico da prancha é um dos grandes obstáculos enfrentados por Caio este ano.

Você está sem um patrocinador principal. Alguma negociação próxima ou anda enfrentando dificuldade com o mercado? Chegou a ficar próximo de fechar algum patrocínio?

Está bem difícil. O Brasil está numa fase bem complicada. O dólar está muito caro e a nossa vida o ano inteiro é quase toda em dólar, por estar sempre viajando, comprando passagem, comendo em aeroporto, hospedagem, aluguel de carro e muitas outras coisas. Com o dólar nessa situação, nossa vida no Brasil fica ainda mais complicada. Está bem difícil achar patrocínio, e aqui no exterior também.

Muitas marcas estão cortando verba, dispensando atletas, mas acredito que no momento certo alguma marca vai aparecer, vai reconhecer o meu esforço, o meu trabalho, então estou deixando tudo rolar.

No momento não há nenhuma negociação, mas, se Deus quiser, num futuro próximo eu estarei representando uma empresa que goste do meu surfe. Quero me associar a uma marca assim, que tenha um estilo de vida igual ao meu. Eu amo o surfe pelo que ele é, não é por dinheiro ou por nada. Quero representar uma marca tenha os mesmos valores – amar o surfe, o mar, preservar os oceanos…

Acabei de fechar uma parceria muito boa com uma marca de acessórios chamada Ryd. As pessoas vão ouvir falar bastante dela, vem muita novidade aí. Essas parcerias me ajudam bastante. O que pedimos aos fãs do surfe é que sempre que virem uma marca que está começando e já incentiva os atletas, que prestigiem essas empresas também, adquirindo os produtos, visitando o site, seguindo nas redes sociais, apoiando. Se você compra um material com essa marca, você não só adquire um produto de qualidade com um preço mais barato, como também ajuda essa empresa a continuar realizando os sonhos de muitos atletas, fazendo com que eles possam viajar, competir e representar o nosso país.

Para Ibelli, a etapa no Surf Ranch poderia proporcionar mais dias de treino para os atletas.

Qual a sua expectativa para o Surf Ranch? Você não pôde competir no ano passado, mas já surfou lá algumas vezes. Quais seus pontos fortes e pontos fracos naquela onda?

Um dos motivos de ter retornado da trip ao Taiti antes da etapa foi que eu tinha agendado meus treinos no Surf Ranch. Infelizmente eles só deram três dias para treinar, e nesses dias você pega 12 ondas por dia – 6 direitas e 6 esquerdas.

Todo mundo ficou com um gostinho de querer treinar mais, não foi tempo suficiente, foi bem difícil isso. Mas nesses dias eu consegui trabalhar bastante em detalhes que eu já tinha planejado para o meu equipamento, na linha que pretendo fazer. Estou bem confiante, mesmo não tendo competido no ano passado, e acredito que possa fazer um bom resultado.

No último dia desses treinos eu já estava conseguindo surfar bem para os dois lados, que era uma coisa que eu estava trabalhando. Acho que o treino físico é o que vai contar mais, pois a onda é muito longa e você termina de pegar uma direita e já tem que ir na esquerda.

Em Jeffreys Bay, Ibelli teve a chance de bater Kelly Slater novamente, mas caiu em uma onda crucial.

Se nos tubos você tem ido muito bem, nas outras etapas os resultados não foram satisfatórios. Na sua avaliação, o que tem faltado para ser mais constante e chegar mais longe também nas outras etapas?

Realmente nos dias de tubo eu vou bem, apesar de que Margaret não é só tubo e em Pipeline ainda não tive um bom resultado. O que posso melhorar é tática de bateria, quando o mar está pequeno. Aéreo também, de repente, apesar que muitas etapas do Tour não são muito propícias para os aéreos. Acho que perdi muitas baterias por detalhes. É difícil apontar erros, pois no surfe você perde bateria por 0.1, 0.2… Acho que é mais tática de bateria e não cair. Em J-Bay, contra o Kelly, eu caí em um floater no fim da bateria que certamente me daria a nota que precisava.

Estou trabalhando em busca de consistência, em manobrar com mais perfeição e radicalidade. As pranchas que estou surfando da DHD são as melhores que já tive na vida, e isso está refletindo nos bons resultados que consegui este ano nas ondas boas. É questão de tempo e estou trabalhando para evoluir. Quando você trabalha duro, uma hora as coisas começam a acontecer e não param.